publicidade de alimentos / 7 de outubro de 2013

Michelle Obama faz discurso contundente sobre a publicidade de produtos alimentícios para crianças

Texto de Michele Simon*, publicado aqui em 24 de setembro de 2013

Tradução de Silvia Düssel Schiros** autorizada pela autora

Na semana passada, Michelle Obama reuniu 100 representantes da indústria de produtos alimentícios, especialistas da área e defensores da saúde pública em um encontro na Casa Branca para discutir a questão da publicidade de produtos alimentícios de baixo valor nutricional para crianças. A primeira-dama deu algumas declarações públicas, depois se retirou para uma discussão a portas fechadas com os participantes, supostamente para encontrar algumas soluções. O discurso da primeira-dama foi melhor do que eu esperava. Eu, que desde o início não senti firmeza no programa Let’s Move (Mexa-se) da Sra. Obama (e, no fim das contas, estava certa), fiquei feliz em ver que ela foi dura em suas críticas.

Ao falar da grande influência da publicidade sobre os hábitos alimentares das crianças, a primeira-dama refutou o argumento mais comum da indústria de alimentos: os pais é que não sabem lidar direito com a questão. Infelizmente, este ainda é um argumento muito comum entre os americanos, e é um dos principais obstáculos enfrentados pelos ativistas que trabalham para proteger as crianças contra a exploração das empresas. Mas, como já venho mostrando há tempos, as duas afirmações são verdadeiras: os pais são responsáveis por oferecer uma boa alimentação aos filhos, e as empresas não deveriam se aproveitar das vulnerabilidades das crianças.

Segundo a Sra. Obama, é assim que a publicidade afeta as crianças:

“Todos sabemos que as crianças são como esponjas: absorvem tudo à sua volta. Mas ainda não têm capacidade de questionar e analisar aquilo que veem e ouvem. Acreditam em quase tudo, principalmente naquilo que veem na TV. E numa época em que as crianças passam quase oito horas por dia em frente a algum tipo de tela, muitas de suas opiniões e preferências são moldadas pelas campanhas publicitárias criadas por vocês. E é aí que mora o problema.”

Em seguida, explicou como os anúncios levam as crianças a perturbarem seus pais, afirmando que “crianças que veem anúncios de produtos alimentícios na TV ficam muito mais propensas a pedir que os pais comprem tais produtos; esse fenômeno é conhecido como ‘fator amolação’… Além disso, pesquisas mostram que as crianças começam a pedir determinados produtos com apenas 24 meses de idade, e 75% das vezes esses pedidos são feitos nos corredores de um mercado.”

A Sra. Obama também explicou como a publicidade é feita para influenciar os pedidos das crianças e como essas estratégias dificultam o trabalho dos pais; quando pedem algum tipo de comida, 45% das crianças pedem alguma porcaria, como hambúrgueres, batatas fritas e balas. “Assim, enquanto nossos filhos ainda estão nas fraldas, nós, pais, iniciamos uma batalha árdua para despertar neles o interesse por alimentos verdadeiramente nutritivos.” Então ela derrubou outro argumento muito usado pela indústria: o de que os pais têm simplesmente que “desligar a TV”:

“Assim como muitos pais, Barack e eu fazemos tudo o que está ao nosso alcance para restringir o tempo que nossas filhas passam na frente da TV. Mas, como todos sabem, os anúncios não estão apenas na TV. Estão na internet, nos videogames, nos smart phones, nos outdoors. Estão até nas escolas e dentro das lojas. Estão em todo lugar, e os pais simplesmente não dão conta do recado, não importa o quanto se esforcem. Portanto, independente de nossas opiniões sobre a responsabilidade e determinação de cada um, acho que todos concordam que esses conceitos nem sempre se aplicam às crianças.”

Minha parte preferida foi quando ela cobrou que a indústria “ajudasse a fortalecer a autoridade dos pais em vez sabotar seus esforços no sentido de buscar alternativas mais saudáveis para suas famílias.” A primeira-dama disse que a indústria tem que parar de sabotar os pais. Isso é o máximo.

Obrigada, Sra. Obama, por falar em alto e bom som aquilo que muitos pais, profissionais de saúde e ativistas vêm dizendo há muito tempo. Só há um problema: o escritório da primeira-dama está do lado errado da Casa Branca. Imaginem se essas palavras tivessem sido ditas pelo presidente. E se o líder dos EUA mandasse os executivos das empresas de produtos alimentícios e mídia pararem de sabotar os pais? Qual seria o impacto dessas palavras se tivessem saído da boca do Sr. Obama?

