publicidade de alimentos / 12 de agosto de 2013

Comida, carinho e publicidade: o que alimenta o consumismo e a obesidade infantil?

Texto de Desirée Ruas*

Dados da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais mostram que uma em cada três crianças de cinco a nove anos está acima do peso. Por causa de alimentação inadequada, outros estados brasileiros também vivem uma realidade semelhante. No Brasil, a redução dos índices de desnutrição vem sendo acompanhada pelo aumento da obesidade entre as crianças. Segundo dados do IBGE o sobrepeso dobrou nos últimos 34 anos, e 15% da população infantil brasileira está obesa

Para entender essa transformação no peso e na saúde das crianças é preciso entender as mudanças da própria infância, da sociedade, das relações familiares e a forma como os alimentos se inserem na vida das pessoas.

O seminário Combate à Obesidade Infantil, realizado dia 25 de junho de 2013 na Câmara Municipal de Belo Horizonte, reuniu especialistas de várias áreas discutindo os desafios para a proteção da saúde das crianças, repensando os papéis da família, da escola, dos profissionais de saúde e a necessidade de políticas públicas que ajudem na promoção da saúde infantil.

Médicos, nutricionistas e psicólogos falaram das inúmeras dificuldades impostas às crianças obesas e suas famílias, que precisam mudar a alimentação e o estilo de vida. Não basta a família não comprar determinados alimentos porque outros espaços de convivência irão apresentar estes alimentos para as crianças. A televisão vai convidar para o consumo e como os pais vão conseguir dizer não? As pessoas são educadas para consumir sem consciência, sem uma leitura crítica do que é oferecido a elas pela publicidade, que enaltece as vantagens do produto e omite seus prejuízos. E pensando que as crianças não conseguem diferenciar o discurso comercial do restante da programação – um dos fatores para se considerar a publicidade dirigida a crianças abusiva – como as famílias vão fazer frente a todas as armadilhas do consumo?

Com açúcar, com carinho

Para mudar essa realidade, é preciso transpor outro obstáculo, provavelmente o mais complexo: a relação entre afeto e alimento. Como dizer não às guloseimas oferecidas carinhosamente pelo avô ou outro membro da família que quer agradar a criança com aquele presente? Com o objetivo de adoçar a vida, os chocolates são um presente muito comum, para adultos e crianças. Mas a relação com o alimento se confunde com a relação com as outras pessoas e com sentimentos que temos por elas. As famílias tentam compensar a ausência com presentes e também com comida. Pais e mães também querem demonstrar o cuidado e o amor que têm pelos filhos aceitando todos os pedidos das crianças com relação a guloseimas e presentes.

A busca insaciável pelos doces e pelo alimento de uma forma geral pode encobrir uma carência emocional. Como abrir mão das receitas de família, dos pratos saborosos e que remetem a pessoas queridas e momentos felizes? Os pais também sentem-se realizados por poderem oferecer a seus filhos alimentos a que eles não tinham acesso quando crianças. E não podemos ignorar o forte apelo dos comerciais que aproximam as crianças desde a mais tenra idade de todo o mundo açucarado das guloseimas por meio da televisão e também da Internet. Sem controle de nenhuma ordem, os comerciais marcam presença na vida das crianças, despertando o desejo por biscoitos recheados, refrigerantes e sanduíches, muitas vezes acompanhados de embalagens com personagens animados e brindes colecionáveis.

Outra explicação para o aumento da obesidade entre as crianças está na falta de brincadeiras. Estamos presenciando uma infância muito ativa intelectualmente, com muito acesso à informação, mas muito passiva em relação ao corpo e ao movimento e que vem desaprendendo a brincar por falta de espaço, companhia ou estímulo da escola ou da família. Excesso de computador, de televisão e joguinhos eletrônicos e quase nada de pega-pega, queimada ou futebol. No documentário Muito Além do Peso, que traz reflexões importantes sobre a situação da obesidade infantil no país, a menina conta que, no recreio da sua escola, “quando a criança corre ela vai para a diretoria”.

