outros / 5 de março de 2013

Não use o controle remoto

controle remoto*Texto de Tais Vinha

Denunciar algo que você considera abusivo na publicidade, internet ou no conteúdo da televisão não é fácil. Os caminhos são tortuosos, difíceis e geralmente demandam horas de garimpo em busca de linques que não levam a lugar nenhum.

A propaganda abusiva, por exemplo, pode (e deve) ser denunciada em dois espaços: no Procon e no Conar.

No Procon, você terá que comparecer pessoalmente. Terá que encarar fila, senha e provavelmente perder meio dia de trabalho (ou mais, dependendo do pega pra capar do dia). Isso, por si só, já impede 99,9% da nossa atuação. Inconformada com essa dificuldade em tempos tão internéticos, recentemente consultei-os por email e recebi como resposta a orientação para enviar minha pergunta por fax para a Diretoria de Fiscalização, através do número (11) 3824 0717. Desativei meu fax há uns 3 anos. Minha consulta ficará em espera até eu conseguir resolver esse impedimento técnico.

O Conar é mais fácil. O novo site facilitou a vida de quem quer reclamar. Mas não solte rojões ainda. Depois de feita a denúncia, os caminhos para que ela chegue ao julgamento dos conselheiros são subjetivos e obscuros.

Primeiro sua denúncia precisa ser acatada. Isto é, alguém (que não sabemos quem) vai lê-la e resolver se dará prosseguimento ou não. Caso ela seja considerada procedente, você receberá um email avisando que “em breve” ela será analisada pelo conselho. Controle sua ansiedade. A interpretação do que é “breve” para o Conar decidamente não é a mesma que a sua.

Contudo, um dos problemas mais graves acontece quando sua denúncia não é acatada. Se ela for considerada improcedente por alguém que desconhecemos, ela desaparece. Você não recebe sequer um email esclarecendo os motivos. Por exemplo, já denunciei um merchandising no canal Nickelodeon da linha Avon Barbie, que afirmava ter “descoberto o segredo de beleza da Barbie”. Se fazer uma criança acreditar que boneca de plástico tem segredo de beleza não for propaganda enganosa, alguém, por favor, me ajude a resignificar enganação. Isso já faz anos e até hoje não sei o que houve com minha denúncia.

Minha última cruzada foi denunciar as novas peças de mídia exterior da Coca-Cola que trazem o slogan “Coca-Cola, beba sem parar”. O código de autorregulamentação da publicidade de alimentos e bebidas proíbe o estímulo ao consumo exagerado. Fiz duas reclamações, uma dia 14 e outra no dia 19 de novembro. Em 3 de dezembro, quase 20 dias depois, o Conar me informou que minha queixa será levada adiante. Uhu!

Até o julgamento, mais o recurso da Coca-Cola e mais o novo parecer do Conar, a multinacional – que é um dos maiores anunciantes do mundo e conhece muito bem a autorregulamentação brasileira – terá mantido suas placas expostas por no mínimo mais 4 meses, atingindo impunemente milhares de consumidores com sua mensagem abusiva. Haja paciência!

E não é só no Conar que há um buraco negro devorador de denúncias. Há algum tempo, o linque para denúncias sobre publicidade da Anvisa voltou como “endereço inexistente”. Quis, recentemente, denunciar um programa de televisão com conteúdo inadequado para a classificação indicada (álcool, drogas e sexo numa série vespertina com classificação indicativa para 10 anos) e não descobri até agora como fazer.

Ao tentar denunciar a Telesena do Restart na SUSEP, o orgão que regulamenta o setor, depois de muito insistir e ameaçar divulgar nas redes sociais, recebi um EMAIL me orientando a mandar uma CARTA. Só pode ser piada, certo?

Já tentei mandar email para os canais infantis e desisiti. Desafio-os a encontrar um “fale conosco” no site dos canais pagos infantis.

A conclusão a que chego é que todos cobram nossa atuação como pais. Desde que ela se resuma apenas aos nossos lares. Fora deles, tudo é feito para que você não leve adiante a sua indignação.

Por isso a máxima repetida exaustivamente: “usem o controle remoto”.

Nos mandar mudar o canal ou desligar o monitor é safadeza porque não incomoda a ninguém do lado de lá. E bota toda a responsabilidade no lado de cá.

Lidar com gente que sabe os seus direitos, vê os abusos, denuncia e cobra uma atuação dos orgãos competentes dá trabalho, incomoda, tira da zona de conforto, enche o saco, interfere nos lucros! A verdade é que não querem a nossa atuação.

Acho também que há um profundo descaso. Uma falta de consciência de que os pais podem ser atores fundamentais na melhoria da sociedade. Inclusive de nossa parte. Ainda não nos vemos, coletivamente, como atores nesse cenário.

Com isso assumimos submissamente a culpa. E para denunciarmos isso, amigos, só procurando o analista.

*Tais Vinha é mãe, escritora, ativista e palpiteira e escreve no Ombudsmãe.


Tags:  conar controle remoto denúncias Procon publicidade infantil

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Mariana Sá




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Mar 05, 2013

Fantástico o texto de Taís Vinha. É um tapa na cara da hipocrisia com que a ABAP e o CONAR vêm tratando os pais.



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