escola / 30 de setembro de 2014

Escola e TV: uma dupla perigosa

Texto especial para o Milc de Patrícia L. Paione Grinfeld*

Quando li no Estadão Raciocínio em frangalhos, de Lúcia Guimarães, recordei-me da minha experiência em procurar a primeira escola de meu filho. Visitei inúmeras, entre seus nove meses e um ano e meio de idade. Em quase todas havia em comum a presença de TVs nas diversas salas – de aula, de refeição, de descanso.  Eu não conseguia (e ainda não consigo) entender o sentido delas na educação infantil. Em quê elas contribuem para o desenvolvimento da criança?

A criança que vai para a creche ou a escola, em qualquer idade, vai, acima de tudo, para se relacionar com pessoas de fora de seu círculo familiar. Se ela é levada com o intuito de ser “cuidada” é porque alguma das pontas, família ou equipamento de educação infantil, desconsidera que o cuidado pelo cuidado é uma ação robotizada, pobre na tecedura de vínculos, essenciais para o desenvolvimento cerebral dos primeiros anos de vida e, consequentemente, para o desenvolvimento global do ser humano.

Criança precisa de gente para virar gente. Precisa de outras crianças de idade próximas a ela e de adultos que se interessem e se dediquem a ela. É através da interação com pessoas e da livre exploração do ambiente que a criança cria e amplia seus repertórios sensoriais, motores, verbais, cognitivos e sociais. É isso que a possibilita encontrar caminhos mais saudáveis para lidar com as adversidades que a vida irá lhe apresentar.

No exemplo de Lúcia Guimarães, e outros semelhantes que testemunhamos diariamente, a TV e as demais telas têm sido confundidas como dispositivos educativos porque vendem a ideia de que seus programas ensinam, estimulam e permitem a interação.

Por mais que a criança aprenda com o que ela vê e ouve através da tela, ela aprende por imitação passiva e não por investigação ativa. Sua interação acontece dentro de um modelo pré-estabelecido e não pela liberdade de criação. Da mesma forma, a criança se aquieta pela forma estruturada como as cores, sons e movimentos se apresentam nas telas e não pelo uso de seus próprios mecanismos internos de tranquilização ou de recursos que são oferecidos por seus adultos de referência.

Crianças diante das telas não compartilham experiências, nem estabelecem trocas afetivas. Como resultado, essas crianças dificilmente conseguem ser consoladas em suas aflições. Tornam-se irritadiças, agressivas, com baixo grau de tolerância, precisando sempre de um agente externo para se tranquilizar. Comumente, esses agentes acabam sendo objetos não humanos, como o próprio prolongamento do tempo diante das telas e a ingestão de alimentos ou mesmo de remédios.

Se não temos a dimensão do que as telas causam na vida de uma criança pequena, sem querer, distanciamo-la das relações humanas e caímos, junto com ela, na armadilha do consumo de coisas desnecessárias. A criança vai sendo entupida de entorpecedores. Mais tarde, o discurso que impera é que ela só faz determinada coisa com a TV ligada, é viciada na tela, mandona, não se interessa por novidades que lhe são apresentadas, entre outros.

Com as famílias cada vez menores e a vizinhança cada vez mais fechada atrás de suas portas, as creches e escolas acabam sendo lugares extremamente necessários para as crianças experimentarem diferentes formas de se relacionar. Ao colocarem TVs em suas salas, com o objetivo de entreter, compartilhar e ensinar, ela faz exatamente o contrário do que é seu propósito: educar. Mais tarde, não adianta dizer que o aluno é hiperativo, não colabora e não aprende. Criança só desenvolve recursos internos para se tranquilizar, estar junto e aprender quando está verdadeiramente conectada consigo mesma e com adultos que lhe transmitem segurança. Do contrário, ela vai optar pelas telas e outros objetos não humanos para dar conta de suportar a solidão e o vazio de uma vida emocional empobrecida.

Imagem da web

(*) Patrícia mora em São Paulo, é psicóloga e 2x mãe. Por acreditar que pequenas atitudes podem ser transformadoras, faz seu trabalho de formiguinha na vida e na profissão. É idealizadora do blog Ninguém cresce sozinho e nunca acreditou tanto na importância do trabalho do MILC quando, ao ler “Bruxa, Bruxa, venha à minha festa” para um grupo de crianças entre 2 e 8 anos, uma menina com 3 disse: “Olha a Barbie”, apontando para a chapeuzinho vermelho da história. www.ninguemcrescesozinho.com


Tags:  educação proteção à infância sem telas telas televisão

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Mariana Sá




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2 Comments

Oct 01, 2014

A primeira vez q vi q no Brasil existem escolas com TV foi quando mostraram a reportagem da cuidadora q agredia os pequenos. Achei q a escola devia ser uma das pouquíssimas q tivesse aparelho de TV, e ligado ainda por cima, por se tratar de uma escola ruim. Tal qual está sendo minha surpresa ao saber q nao é caso isolado. Um absurdo. Eu acho q aqui onde moro (Alemanha) é proibido e deveria ser também no Brasil. Triste saber que muitas famílias provavelmente nao enxergam problema qualquer nesse fato, pois em casa talvez seja normal deixar o aparelho ligado o dia todo. Pagar uma escola pra que o filho assista TV na escola? Nem pensar… Será possível encaminhar algum tipo de pedido a alguma associacao que entre com pedido de proibicao disso no Congresso? Como fizeram com q questao da publicidade infantil, por exemplo.


Oct 07, 2014

Acabei de descobrir o site e gostei deste material que fala sobre a TV. Muitas vezes as pessoas nos olham com cara feia, mas na nossa casa só entra filme que queremos uque nossas pequenas assistam. Nada de TV.
Quanto TV nas escolas acredito que são escolas que não tem o seu papel de educar, sua responsabilidade e nem u ma missão definida. Assim os pais pagam a escola para que as crianças passem o tempo. Que pena.
Canso de escutar de estudantes de Pedagogia em Ctba que existem não só escolas que maltratam mas sim que deixam de lado os alunos. O meu questionamento é: porque os donos abrem uma instituição de ensino? Seia muito mais fácil qualquer tipo de comércio.
Penso que todo pai que fosse matricular um filho em uma escola estudasse um pouco sobre o assunto, pois existem coisas que são contra a integração social, crescimento pessoal, relações interpessoal, educação… e uma delas é a TV.
Adriana Zilli ( mãe,esposa e Coordenadora Everest)



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