criança e mídia / 1 de julho de 2014

Cerveja em campo: quem defende a criança da exposição às marcas?

Texto de Desirée Ruas*

Semblantes maravilhados e olhos fixos no grande telão. O comercial mostra o encantamento dos moradores de uma pequena cidade brasileira acompanhando a Copa do Mundo em um super evento, cheio de luzes e cores. O objetivo, segundo a cervejaria, é democratizar o acesso ao Mundial e levar a emoção do futebol ao maior número de pessoas e lugares. A marca de cerveja proporciona o espetáculo e também, mais uma vez, a divulgação do produto junto ao público de todas as faixas etárias. O comercial não mostra, mas será que nessa cidade não tem criança? Será que os olhos que contemplam tal emoção são apenas os dos adultos?

Já nas cidades-sede, durante a transmissão dos jogos, em meio a uma multidão, a câmera focaliza uma torcedora sorridente com um copo (ou seria um balde) de cerveja na mão. Depois outro torcedor e mais outro e mais outro. Em câmera lenta, o incentivo ao consumo torna-se ainda mais intenso. A marca de cerveja está lá e em todos os lugares, nos copos, nas placas e nos comerciais, realizando milhares de eventos, envolvendo todo o Brasil na onda da Copa, com atrações musicais que agradam principalmente ao público jovem.

A relação futebol e cerveja tem uma longa história e mesmo assim nos perguntamos quem ganha e quem perde nesse jogo de poder econômico e de incentivo ao consumo? Podemos realizar eventos, como a exibição de jogos da Copa do Mundo, quando crianças e adolescentes estarão presentes, com o apoio de empresas que não sejam ligadas ao álcool? E por que não temos outros meios para promover eventos culturais e esportivos junto à população? Quem tem o papel de promover a cultura e o esporte? Temos necessariamente que nos submeter às grandes marcas e empresas?

O lugar cativo da cerveja junto aos eventos esportivos, sobretudo o futebol, nos faz lembrar da frase de 2013 do comentarista esportivo Juca Kfouri: “me horroriza que um estádio de futebol leve o nome de uma marca de cerveja” se referindo ao novo nome do estádio baiano. Além dele, outros também se manifestaram como o médico psiquiatra e diretor do Centro de Tratamento do Abuso de Drogas, Cetad, Antônio Nery Filho. Ele fez um desabafo em um programa de rádio perguntando como pode o álcool e, em especial a cerveja, se tornar prenome de um símbolo do povo baiano que é o Arena Fonte Nova.

Após lembrar que o álcool é uma das principais causas de mortes em todo o mundo, de desestruturação das famílias, de faltas ao emprego, de internações em hospitais gerais e psiquiátricos, Nery pergunta: “como pode a substância que mais causa transtorno ser elevada à categoria de símbolo da nossa vida? Como pode esse lugar da vida, do esporte, da alegria ser transformada em um lugar de propaganda de bebida alcoólica?” Ele finaliza a entrevista perguntando onde estão o Ministério Público Estadual e Federal, o Conselho Regional e Federal de Medicina, os órgãos de políticas contra drogas… “Onde estão estas pessoas que têm o poder político de lutar contra o poder econômico?”

Assim como o professor Antônio Nery, e tantos outros profissionais que trabalham pelo combate ao álcool, nós perguntamos: até quando vamos achar normal a presença das marcas da bebida nos diversos ambientes e situações, em meio a eventos esportivos, sejam eles mundiais ou locais, atingindo, além dos adultos, crianças e adolescentes? A Copa vai acabar em 13 de julho de 2014 mas a invasão das marcas de cerveja continuará como um desafio para todos aqueles que acham que, mais do que festa e diversão, nós precisamos urgentemente repensar a promoção do álcool como é feita hoje.

Leia também no blog do Milc:
Infância e publicidade: um olho na Copa e outro no comercial de cerveja
O outro lado do comercial de cerveja

Link com a entrevista do professor Antônio Nery Filho na íntegra: http://blogdojuca.uol.com.br/2013/04/ouca-um-baiano-arretado/

(*) Desirée é mãe de duas, jornalista, especialista em Educação Ambiental, coordenadora do Movimento Consciência e Consumo, de Belo Horizonte. Atua em causas como defesa da infância e combate ao consumismo infantil, leitura crítica da mídia, direitos e deveres do consumidor e ações socioambientais por uma vida mais saudável.  www.conscienciaeconsumo.com.br

 


Tags:  bebidas bebidas alcóolicas consumo de álcool copa infância publicidade de bebidas

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Mariana Sá




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1 Comment

Jul 01, 2014

O que sempre achei absurdo é mesmo a relação entre cerveja e esporte X esporte e saúde. Aprendi a relacionar esporte a saúde. Quando era adolescente fui praticante de atletismo e lembro que se o técnico soubesse que a equipe masculina havia consumido bebida alcóolica estava dado o passo mortal para o corte. Nós, meninas, nem nisso pensávamos. Sabemos que vida de desportista de ponta não é fácil, é preciso muita dedicação, muito treino, muito esforço. Não esqueço de uma foto do Ayrton Sena numa mesa de festa familiar e enquanto ele tomava um copo d’água a família se esbaldava na feijoada e estava em FÉRIAS! Poxa, o cara era corredor de fórmula 1 e mantinha alimentação regrada sempre, treinava modalidades esportivas diferentes, isso tudo para pilotar um carro…
Agora, como pode um mundo de jogadores de futebol fazendo propaganda de cerveja? O técnico (não sei agora, mas o Dunga já fez) da seleção de um país também. Então futebol é assim: não precisa terinar, nem ter disciplina, pode beber e ainda ganhar os tubos. E é esse tipo de ofício que as crianças estão almejando alcançar. Anrram. Não entendo. Definitivamente.



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