brinquedos e marketing / 27 de novembro de 2014

A dona da bola

Texto de Mariana Sá*

Quando uma bola não era apenas uma bola, quando era um brinquedo ganhado no natal e furado antes do aniversário, ter uma bola era como ter a chave de um portal, por onde passávamos em busca de brincadeiras, amizades, disputas, abraços e muita diversão. Quando retornávamos estávamos sempre desgrenhados, suados, com joelhos ralados, mas sempre felizes.

Quando pequena achava que ser o sujeito que possui a bola me garantia afeto. Eu era sempre desejada em todas as brincadeiras. A galera me gritava da rua: “desce, mari, vem brincar?” ou interpelava meu pai que voltava do mercado de bicicleta: “mariana pode descer?”. E lá ia eu orgulhosa, com minha bola debaixo do braço em busca de mais uma partida.

Era ter uma bola ou ter um dom. Dó era bom: bons dribles no futebol, chute fortes em direção ao gol e uma bolada precisa no baleado. A galera sempre clamava por Dó que não tinha bola, mas tinha dom. Lembro-me do dia que percebi que realmente eu era muito ruim: nunca estava bem colocada, meus passes sempre iam direto no pé do adversário e eu nunca acertava o gol. Mesmo assim, escolhia o time e o campo.

A bola, ah, a posse bola me garantia o direito de estar entre os bons.

***

Fui crescendo e a chave deixou de ser apenas uma simples bola. A chave para aquele portal rico em interação social e alegrias passou a ser mais caro, muito mais caro. O jeito era ser Dó: sem ter as chaves-objeto, tentar ter as chave-dom. Ter tanta competência em algo provavelmente faria pela mariana-adolescente, o mesmo que a bola fazia pela mariana-criança.

Mas dons como o de Dó não estão numa prateleira disponível para todos: nem treinando 12 horas por dia eu seria como ele. E é assim que fomos sendo, como sociedade, forjados desde a mais tenra idade para buscar algo mágico que nos garanta afeto. Se for algo fácil de conseguir, sem muita dedicação e esforço, melhor ainda. Ledo engano: não está fora de nós aquilo que garante afeto.

Hoje estranhamos a pressão que nossos filhos fazem para ter “o que todo mundo tem”. Hoje estranhamos o fato de precisarmos de bolas muito mais sofisticadas para nos sentirmos incluídos: é o telefone-faz-tudo-até-fala da moda, a bolsa-sapato-camisa de grife, o carro-que-não-cabe-na-cidade-nem-no-orçamento, é a moradia com-quartos-minúsculos-vigilância-e-varanda-gourmet na área nobre, é a viagem mais-fotografada-mais-testemunhada-do-que-vivida.

***

A ironia é que atualmente jogo futebol todas as segundas-feiras: continuo sendo péssima de dribles e chutes e continuo não tendo bola nem campo. Finalmente entendi que não preciso nem da bola nem do dom para estar entre os bons. Finalmente entendi que não era apenas a bola a chave daquele portal.

 

Ruth Rocha escreveu uma história sobre “O Dono da Bola”. Li recentemente, poucos dias depois de ter escrito este texto, no livro “Marcelo, Martelo, Marmelo”.

Texto publicado anteriormente na coluna Consumo&Infância do Mamatraca, de Mariana Sá*

Nota da editora: o Mamatraca escreve regularmente sobre Consumo&Infância. Confira: http://mamatraca.com.br/?theme=23 

(*) Mariana é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É autora do blog materno viciados em colo e é cofundadora do Milc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças. viciadosemcolo.com


Tags:  brincadeiras brincar brinquedo consumismo consumismo infantil infância

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