Talvez os brinquedos sejamos nós

Texto de Gleyci Nascimento*

A relação de amor (barbiemania) e ódio (barbienóia) da América do Norte com a barbie tem rendido enumeras análises. Porém, não deram atenção a sua ramificação textual, a Revista Barbie (Barbie Magazzine); onde sua função primordial é a produção e a reprodução de imagens de certos tipos de feminilidade no intuito de treinar as meninas a se tornarem perfeitas consumidoras de produtos de embelezamento. Pois, todas as revistas femininas de moda e de beleza são, em última análise, manuais para tipos especiais de treinamento em feminilidade.

A Barbie Magazine é o texto preparatório, o manual de treinamento básico para meninas que mais tarde irão ler revistas para adolescentes, tal como Revista Capricho. Estas, por sua vez, preparam as adolescentes para a revista de moda destinadas aos adultos, tal como a Revista Nova, Vogue, Claúdia, etc.

foto 1Porém, o papel representado pela Revista Barbie dentro do contexto mais amplo de revista de moda e beleza para adultos não pode ser superenfatizado. À medida que essas revistas são uma parte do vasto aparato de indústrias ao assentar a base textual para a boneca de plástico personifica: as meninas são não só instruídas a consumir, mas ensinadas a aceitar a sua passagem da infância para a adolescência em termos de mercadoria. Eles focalizam a concepção que a criança tem das transformações associadas à adolescência num modelo singular e sugerem que a mudança está de algum modo vinculada ao consumo demercadorias.

É por isso que essencial as lições, sobre feminilidade, é a premissa de que ser feminina é estar em constante necessidade de inovação estética; as ensinam que as mulheres, assim como os carros, devem ser redesenhados todo ano. A Revista recicla a cada número, a fim de convencer suas leitoras de que elas têm a necessidade perpétua de inovação (consumo): a seção editorial (que inclui guias de beleza, coluna de conselhos e anúncios de moda), propaganda (enfileirando produtos de beleza, roupas e é lógico que as parafernálias relativas á Barbie) e a fotonovela da Barbie.

Podemos observar que tudo isso engloba uma orientação de comportamento que gera cada vez mais o consumo e por consequência o lucro que movimenta essas empresas (principais interessados).

Os guias editoriais de beleza regularmente retratados na Revista Barbie codificam o modelo de corpo da criança como sendo um território sobre o qual é imposto um rigoroso e sistematizado treinamento básico para feminilidade normalizada.

O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma anatomia política, que é também igualmente uma mecânica do poder, está nascendo; ela define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos dóceis.

As crianças, principalmente as meninas, são constantemente alvejadas por campanhas mercadológicas que têm a fama e a riqueza como valor e incentivam uma preocupação precoce e excessiva com a aparência; encorajando as meninas a empenhar-se em fazer um papel, mas como papéis calcados em mercadorias não requerem investimento pessoal da parte da menina, eles se mostram vazios e, por tanto, no final, profundamente frustrante que acabam por gerar problemas. Pois, os dois eixos emocionais ativados pelos anúncios são: identificação e competição. Estes eixos impossibilitam as meninas de aceitar ou apreciar sua própria diferença, bloqueando assim, sentimentos de autoestima. Do momento em que o anúncio constrói nas suas espectadoras – alvo um “eu” cronicamente insuficiente, ele reprime a possibilidade de uma expressiva e não competitiva interação com os outros. Fazendo muitas vezes um desdobramento da menina como produto.

foto 5Seguindo essa dinâmica, a Revista Barbie constrói o que a boneca manifesta e inicia suas leitoras nas práticas que as revistas destinadas a mulher adulta irão dar continuidade (inclusive futuramente, introduzindo suas filhas num mundo cor de rosa… o mundo Barbie).

Provavelmente, esse ciclo seja o motivo pelo qual alguns acreditem que questionamentos em torno de algo tão inocente sejam feitos por alguma neurótica “sem vaidade” (ou seja, uma feminista), que buscam problemas onde não há. Pois afinal, que mal há em levar minha filha para um salão de beleza (tal a mãe, tal a filha é o que há de mais fofo)? O fato é que os questionamentos não são bobos e desnecessários como tentam fazer parecer. Ao contrário, pois, ao ensinarem (adestrarem) crianças, ainda em formação, a um comportamento individualista, supérfluo e precoce  que, muitas vezes, acabam por contribuindo pra efeitos sérios tais como: baixa autoestima, depressão, ansiedade, compulsão por gastos e distúrbios como a anorexia.

Além de tudo, a tendência de ‘adultizar’ as crianças com o objetivo de ampliar as opções de venda do mercado, induzindo-as por meio de mensagens publicitárias e promoção de estilos de vida materialistas, não é uma conduta ética, nem legal. No Brasil, essa consciência vem dando resultados. No último mês de abril, a história dos direitos da criança no Brasil deu um importante salto em direção à garantia de uma infância plena, sadia e feliz. Isso ocorreu por força da Resolução nº 163 emanada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que passou a considerar abusiva toda e qualquer publicidade ou comunicação mercadológica dirigida ao público menor de 12 anos de idade.

Os primeiros passos foram dados, porém, temos que nos manter vigilantes e atentos. Pois, ainda temos muita coisa para mudarmos (a sedunção com este objetivo não esta presente apenas em campanhas publicitárias, existem outras ferramentas com o mesmo objetivo).

O que pretendo com esse texto  é alertar quanto a construção daquilo que a primeira vista parece natural, e sugerir como uma imagem construída, assim como uma palavra ou sentença pode se tornar codificada e carregada de significado. Pois, a Revista Barbie a primeira vista parece apenas um recurso para fazer dinheiro com a boneca. A revista não faz nenhum segredo da sua função de vitrine para vender mais produtos da Mattel em domicílio, mas como vimos não é tão simples assim.

A Revista Barbie não é apenas uma revista infantil. Ela sugere um tipo de comportamento, algo que devemos questionar. O importante de se considerar é que imagens infantis nos fazem baixar nossas defesas intelectuais e depois nos infecta com ideias subversivas.

Imagens da autora.

(*) Gleyci é formada em Comunicação Social, Pós graduada em Marketing e apaixonada pela análise do discurso. Tem um filho com 4 anos. E a necessidade de questionar a formação dos gêneros intensificou com a chegada do Enzo.  Como mãe vê a importância de identificar as ferramentas desta formação e tentar mudar. Não só na nossa forma de educar, mas também na interferência do Mercado (através dessas ferramentas) na formação dos nossos filhos.


Tags:  Barbie boneca gênero leitura revista

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Mariana Sá




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