destaque_home / maternidade / 14 de agosto de 2014

O[s] valor[es] dessa vida

Texto especial para o Milc de Paola Rodrigues*

Antes de iniciar, gostaria de dizer que admiro a pessoa que minha mãe é e sempre foi. Tal como todos, ela teve sua cota de erros e arrependimentos, e sendo mãe, eles sempre foram piores, porque a sociedade te culpa assim que você pari. Culpa por tudo, principalmente pelo que você falha, porque afinal, pais não falham.

Ela também me deu o melhor conselho da vida, que era sempre ver uma situação com todos os olhares. Que meu instinto, meu coração e experiência me fariam compreender situações terríveis e assim não faria mal a ninguém, muito menos a mim.

Dizendo isso, gostaria de contar como foi viver numa casa onde a mãe possuía compulsão por consumo.

Nascida numa família extremamente pobre do interior de São Paulo, minha mãe lutou desde os dez anos para sobreviver. Sempre costurou, sempre batalhou e carrega as marcas do esforço em cada ruga e calo na mão. Após abusos terríveis, tanto físicos e mentais, com quarenta e cinco anos descobrimos finalmente que ela possuía Transtorno Bipolar.

Finalmente havia uma explicação para os vinte anos de caos que foram a minha vida e me fizeram querer sumir várias vezes. Ao mesmo tempo em que amava minha mãe, queria pular da ponte mais alta agarrada a ela e dar fim naquele ciclo miserável. Foram incontáveis as vezes que numa crise ela zerou o limite do cartão de crédito em roupas, gastou dinheiro que não possuíamos com telefonemas para programas de TV, quantas semanas e meses ela viveu para ver programa sensacionalista.

Culpei ela, culpei a TV, culpei a mim mesma, meu pai, minha avó que não soube criá-la e culpei o mundo por ser o que é. No fim, aprendi que não é sobre culpa, é sobre cultura, sobre cada um.

Com várias conversas com a psiquiatra dela e amigos psicólogos, antropólogos e publicitários, me restou que no meu lar aconteceu um pouco do que acontece com tantos outros. Foi mais grave porque minha mãe já possuía uma doença série e que causava crises mais severas, mas o que tinha em casa, muitos têm no aspecto “normal”.

Estamos programados para consumir. Quando nascemos já estamos nos consumindo e a tudo que nos cerca, só que em algum ponto isso torna o foco. Começamos a comprar o que não precisamos com a desculpa de conforto, criamos o hábito de sempre querer mais, não porque é necessário, para conquistas pessoais, mas para tapar buracos invisíveis.

Todas as vezes que minha mãe voltava da loja, estampava um sorriso brilhante no rosto. Vestia aquilo por uma semana e já sentia necessidade de mais. Via aquilo e me perguntava profundamente: mas como?!? Ela é adulta!

Um dia perguntei para minha tia sobre o passado, como eram as coisas, o que acontecia com minha mãe e ela explicou muito bem o que a psiquiatra já havia mencionado: a pressão sobre se ter tudo era muito grande. No fim dos anos 80 a moda era ter. Comerciais na TV mostravam um mundo de delícias, o mercado de trabalho exigia, como sempre, o seu corpo e sua alma, você tinha que possuir casa, carro, cartão, filhos saudáveis e com roupas caras, porque se não tinha fracassado nessa vida.

Estabilidade era a ordem mundial. Com isso criamos essa linda realidade que temos, onde comprar mais do que precisa é bom e vender com musiquinhas angelicais produtos que causam mal é normal. É okey! Porque você precisa ter tudo, se não fracassou!

Quantas vezes ouvi de minha mãe que devia estudar, trabalhar, para ter casa, carro, dinheiro para viagens, para dar brinquedos para minha filha. Sim, preciso ter condições de prover o básico e o além para meus filhos, mas devo me vender, vender o que acredito para essa causa?

Faz quase dois anos que minha mãe só compra o necessário. Saímos para tomar sorvete, comer algo fora e ela costuma presentar bastante a neta, mas nunca mais chegou perto de proferir novamente os valores no qual fui criada. Os presentes já não compram mais a falta de tempo para o carinho e o afeto não é debitado no cartão de crédito.

Agora quase toda semana ela conta como ela e tantos outros foram programados para achar normal a realidade em que viveu, onde todo mundo “já gastou o que não tinha para sentir-se melhor”. Estamos numa sociedade de consumo e que está igualmente nos consumindo em seu vórtice.

Minha filha tem atualmente um ano de idade, é uma criança feliz, elétrica e aprendeu a dizer Tchau. Constantemente me pego imaginando a realidade que Helena irá encontrar, se tudo que somos será resumido naquilo que temos, que é normal vender imagens mentirosas e estudar a mente humana para convencê-la a consumir. E claro, somos fracos quando reagimos como manipularam para ser.

Será que devemos discutir o valor das coisas ou os nossos valores?
Fica a questão.

 

(*) Paola  cursa o primeiro ano de Licenciatura em História, é escritora, produtora cultural e apaixonada pela maternidade. É mãe orgulhosa de duas, mesmo só podendo estar com uma. Escreve no blog Cartas para Helena, onde o foco é deixar um relato de pensamentos e percepções para a pequena Helena. É colaboradora na Revista Obvious, ativista no acesso a cultura e arte para todos e acredita que estamos criando um mundo melhor, quando deixamos crianças serem crianças. http://cartasparahelena.wordpress.com/.

Imagem: da web | Bubble Day


Tags:  consumismo consumo cultura educação família

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Mariana Sá




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