brinquedos e marketing / 15 de setembro de 2014

Brinquedos demais

Texto publicado anteriormente na coluna Consumo&Infância do Mamatraca, de Mariana Sá*

A regra é clara: todo brinquedo tem a sua casa e casa não pode ser o chão ou a cama. A casa pode ser uma caixa ou uma prateleira de estante. Na prateleira pode ter uma caixa ou brinquedos arrumados de maneira a dar a mãe conforto estético.

Saiba exatamente o que a mãe chama de conforto estético:

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Saiba exatamente o que chama de horror:

Antes da mãe viajar fez uma primeira triagem, mandou aqueles brindes muito xexelentos para o lixo, alguns brinquedos para doação e colocou todos os brinquedos na sua casa, mas ainda sobraram brinquedos sem casa. O que ficou sem casa foi para dentro de uma espécie de cilindro-baú com zero conforto estético esperando a volta da viagem: a intenção era despejar brinquedos que não são mais brincados para dar espaço aos brinquedos muito brincados que estavam sem casa.

Porém, o pai tinha outros planos: sabendo que a mãe tem grande apego aos objetos de bebê dos filhos e que o procedimento de despejar brinquedos sem casa seria custoso emocionalmente para a mãe, tomou uma decisão arriscada: mandou todos os brinquedos sem casa para a casa dos avós dos meninos (a.k.a. a sogra da mãe em tela – ohhhhh!).

A mãe chegou tarde de viagem e mesmo muito cansada percebeu a ausência do cilindro-baú. A mãe ensaiou um desmaio, mas diante da saudade preferiu dar uns beijos ao invés de um esporro no marido e perguntou fingindo desdém: “cadê o sapo?”. Ela nem precisou fingir alívio quando ouviu a resposta: “melhor na casa da sogra do que no lixo!” concluiu e foi dormir.

No dia seguinte, ligou e fez a sogra prometer deixar os brinquedos despejados para ela fazer uma triagem do tipo “lixo ou doação ou volta-pra-casa-de-onde-nunca-devia-ter-saído”. Resolveu dar a si mesma a possibilidade de praticar um desapego radical e nem foi olhar as caixas que estão lá. Ela sabe que mais da metade dos brinquedos dos dois filhos estão lá. Mais da metade é muito brinquedo!

Ela sabe que está lá a réplica de Alice nos País das Maravilhas, que ela e a filha adoram, boneca prestes a ser resgatada. Ela sabe que está lá parte dos dinossauros que foram do filho mais velho de uma grande amiga: brinquedos que deverão ser devolvidos para que o caçula. Ela sabe que está lá o exército dinamarquês de barbies que (thank god!) a filha não curte mais e deverá ir para doação. Ela sabe que está lá um conjunto de peças de plástico que perde para o logo favorito do filho e nunca foi tocado, que também será doado. Mas ela não faz a menor ideia do que mais está lá.

E diante desta constatação radical: não saber o que mais está lá, somado ao fato de que em algumas semanas sem aqueles brinquedos os dois filhos nunca procuraram por algo que não estivesse em uma casa, em casa, a mãe concluiu que pela primeira vez o pai está certo: “estes meninos têm brinquedos demais!”

Tinham, né? Não! Continua tendo: metade ainda é brinquedo demais!

 

Nota da editora: o Mamatraca escreve regularmente sobre Consumo&Infância. Confira: http://mamatraca.com.br/?theme=23

Aproveite as Feiras de Trocas de Brinquedos que acontecem em todo o Brasil para experimentar uma maneira diferente de destinar os brinquedos que não são mais brincados e adquirir *novos* sem gastar dinheiro. Se não sua cidade não está programada nenhuma feira, se anime e organize a sua. É fácil e todas as instruções estão neste link: http://feiradetrocas.com.br/

 

(*) Mariana é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É autora do blog materno viciados em colo e é cofundadora do Milc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças. viciadosemcolo.com


Tags:  brincadeiras brincar brinquedo

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Mariana Sá




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