Movimentando-se pouco e ingerindo muitas calorias vazias, as crianças podem começar a ganhar peso e até desenvolver doenças típicas de adulto. Obviamente há questões genéticas que fazem com que, em uma mesma residência, dois irmãos que estão expostos à mesma alimentação e ao mesmo estilo de vida tenham pesos bem diferentes. Mas o fato é que, de uma forma geral, a obesidade é hoje uma realidade na vida de milhões de crianças e adolescentes.

Tentar escapar do senso comum e ir fundo nas questões é um desafio fundamental para a compreensão do consumismo e da obesidade, seja em adultos ou em crianças e adolescentes. Se não falta informação, por que continuamos ingerindo alimentos que nos fazem engordar e ter problemas de saúde? E mais: se sabemos o que não devemos oferecer para nossos filhos, por que continuamos comprando estes alimentos? Falta-nos motivação para as mudanças? O hábito tende a sair vitorioso? Estamos nos habituando com um tipo de alimentação não saudável. Alimentos práticos e baratos são encontrados facilmente no comércio (até em bancas de jornal e drogarias) e marcam presença de segunda a domingo em casa e também na merenda escolar. As escolas públicas ou privadas ainda estão longe de ser um espaço de discussão e de exercício da educação alimentar. Até quando as cantinas escolares, terceirizadas ou não, vão continuar vendendo aquilo que é lucrativo, independente de serem permitidos ou não pela legislação e de serem bons ou não para os alunos?

Mudança para toda a família

Profissionais do Grupo de Apoio a Crianças Obesas e seus Familiares do Hospital Infantil São Camilo, de Belo Horizonte, também participaram do seminário. A experiência do grupo mostra a importância da coerência entre o que se fala e o que se faz. A criança não vive isolada em uma família. As mudanças que são necessárias para a alimentação da criança precisam ser adotadas também pelo pai, pela mãe, pelos irmãos e por todas as pessoas que moram na mesma casa. Se uma criança precisa mudar o estilo de suas refeições, toda a família deve repensar sua alimentação e decidir quais são as regras da casa com relação a refrigerantes e sucos industrializados, salgadinhos e doces. Atualmente, nossas crianças comem mais produtos industrializados, menos comida caseira, menos arroz com feijão, menos frutas e mais guloseimas e outros alimentos muito calóricos e pouco saudáveis. Se para um adulto é difícil dizer não ao consumo de alimentos não saudáveis, mas saborosos, imagine para uma criança. É preciso entender como as crianças obesas ou com sobrepeso se sentem. Como crianças e adolescentes vão reagir frente à incoerência do mundo que estimula o consumo e o associa à felicidade e que, ao mesmo tempo, os obriga a ficarem de fora desta sensação de prazer?

*Desirée Ruas é mãe de duas, jornalista, especialista em Educação Ambiental, coordenadora do Movimento Consciência e Consumo, de Belo Horizonte. Atua em causas como defesa da infância e combate ao consumismo infantil, leitura crítica da mídia, direitos e deveres do consumidor e ações socioambientais por uma vida mais saudável. 

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Tags:  combate à obesidade infantil obesidade infantil publicidade de alimentos reeducação alimentar

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Mariana Sá




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1 Comment

Aug 12, 2013

Muito, muito bom, parabéns pelo texto. Não sabia que tinha tido esse evento aqui em BH.
Levei um susto quando em uma consulta de rotina no ano passado a pediatra disse que estava começando a pedir exames de sangue para todas as crianças a partir de 3, 4 anos. Perguntei por quê e ela explicou que com esses exames está encontrando problemas como altas taxas de colesterol, triglicérides, deficiências vitamínicas etc. E disse que já atendeu várias crianças com pressão alta. Inaceitável.



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