destaque_home / publicidade de alimentos / 2 de setembro de 2014

Maior empresa de alimentos do planeta mira no pediatra, acerta na mãe para atingir a criança

Hoje recebemos a denúncia sobre um evento científico para pediatras que a Nestlé organiza para médicos no Ceará. E apuramos que isso ocorre desde 1956: provavelmente nossas mães e nossas avós foram orientadas por pediatras que participaram de um ou vários destes eventos.
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Lendo de relance o programa da 70° edição que consta na página do evento, até podemos achar que pode ser bacana para os médicos terem acesso ao tipo de reflexão proposta, mas será que é ainda bacana também para quem promove?

Do ponto de vista da infância, da mídia e do consumo – o assunto de que tratamos – o que este curso tem de errado? É certo uma grande corporação promover um curso dirigido aos profissionais que têm como missão cuidar da saúde dos nossos filhos? É dever/missão desta empresa educar médicos?antiga2

Aliás: não é tão surpreendente o fato de ver um curso para médicos promovido pela Nestlé, quanto saber que a Sociedade Brasileira de Pediatria ser patrocinada pela mesma empresa?
 
Para nós, esta é uma estratégia de relacionamento com o médico que sabidamente é o principal formador de opinião das mães: é a principal fonte de informação sobre infância. É em quem mais a mãe confia para tomar decisões sobre a saúde e o desenvolvimento das crianças. Isso afeta diretamente os nossos filhos.

Não é nem um apoio, não é um simples patrocínio. É um curso que faz parte do calendário de eventos da Nestlé em sua estratégia de comunicação e/ou relações públicas com os médicos. Qual a expectativa de retorno que a Nestlé tem ao investir recursos na promoção deste tipo de evento? Qual?

Confira a página do evento: http://www.cnap2014.com.br/
Veja o que um pediatra diz sobre estas relações: http://bit.ly/1q8O39v
Leia um estudo completo: http://bit.ly/Scielo-O-leite-em-pó-na-ideologia-dominante
Diga o que acha também no twitter.com/infancialivre
Fonte: milc.net.br

vaca profana

PS: Nos anos 70, um escândalo atingiu a Nestlé, a empresa foi denunciada num relatório sobre a desnutrição e a promoção do aleitamento artificial nos países do Terceiro Mundo.  O caso revelou contradições do capitalismo tardio e seus efeitos desastrosos para os mais vulneráveis: recém-nascidos em países pobres. Em  1979 a OMS/UNICEF hospeda uma reunião internacional em Genebra sobre alimentação de bebês e crianças. A reunião, que inclui representantes de governos, de organizações para saúde, grupos, pede que seja promovido um código internacional sobre marketing assim como ações para melhorar práticas de alimentação de bebês e crianças. As ONGs reúnem-se no IBFAN para poder pressionar mais as indústrias, sendo a principal a Nestlé.


Tags:  aleitamento materno marketing

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Mariana Sá




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6 Comments

Sep 03, 2014

Olá. Sou médica, residente de pediatria, e estou frequentando o Curso Nestlé. Não sou ingênua para pensar que não eles promovem esse evento sem segundas intenções. Existe sim propaganda dos produtos. Mas as palestras estão sendo muito transparentes, reforçando aleitamento materno, falando sobre sobrecarga protéica nas fórmulas infantis, obesidade infantil e suas causas. O evento é gratuito para médicos e está oferecendo uma programação científica de qualidade. Nós, pediatras, não somos ignorantes e estudamos pra saber filtrar e definir as melhores condutas para os nossos pacientes. Não é porque frequentamos eventos promovidos por empresas que vamos prescrever baseados apenas o que eles falam.


    Sep 03, 2014

    Nós acreditamos na pediatria. Acreditamos na capacidade de julgamento dos pediatras. Porém está na gênese desta página estarmos atentas às condutas empresariais e levantar questões sobre cada ação. E colocar luz neste bastidor da construção de vínculos entre empresa e classe médica é fundamental para médicos e pacientes, especialmente quando se trata de criança.

