destaque_home / livros e filmes / 21 de novembro de 2014

Famílias, amo vocês

Texto de Luc Ferry*

[…] Para dizer mais brutalmente as coisas: o modelo do consumismo puro é o da addiction, ou vício. Como o drogado que deve continuamente aumentar as doses e encurtar os períodos entre as aplicações, o consumidor ideal seria aquele que compra sempre mais e cada vez mais freqüentemente. Mas há um ponto crucial: para se ter vontade de consumir, é preciso estar em estado de insatisfação, situar-se dentro de uma lógica do desejo que prioritariamente se caracteriza pela carência. E para que o individuo mergulhe nesse estado, é preciso, tanto quanto possível, “livrá-lo” dos valores espirituais e morais – daquilo que Freud chamava “sublimação” – que lhe permitem ter um mundo interior rico e estável o bastante para bastar-se a si mesmo e, dada a própria riqueza e estabilidade, não sofrer de permanente necessidade de compra. Se a minha bisavó ainda fosse viva, acharia, sem dúvida alguma, os shoppings centers, repletos e transbordantes de produtos tão atraentes quanto inúteis, uma verdadeira monstruosidade, um templo erguido à besteira e a obscenidade do dinheiro. Pois ela vivia num mundo de valores em que nada disso tinha lugar, em que não era necessário consumir o tempo todo para ser feliz e dar um sentido à vida. Não era “fazendo compras” que o indivíduo via como se realizar, mas sim no cumprimento de certos deveres com relação a si mesmo e aos outros, que tinham muito maior importância do que essa lógica do desejo originado no vício. Se nossos filhos tivessem a mesma mentalidade da minha bisavó, não sentiriam a incessante premência de comprar novos objetos: certamente já não teriam possuído, em média nos meios burgueses, cinco celulares e dois computadores antes de completarem 15 anos de idade…

Para essa razão é necessário, vital para as empresas, instaurar, a todo custo nas cabeças uma forma de zapear, sem a qual não há razão para que os indivíduos comecem a consumir como convém para que o mundo “gire”. Esse resultado, que as campanhas publicitárias explicitamente assumem como objetivo, engendra o que certos críticos do “mundo capitalista” já nos anos 1960 denominavam “dessublimação repressiva”: entenda-se, por trás do jargão, a ideia de que a desestruturação dos valores, engendrada pelos comerciais, entrega o indivíduo – a começar pelas crianças, que nesse sentido formam a clientela ideal – a uma lógica de relativa servidão, que é a do consumo rápido. A “dessublimação repressiva” aparece então como acompanhante indispensável do hiperconsumo, sua condição necessária, e para se opor a isso, para constituir um contrapeso, por vezes faz falta também desenvolver, à sombra do mercado, valores que por contraste parecem não mercantis, ou seja, de certa maneira, “antiliberais”.[…]

* Luc Ferry  é um filósofo francês e antigo professor de filosofia e político engajado em favor da União para um Movimento Popular (UMP). Este trecho é da sua obra  “FAMÍLIAS, amo vocês – Política e vida privada na era da globalização” e foi enviado por uma leitora para a fan page do Milc.


Tags:  consumismo consumo sociedade sociedade de consumo

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Mariana Sá




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