adultização e erotização / 11 de setembro de 2014

Vogue Kids e o desrespeito à infância

Texto especial para o Milc de Vanessa Anacleto*.

É um encarte. A versão para crianças da revista de moda mais conhecida do mundo e em circulação há 122 anos, editada no Brasil no mês de setembro de 2014. O preço da publicação, com mais de 500 páginas no total, são proibitivos R$ 18,00, Mais caro que uma refeição em restaurante popular e quase dez vezes mais que uma revista destinada à classe C. É uma publicação de elite, que dita moda e imagem para a classe alta.  Esperar-se ia encontrar bom gosto nas páginas internas. Ledo engano.

O editorial “Sombra e Água Fresca”, nas páginas 58-69 produziu imagens de crianças em uma tarde “preguiçosa à beira-mar” para vender sapatos. O que há de errado? Não são fotos em que as crianças estejam aparentando ser crianças. O que se espera de fotos com crianças é que estejam confortáveis, sorrindo e brincando. Espera-se que aparentem ser as crianças que são. E ali não há nada disso.

Com bocas semiabertas e poses sensuais,  as modelos, todas meninas, representam algo que destoa da que se espera do universo infantil. Todas as poses seriam adequadas a modelos maiores de 18 anos pelo apelo implícito.  É um ensaio que adultiza as crianças, as coloca em situações irreais para a idade e expõe. A ideia é mudar a realidade para vender produtos e ideias, custe o que custar. São fotos infantis onde não tem ninguém brincando.

O editorial conta com marcas famosas na produção e, ao que parece, ninguém viu nada de errado no resultado final numa revista que se propõe a apresentar conteúdo infantil e formar a opinião de quem veste as crianças.  O conceito equivocado lembra muito a campanha Use e Lambuze da marca Lilica Ripilica que foi criada em 2008 e depois proibida pela conotação erótica inapropriada.

É difícil compreender porque uma revista com, supostamente, especialistas em moda infantil em sua equipe, utilize o recurso da erotização para vender vestuário infantil com aval das marcas de roupas, mas como tudo neste caso pode ser resumido a comércio, não é possível crer que as crianças precisem parecer mais velhas  aos olhos de todos à toa. Talvez o fato de adolescentes gastarem mais em roupas do que qualquer outra coisa, explique.

Encurtando a infância, período da vida em que consumimos através dos nossos pais, chegamos rapidamente à adolescência, com opiniões, gostos e gastos. Quanto mais cedo a criança crescer, melhor para todos os que lucram com ela. Vamos tratar as meninas como mulheres cada vez mais cedo e encurtar sua infância, que de 12 anos, facilmente passa a durar apenas 8. Tudo em nome do aumento da produção e fidelização do jovem mercado consumidor.

Olhando para as fotos muitos, chocados, ainda defendem a responsabilidade dos pais na exposição das crianças, mas eu não consigo formar uma opinião sobre este ponto. Por desconhecer a dinâmica da contratação de modelos para editoriais de moda, não sei se o resultado do trabalho é apresentado aos pais antes da publicação. Não sabemos ao certo se os pais podem acompanhar as sessões de foto de perto. Além do mais, na mesma revista é possível encontrar imagens de crianças em contextos completamente diferentes, adequados ao universo infantil e respeito à infância. Culpabilizar os pais,  neste caso, por uma ação deliberada da editora e marcas anunciantes, eu não faria.

Quem lucra com toda esta exposição é a mídia e os anunciantes. Quem perde, como sempre são as crianças, tanto as das fotos quanto as demais, mesmo as que jamais vão vestir roupas e acessórios  de marca. É a infância sendo desmontada precocemente com fim exclusivo de lucro. É o consumo do consumidor pelo anunciante.  E dizer que anuncia quem pode, compra quem deseja é absurdo demais. Não se pode anunciar assim . Cassaram  o direito à infância com caras, bocas e apelos sem sentido.

Para saber mais sobre o tema:
Artido científico: Pequenos Adultos: Um estudo sobre o estímulo à adultização na comunicação de marketing de empresas de vestuário infantil.
Pediatria Integral se posicionou: Vogue: Revista da Vergonha
Artigo no site da Carta Capital: Vogue Kids faz ensaio com crianças em poses sensuais e pode ser acionada pelo MP
Imagens, com identidade das crianças preservada, de Criança e Consumo

Atualização de 16/9/14:  resolvemos retirar as imagens do ar, mesmo não sem a notificação oficial, por entender que a decisão da justiça visa tão somente a proteção das crianças, assim, as imagens colocadas aqui a título de demonstração foram excluídas do post. via Carta Capital “Na sexta-feira, 12, o juiz do trabalho substituto Fábio Augusto Branda assinou um ‘mandado de suspensão de veiculação de imagem’, determinando que a Vogue Kids seja recolhida de todo o País sob pena de pagar uma multa diária de R$ 50 mil. Foi ainda determinado que as fotos fossem retiradas dos seguintes sites: Facebook, CartaCapital, Yahoo, Portal Imprensa e Google. Para estes, a multa em caso de não cumprimento da determinação judicial é de R$ 10 mil por dia. CartaCapital foi notificada da decisão nesta segunda-feira e retirou as imagens de seu site e de todas as suas redes sociais. Mesmo as que continham tarjas.”

(*) Vanessa Anacleto é blogueira,  mãe do Ernesto e autora do livro Culpa de Mãe.


Tags:  adultização ensaio fotográfico publicidade sexualização precoce Vogue Kids

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Mariana Sá




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1 Comment

Sep 11, 2014

Usar o corpo puro de uma criança para sensualizá-lo é análogo à exploração sexual. A criança é um ser inocente, e seu corpo puro, livre de qualaquer tipo de erotismo ou sensualidade não pode ser usado como meio de comercialização por meio de sua profanção. Parafraseando Lewis Carroll sobre o corpo das suas modelos “a inconsciência inocente é muito bonita e inspira uma certa reverência, como se estivéssemos diante de algo sagrado”



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