Quanto mais caro o presente, maior o amor

Texto de Paola Rodrigues*

Faz poucas semanas, estava em uma daquelas lojas que vendem de tudo, de chocolate a porta moeda, quando me deparei com toda uma seção de brinquedos infantis. Como minha filha estava com uns brinquedos não muito interessantes e as reciclagens em casa em baixa, achei pertinente procurar algo para ela.

Em primeiro, queria compreender porque cargas d’água existe uma seção de brinquedos para meninas e uma para meninos.  E pior, porque meninas ficam com bonecas, fogões, vassouras, panelas e meninos com carrinhos, simuladores de engenharia, blocos e itens “radicais”. Até então, na minha pouca experiência com brinquedos infantis, sabia que havia a Ditadura do Rosa e Azul, só não compreendia a fundo, a ditadura da “mulher na cozinha” e “homem trabalhando”, imposta desde muito cedo. Uma programação muito pouco sútil e concisa.

Passado o primeiro susto, levei um novo susto, o valor dos brinquedos. Tenho a informação, que alguns itens realmente são caros porque seu material é mais complexo, a importação e a marca agrega um valor, mas não consegui captar a essência de uma boneca pequena, monocromática, custar algo na média de três dígitos.

Voltei para casa realmente questionando porque os pais compravam aquilo. Não fazia sentido, não compreendia a importância. No fim, vi até um carrinho mínimo que equivaleria a 1/3 do meu aluguel em cidade do interior. Poxa, a inflação ficou assim mesmo?

Foi quando me lembrei de um pequeno causo da minha infância. Meu pai, um metalúrgico muito ocupado, adorava gastar uma parcela do seu salário em bonecas. Trabalhava de segunda a sábado e no domingo, ficava deitado no sofá vendo TV, descansando da sua “rotina trabalhadora”.

Minha mãe, uma costureira, pra lá de esforçada, passava todos os dias em sua máquina, fazendo o melhor que conseguia. Ambos tinham um distanciamento típico dos pais dos anos 90, acredito.

Todo domingo, meu pai me comprava doces e sempre me trazia bonecas, com vestidos bufosos, cheios de adornos e brilhos, detalhes impecáveis e uma caixa cheia de imagens que prometiam um reino encantado. Como toda criança, era bem… Artística? É isso. Adorava pintar e enfeitar mais as bonecas. Fazia máscaras de deuses nelas, repaginava o vestido de uma forma mais ousada e fazia delas minhas heroínas perfeitas: bem loucas.

Meu pai ficava insano “Que isso, Paola! É para brincar com elas, não destruir! Paguei caro nelas para você!”. Acho que neste exato ponto, há 15 anos, meu pai me respondia uma questão feita nos corredores da loja. Quanto maior o preço, maior a sensação de dever cumprido.

Trabalhamos 40 horas semanais ou mais, vivemos uma rotina caótica para garantir o sustento dos filhos, comida, escola, vestuário, inglês, dois tipos de esporte, uma aula de música e três outras atividades variadas para o intelecto perfeito. Criamos filhos que prometem ser uma máquina de sucesso e no fim do dia, chegamos em casa, queremos descansar e ver nossas crias num canto da sala, com o tablet na mão ou aquele brinquedo que custou ¼ do salário. Isso causa uma sensação boa, de que cumprimos nosso dever de prover tudo para eles.

Minha mãe, um tanto mais humilde e menos usuária da TV, costumava me deixar brincar com os retalhos de tecido que sobravam. Ficava no pé dela, fazendo roupinhas para meus brinquedos, casinhas de pano, criando um look divertido e geralmente, não sentia tanta solidão. Acredito que ela fazia isso sem perceber, mas é um bom exemplo para a questão.

Os pais de nossos pais, já diziam “Nem tudo que reluz é ouro”, portanto, nem tudo que custa muito caro e promete entreter seu filho – para que você mal note a existência dele – é a solução. É um paliativo para nós.

Não é saudável para ninguém comprar um brinquedo de x valor, explicar para a criança que você não pode brincar com ela, porque afinal, você está fazendo hora extra para pagar aquela exato brinquedo.

Minha geração já colhe frutos de uma criação distante, baseada em TV e brinquedos caros. Por muito tempo tive problemas em me sociabilizar, porque estava acostumada com os adultos ocupados a minha volta. Também tive um apego incrível aos meus preciosos brinquedos, o que me proporcionou quando criança uma visão limitada de diversão.

Acho que fica o apelo para que em nosso tempo, compremos brinquedos para as crianças, não para nós. Pode ser no valor que for, essa é uma escolha pessoal, mas que seja pelos motivos certos. Que reservemos algumas horas do dia para brincar, explorar, sonhar e aprender com aqueles pequenos seres humanos com uma imaginação fantástica.

Porque dizem que o sorriso de uma criança vale ouro, mas tenho certeza que o sorriso dos pais com os filhos, vale mais que uma loja toda de brinquedos.

Quem estiver disposto a se aprofundar mais neste tema recomendo clique aqui e assista ao vídeo Nós hipotecamos o futuro’, uma critica do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Imagens do The Pink & Blue Project
(*) Paola cursa o primeiro ano de Licenciatura em História, é escritora, produtora cultural e apaixonada pela maternidade. É mãe orgulhosa de duas, mesmo só podendo estar com uma. Escreve no blog Cartas para Helena, onde o foco é deixar um relato de pensamentos e percepções para a pequena Helena. É colaboradora na Revista Obvious, ativista no acesso a cultura e arte para todos e acredita que estamos criando um mundo melhor, quando deixamos crianças serem crianças. http://cartasparahelena.wordpress.com/.


Tags:  consumismo consumismo infantil consumo infância

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Mariana Sá




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