criança e mídia / 22 de setembro de 2014

Tenho, logo existo?

Texto especial para o Milc de Patrícia L. Paione Grinfeld*

Nas discussões sobre a regulamentação da publicidade infantil é comum pipocar, especialmente entre os que se opõe a ela, a ideia de que os pais são os [únicos] responsáveis pela educação dos filhos.

Não há dúvida de que as atitudes parentais são ingrediente básico na constituição de uma criança. Mas, não se faz um bolo apenas com farinha ou açúcar. Fazemos parte de uma cultura e, por mais que cada família transmita suas normas e valores, há sempre aquilo que é transmitido pelo sistema social ao qual estamos inseridos. A cultura nos atravessa, queiramos nós ou não. Isso, por si só, já desmonta a tese de que cabe apenas aos pais a educação dos filhos.

De diversas maneiras a cultura atual prega que a plenitude [só] é alcançada quando nos preenchemos com aquilo que nos falta materialmente. Consumimos, para além da necessidade real, alimentos, medicamentos, objetos de naturezas distintas como forma de nos proteger dos vazios existenciais que não conseguimos suportar. Consumimos porque somos induzidos à ideia de que não podemos viver a carência, a falta inerente ao ser humano.

Inseridas nesta cultura, as crianças aprendem que é preciso ter para ser, existir. Querem as coisas que lhes são apresentadas porque a mensagem que recebem é “tenha senão você não será [feliz, amado, reconhecido, menina(o), saudável, forte, etc.]”. Assim, não basta os pais dizerem “filha, você não precisa desta boneca para brincar, já tem tantas outras, e muito mais legais do que esta”, porque por onde ela circula é bombardeada pelo discurso de que só é possível existir tendo a tal boneca e as tantas outras coisas que lhe são diretamente ofertadas a todo instante.

Ora, se precisamos ter para ser, quando não temos somos tomados por uma angústia terrível que só é eliminada pelo infindável ciclo do consumo. No caso das crianças, fica muito fácil perceber esta dinâmica quando elas fazem cenas grandiosas implorando por um brinquedo que, depois de conquistado, é rapidamente deixado de lado. O que elas nos ensinam, mas temos dificuldade em reconhecer por conta da pressão cultural, é que o que elas querem não é, neste exemplo, o brinquedo, mas a possibilidade de garantir seu lugar no mundo – dos pais, da escola, da sociedade como um todo. Um lugar que só pode ser garantido quando há respeito à infância.

As crianças aprendem muitos de seus comportamentos e atitudes com os pais, mas e os pais, com quem aprendem que só é possível existir tendo? Não dá para dizer que seja apenas com os próprios pais e as gerações anteriores. Cair nesse discurso inviabiliza qualquer construção de pensamento e ação que proponha alternativas ao preenchimento das múltiplas formas de vazio que nos habitam.

Culpabilizar os pais por não conseguirem filtrar o bombardeio publicitário dirigido às crianças é não reconhecer a parcela de responsabilidade que cada um de nós tem na tarefa de fazer as crianças existirem de uma maneira íntegra, respeitosa e segura.

Como diz o provérbio africano, é preciso de uma tribo inteira para educar uma criança. Todos nós somos responsáveis. Cabe, a cada um fazer sua parte, se desculpando menos, olhando mais para as próprias lacunas e encontrando caminhos mais saudáveis para viver a ilusão da completude. Isso inclui o Estado e todos os agentes do mercado.

(*) Patrícia mora em São Paulo, é psicóloga e 2x mãe. Por acreditar que pequenas atitudes podem ser transformadoras, faz seu trabalho de formiguinha na vida e na profissão. É idealizadora do blog Ninguém cresce sozinho e nunca acreditou tanto na importância do trabalho do MILC quando, ao ler “Bruxa, Bruxa, venha à minha festa” para um grupo de crianças entre 2 e 8 anos, uma menina com 3 disse: “Olha a Barbie”, apontando para a chapeuzinho vermelho da história. www.ninguemcrescesozinho.com



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Mariana Sá




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