Vamos imaginar um cenário alternativo para a reunião secreta “a portas fechadas” que se deu após o discurso. Ali reuniram-se diversos atores, em uma tentativa utópica de encontrar soluções voluntárias definidas apenas pela indústria, considerando que a primeira-dama não tem nenhuma autoridade no que diz respeito à definição de políticas. Como seria tal cenário alternativo?

Que tal audiências no Congresso em que profissionais de medicina e saúde falassem sobre os inúmeros problemas de saúde enfrentados pelas crianças devido à má alimentação? E sobre a relação entre a publicidade predatória e os hábitos alimentares das crianças? E se os pais falassem sobre como seus melhores esforços foram sabotados pela onipresença da publicidade de produtos alimentícios voltada para o público infantil?

Imaginemos agora como seria se os representantes do povo organizassem uma audiência com os presidentes da Coca-Cola, do McDonald’s e da Nickelodeon, exigindo respostas sobre seus motivos para continuarem focando no público infantil em meio à atual crise de saúde pública. E imagem como seria se, depois de tudo isso, fosse criada uma legislação ou regulamentação restringindo as práticas predatórias de negócios a fim de proteger as crianças da exploração.

É claro que é tudo um sonho: nem o Presidente Obama nem o Congresso americano demonstram disposição para enfrentar a indústria de produtos alimentícios. Quando o Grupo de Trabalho Interdisciplinar (Interagency Working Group, comandado pela Comissão Federal de Comércio, responsável pela regulação da publicidade) se organizou, no primeiro mandato do presidente Obama, para tentar melhorar as diretrizes voluntárias da indústria de produtos alimentícios através de uma abordagem baseada em evidências científicas, o esforço foi por água abaixo.

Agora a Sra. Obama está tentando usar seu charme para conseguir fazer o que quatro agências federais americanas não conseguiram fazer. É claro que pode ser que as grandes empresas da indústria de produtos alimentícios façam pequenos ajustes em suas práticas de marketing para conseguirem o selo de aprovação da primeira-dama e uma coletiva de imprensa com ela, como aconteceu com a Disney e o Walmart. Mas não nos deixemos enganar: não serão melhorias significativas nem duradouras. Já não é de hoje que a autorregulamentação voluntária existente em diversos setores é usada para gerar uma imagem positiva para as empresas, mas com resultados palpáveis pífios.

A primeira-dama brincou, em seu discurso, que alguns membros da indústria devem estar só enrolando, pensando com seus botões: “Daqui a alguns anos ela não estará mais aqui; enfim o programa Let’s Move acabará e poderemos voltar a trabalhar do mesmo jeito de sempre.” É exatamente isso que eles pensam. Mas ela observou que o assunto não deixará de ser abordado quando terminar o mandato de Obama, em alguns anos.

Mesmo que os atuais representantes eleitos pelo povo americano não tenham coragem de fazer nada para proteger a saúde das crianças, a opinião pública está cada vez mais hostil quanto ao marketing predatório. E devemos isso à primeira-dama, a grupos ativistas como o Corporate Accountability International e à voz cada vez mais forte de organizações e defensores dos nossos direitos.

Para obter mais informações e saber como agir, acesse FoodMyths.org.

Texto publicado originalmente no site do grupo Corporate Accountability International.

*Michele Simon é advogada atuante na área de saúde pública, especializada em estratégias jurídicas de combate a táticas corporativas nocivas à saúde pública. Vem pesquisando e escrevendo sobre a indústria e políticas de alimentos desde 1996. Seu primeiro livro, Appetite for Profit:How the Food Industry Undermines Our Health and How to Fight Back, foi publicado em 2006. Marion Nestle, professora da Universidade de Nova York, considera o livro brilhante, e tornou sua leitura obrigatória para alunos do curso de nutrição. Michele é mestra em saúde pública pela Universidade de Yale e formada em direito pela Universidade da Califórnia.

**Silvia Düssel Schiros é mãe de duas, tradutora, preocupada com o futuro das crias e do mundo. É co-fundadora do Movimento Infância Livre de Consumismo e colabora também com o coletivo Faça a sua parte.

Imagem: http://www.eatdrinkpolitics.com


Tags:  Michelle Obama publicidade de alimentos publicidade infantil responsabilidade compartilhada responsáveis

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Mariana Sá




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