campanhas / eventos / 10 de outubro de 2013

Por um Dia das Crianças diferente em Belo Horizonte

Texto e imagens de Desirée Ruas*

Mais uma vez Belo Horizonte participou da grande mobilização nacional promovida pelo Instituto Alana por um Dia das Crianças diferente. A II Feira de Troca e Doação de Brinquedos de BH reuniu centenas de pessoas no Parque das Mangabeiras com o objetivo de trocar e doar brinquedos e livros e também ouvir histórias e refletir sobre o consumismo infantil.

2013_feiraA todos que acreditam na importância de experiências que colocam a consciência à frente do consumo e propõem um novo jeito de se fazer as coisas, como as feiras de troca, um alerta: temos um longo caminho pela frente. Mesmo com todos os relatórios e pesquisas internacionais que mostram o esgotamento dos recursos do planeta e apesar de todas as provas de que o ser humano precisa repensar a sociedade em que vive, ainda vivemos uma cultura do apego, do acúmulo, do desperdício e do egoísmo. Em um mundo que diariamente nos ensina a competir, dá trabalho aprender a colaborar e compartilhar. Mas vale a pena o aprendizado.

A experiência da feira de troca de brinquedos, que felizmente tem acontecido em várias cidades do Brasil neste mês de outubro, nos mostra uma alternativa concreta para refletirmos sobre o consumo e fazermos um Dia das Crianças com mais consciência.

Afinal, o que esperar do futuro do planeta se os adultos de amanhã forem consumistas desde o berço? Crianças que são hoje consumistas provavelmente serão adultos ainda mais consumistas e isso, sob o ponto de vista ambiental, é muito preocupante, já que depositamos nelas um poder de mudança e de proteção do planeta. Do ponto de vista pessoal, crianças que têm tudo que pedem e não ouvem “não” podem ter problemas no futuro porque a frustração vai fazer parte da vida delas. E, socialmente, como será nossa sociedade se não educarmos nossas crianças para a troca, para o compartilhamento, para a doação?

É preciso ensinar a compartilhar, a trocar e a doar, abrindo mão do excesso e repensando a influência da mídia e da publicidade sobre nossas reais necessidades. Também podemos ter consciência do nosso consumo e de todos os seus impactos pessoais, sociais e ambientais.

Uma feira de troca de brinquedos é uma experiência enriquecedora, pois traz benefícios para as pessoas, para as relações entre as pessoas e para a nossa relação com o planeta. Questiona o bombardeio publicitário, mostra que presente não precisa necessariamente ser comprado, evita o endividamento das famílias por causa dos gastos com a compra de novos brinquedos, reduz o uso de matéria-prima (não podemos nos esquecer que precisamos de uma economia que leve em conta a finitude dos recursos do planeta) e exercita novas relações entre as crianças. Muitos benefícios em uma única experiência.

2013--feira

Mas a atenção principal de quem organiza uma feira assim não é pensar se as crianças vão respeitar os combinados. As crianças se comportam muito bem. O desafio está em conseguir que alguns pais entendam as regras principais: são as crianças que fazem as trocas e o que vale é o valor simbólico que a criança dá ao brinquedo e não seu valor monetário. As famílias e os voluntários só ajudam quando necessário, em algum conflito maior que as crianças não dão conta de resolver sozinhas. Mas a tentativa da troca é um aprendizado importante para elas. E a frustração, quando a troca não acontece, também contribui para o desenvolvimento das crianças.

Na feira de troca, os brinquedos não estão à venda, eles são peças que passam de uma criança para outra pelo simples desejo das duas partes. E, se uma parte não quiser, a troca não acontece, mas novas possibilidades estão logo ali.

O desejo de quem torce pela iniciativa é que, em cada feira de troca de brinquedos que aconteça, pais e mães aceitem a proposta do evento de não intervir, de não monetarizar a troca e não desrespeitar a vontade da criança. Se a família não está disposta a trocar um carrinho de controle remoto por um pequeno bichinho de pelúcia, que não leve o carrinho de controle para a feira. Se a família achar que a feira é um lugar para fazer bons negócios, com o intuito de levar vantagem ou coisa parecida, que repense sua participação no evento. Ao aceitar o convite da feira de troca, as famílias aceitam as regras das trocas, fundamentais para que tudo corra bem e o propósito do evento seja alcançado. Os brinquedos também devem estar limpos, completos e funcionando. Levar carrrinho sem roda e boneca sem braço também não é seguir as regras da feira. O cuidado com os pequenos detalhes fazem a diferença para o sucesso da feira.

Lidando com a diversidade de pensamento, nosso aprendizado se torna mais rico e passamos a compreender ainda mais o desafio de buscarmos experiências que promovam uma consciência crítica, que valorizem as pessoas, que cuidem das relações e do planeta.

2013__feira

No Parque das Mangabeiras

Aqui em Belo Horizonte, na II Feira de Troca e Doação de Brinquedos, no dia 5 de outubro de 2013, presenciamos pais e mães que receberam a proposta com entusiasmo e levaram seus filhos para experimentar outra forma de ter novos brinquedos sem precisar comprar. Outros estavam indo pela segunda vez e já apoiavam a ideia. Muitos voluntários trabalharam para a realização do evento e a diversão ficou por conta dos voluntários Nuno Arcanjo, Rodrigo Libânio e Paulo Fernandes com suas histórias e músicas. Um evento propositalmente realizado sem marcas, sem patrocínios e contando apenas com a vontade de refletir sobre o que hoje tem sido oferecido como diversão para crianças: marketing de empresas disfarçado de ações culturais e educativas em eventos infantis. Também para refletir sobre o bombardeio comercial sobre nossas crianças é que a II Feira de Troca e Doação de Brinquedos aconteceu em 2013 em BH. Muitas trocas, amizades e reflexão sobre consumismo infantil se concretizaram no Parque das Mangabeiras, uma imensa área verde que nos estimula ainda mais a repensar nosso consumo e buscar proteger o ambiente em que vivemos com carinho, cuidado e amor pela infância e por todos.

Desirée Ruas é mãe de duas, jornalista, especialista em Educação Ambiental, coordenadora do Movimento Consciência e Consumo, de Belo Horizonte. Atua em causas como defesa da infância e combate ao consumismo infantil, leitura crítica da mídia, direitos e deveres do consumidor e ações socioambientais por uma vida mais saudável. 


Tags:  Belo Horizonte Dia das Crianças 2013 Feira de Troca de Brinquedos

Bookmark and Share




Previous Post
Nossa terceira feira de troca de brinquedos em Salvador
Next Post
Um novo mundo para as crianças é possível



Mariana Sá




You might also like




0 Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *



More Story
Nossa terceira feira de troca de brinquedos em Salvador
Texto especial para o Milc de Mariana Sá* A Feira de Troca de Brinquedos Poema de Gustavo Santa Cruz** Na feira de brinquedo Todo...