    Médicos são serem humanos como nós, e são afetados da mesma maneira que nós somos pelo marketing. Saber que o marketing nos afeta é o primeiro passo para cuidar das nossas vontades, desejos e decisões. Saber que as indústrias desenham estratégias de marketing direcionadas aos médicos é um passo importante para ser crítico em relação às recomendações nos consultórios.

    Pode ser que alguma parte não se deixe afetar pela estratégia, mas existem estudos que demonstram o dano desta relação íntima na sociedade: http://books.scielo.org/id/qqx82/pdf/coradini-9788579820090-09.pdf

    Abraço


    Jun 15, 2016

    Karoline,

    Fico feliz da sua consciência quanto pediatra. Porém a maioria dos colegas orientam errado quanto a alimentação das crianças. Digo porque já várias vezes orientações por escrito que são o oposto do correto. Já fui criticada por um pediatra pela minha opinião sobre aleitamento materno. Parece que os profissionais perderam a paciência de orientar.
    Quando a minha irmã nasceu, minha madrasta teve dificuldade de amamentar nos primeiros dias. Foi no pediatra e ao invés de orienta-la, prescreveu o NAN. Isso é correto?
    Fale por você, não defenda a classe inteira. Você mesmo sabe que, o que bem temos hoje são médicos irresponsáveis.


Sep 03, 2014

Karoline,

Quando uma mãe chega num consultório médico com problemas na amamentação, resultando em perda de peso do bebê, quantos médicos você acredita que pediriam para esta mãe amamentar para ele dignosticar se há algum problema com a pega, por exemplo? Quantos médicos na incapacidade de fazer este diagnóstico indicaria o serviço de uma consultora em aleitamento materno? Quantos indicariam sem titubear o complemento artificial?
Quantas mulheres neste país precisam de ajuda para estabelecer bem o aleitamento materno e a única coisa que encontram é a indicação de leite artificial. Resultado: Desmame precoce.

Vc acredita mesmo na inocência de uma pós-graduação financiada por uma grande indústria de produtos alimentícios?


Sep 09, 2014

Virei leitora assídua do Milc por me preocupar com as crianças, não tenho filhos, só sobrinhos. Ultimamente tenho lido muito sobre amamentação e refletido sobre ela. Além de tudo que foi escrito aqui no Milc muito sabiamente sobre a indústria querendo lucrar e manipulando as mães para comprarem fórmulas (uma história pra lá de velha) me veio outra coisa sobre a amamentação que é anterior à necessidade de lucro pelo capital. A amamentação é um tabu histórico, as classes altas sempre acharam amamentar feio, nojento e trabalho para as classes baixas. Durante a escravidão no Brasil havia a tradição dos bebês da nobreza e dos mais ricos serem amamentados pelas escravas, as amas de leite. Em muitas culturas ao redor do mundo é ou foi comum que outras mulheres fossem contratadas ou designadas pela sociedade (pagas ou não pelo serviço) a amamentar os filhos dos ricos, nobres, realeza e afins. O leite de lata foi a possibilidade da classe média de não precisar fazer esse “trabalho sujo”. Minha avó não amamentou nenhum dos três filhos e era muito orgulhosa disso, todos criados a base de leite Ninho. Dar leite de lata é status, amamentar é trabalho de quem não tem dinheiro para comprar. E as empresas se aproveitaram muito bem dessa questão histórica do tabu da amamentação. Minha mãe amamentou todos os 4 filhos durante o tempo necessário e eu, criança na época, via as avós dizendo que ela tinha que parar logo de amamentar minha irmã que estava muito grande com 3 anos. Espero que as coisas mudem daqui para a frente, parabéns pelo site!


Jun 15, 2016

Karoline,

Fico feliz da sua consciência quanto pediatra. Porém a maioria dos colegas orientam errado quanto a alimentação das crianças. Digo porque já várias vezes orientações por escrito que são o oposto do correto. Já fui criticada por um pediatra pela minha opinião sobre aleitamento materno. Parece que os profissionais perderam a paciência de orientar.
Quando a minha irmã nasceu, minha madrasta teve dificuldade de amamentar nos primeiros dias. Foi no pediatra e ao invés de orienta-la, prescreveu o NAN. Isso é correto?
Fale por você, não defenda a classe inteira. Você mesmo sabe que, o que bem temos hoje são médicos irresponsáveis.



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