adultização e erotização / 28 de abril de 2012

Coisas de menino, coisas de menina

por: Debora Regina


Entro em casa e, na sala, vejo a seguinte cena: Naná vestida de princesa, com os pés descalços e encardidos, jogando futebol de botão com Pedrinho, o irmão mais velho.

Essas situações são comuns aqui em casa. Outro dia, João Felipe brincava de casinha com as meninas, ajudava a carregar o bebê e cuidar da casa. Vantagens de quem tem meninos e meninas em casa: eles têm oportunidade de brincar com todos os tipos de brinquedos. Fico feliz em ver que, pelo menos nas brincadeiras, para meus filhos, a questão de gênero não faz diferença, pelo menos para eles homens e mulheres são iguais e fazem o que lhes der na veneta.

Eu nunca disse para eles que tal atitude/roupa/brinquedo eram para menino ou menina, eles podem brincar com tudo, vestir o que quiserem. Lembro que quando o João era pequeno, me pediu uma pia e panelinhas pois ele queria brincar de cozinheiro, eu comprei uma roxa e amarela. Fico muito brava ao ver que, hoje em dia, não fazem mais geladeira ou fogão brancos, tudo, absolutamente tudo, é rosa, ou seja, além de reforçar que o serviço doméstico só pertencem às mulheres, ainda por cima temos que aceitar o rosa como a única cor possível.

Por outro lado, não há como fugir de alguns estereótipos: Ana Cecília adora rosa, fru-frus, coroas, vestidos, enquanto os meninos curtem brincar de luta, futebol, além de algumas “ogrices” típicas de meninos como arrotar e soltar pum. Isso me faz refletir onde está sendo repetido um padrão social e onde esses gostos e atitudes pertencem às naturezas feminina e masculina. Ainda não cheguei a uma conclusão definitiva, mas, algo me diz que há sim maior influência social.

Para mim, o problema maior quando o assunto é gênero, são as informações vindas de fora, porque as crianças sempre trazem os preconceitos proferidos pelos próprios coleguinhas. Ultimamente, a grande dúvida deles é sobre o que é ser gay, visto que alguns coleguinhas já tacharam que meninos não podem ter algumas atitudes porque são considerados gays. Eu, muito calmamente, explico para eles que o amor pode acontecer com pessoas de todos os sexos: homens que amam mulheres, homens que amam homens e mulheres que amam mulheres. Explico também que isso é algo que só acontece com pessoas mais velhas, então eles não precisam se preocupar com isso. Ponto final.

De minha parte, faço o possível para não reforçar esses estereótipos. Desejo sinceramente que meus filhos sintam-se, acima de tudo, indivíduos livres e sem preconceitos.

(*) Debora Regina é empresária, ativista, doula, professora de literatura, mãe de três crianças que mudaram radicalmente a forma de ver o mundo. Com a maternidade percebeu que precisava repensar o mundo em que vivemos. É também colaboradora do Infância Livre de Consumismo e publicou este texto no Mamíferas em 16/04/2012.


Tags:  #publicidadeinfantil brinquedo consumismo consumo educação feminismo gênero machismo

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Mariana Sá




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0 Comment

May 02, 2012

Muito bom Débora. A gente precisa conduzir a questão com naturalidade, mesmo tendo de enfrentar a pressão social.

Já falei sobre essa questão do sexismo relacionado aos brinquedos lá no blog: http://ivanacoisademae.blogspot.com.br/2011/05/e-tem-problema-brincar-de-boneca.html.

bjos e parabéns!


Aug 24, 2012

Quando meu filho tinha 4 anos (hoje ele tem 6), vendo a irmã e primas usarem esmalte, pediu também. Só tinha rosa. Passou, não gostou, tirou. Na copa do mundo, ainda insistia com os esmaltes. Pintei suas unhas de verde e amarelo. Foi para a escola feliz da vida com as unhas pintadas. Rolaram comentários e dois dias depois pediu para tirar o esmalate. Se não tivesse experimentado, não saberia como é. Acima de tudo, criança é curiosa e a curiosidade às vezes é inibida pelo preconceito.


Oct 11, 2012

Ola Débora,

ótimo post mesmo, mostrando clareza para destruir preconceitos.
Fiquei pensando sobre uma frase que escreveu, a respeito da vantagem em se ter meninos e meninas na mesma casa que é a oportunidade de brincar com qualquer brinquedo. Eu penso que, se vivessemos em um mundo menos preconceituoso, tentando encaixar todo mundo em padrões, essa oportunidade poderia ser de todos e neste sentido específico, isso pode acontecer, desde que se dê liberdade para que as crianças escolham aquilo que quiserem, apesar da maior parte dos brinquedos já vir direcionada.
Outro dia vi um video de uma menina em uma loja de brinquedos ficando indignada porque os brinquedos de meninas são todos rosas, isso porque ela devia ter uns 5 anos, por ai. Espírito crítico nas crianças é o máximo.
Adorei o site e começarei a seguir.
Abraços.


Jan 08, 2013

Realmente, os responsáveis por educar uma criança deveriam ter a ideia que temos agora. Assim não existiriam muitos “ogros” em forma de maridos espalhados por ai, achando que suas esposas/companheiras são suas empregadas. Na minha casa brincamos de casinha com os bonecos “Max Steel e de carrinho com as “Polly” andando nos “Hot Wells”. Não tem brincadeira de menino ou de menina…simplesmente brincamos todos juntos…afinal somos uma família!!!



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