brinquedos e marketing / destaque_home / 11 de novembro de 2014

Brinquedo e marketing subversivos

Texto especial para o Milc de Nanda Café*

A internet tem muitas coisas boas. É graças à internet, por exemplo, que o MILC existe. E é graças à internet que hoje é possível financiar coletivamente um produto ou ideia que você considere particularmente interessante. Com a indústria de brinquedos presa em um loop desinteressante, tem sobrado para nós – mães, pais e usuários de brinquedos – pensar em alternativas que vendam para além do comercial.

Assim surgiu a empresa GoldieBlox, da engenheira estadunidense Debbie Sterling, arrecadando 285 mil dólares no Kickstarter (quase o dobro da quantia solicitada). O GoldieBlox era, inicialmente, um brinquedo para estimular meninas a se interessarem por engenharia e construção. O sucesso do financiamento coletivo do GoldieBlox não representa, necessariamente, uma lacuna no mercado de brinquedos de construção, mas a falta de inclusão da figura feminina nesse mercado. A solução pensada foi um brinquedo em tons pastel, com fitas e animais fofinhos.

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A GoldieBlox, apesar das (muitas) críticas fez bastante sucesso, chegando a emplacar 30 segundos de vídeo empoderador durante o SuperBowl, horário comercial mais caro do mundo. Não à toa, hoje a empresa fabrica 5 kits de montagem diferentes que interagem entre si, e lançou recentemente uma boneca, novamente vendida por um comercial criticando as bonecas de moda – mais especificamente, a Barbie.

A Barbie, aliás, parece ser o bode expiatório de tudo o que há de ruim na indústria de brinquedos. O designer Nicolai Lamm, por exemplo, fez sucesso com modelos da boneca sem maquiagem, e depois com um modelo dela em proporções reais (seguindo os órgãos de saúde dos EUA). Esse segundo modelo fez tanto sucesso que também virou um produto real, financiada coletivamente por mais de 13 mil pessoas, num total de mais 500 mil dólares! Uma olhada breve pelos projetos de crowdfunding mostra quem existem várias ideias de brinquedos que empoderem as meninas. Claro que em termos numéricos, os valores arrecadados pelas iniciativas coletivas são irrisórios para a indústria de brinquedos.Mas a mensagem que o sucesso desses produtos passa é bem clara: os pais estão insatisfeitos com as opções existentes no mercado.

Tirando o caso da GoldieBlox – que já estava financiada quando foi ao ar – não existe propaganda de projetos de financiamento coletivo. Você não verá um comercial entre a novela e o jornal, dizendo que alguém tem uma ideia legal e precisa do seu dinheiro para torná-la real. Fora do ambiente da internet, esse modelo não funciona. Mas no meio virtual é um verdadeiro sucesso. Quem assiste este vídeo e não se permite gostar ao menos um pouquinho do apelo publicitário? Essa propaganda, sim, fala a minha língua. Fala para mim, que sou mãe e não quero mais do mesmo.

Se os anunciantes e fabricantes estão tão desesperados com a resolução do Conanda de regulamentação de publicidade infantil, talvez seja a hora de analisar um pouco mais o mercado. Sim, é difícil anunciar para os pais. É impossível nos convencer dos motivos para comprar uma Barbie. Mas não foi difícil para o Lamm vender 19 mil unidades de um produto que sequer existia ainda. Então talvez o problema não esteja em falar para os pais, mas sim, em mostrar para nós produtos que sejam realmente interessantes.

E aí, colegas, o problema é de vocês.

Imagem da Forbes e da web.

(*) Nanda é jornalista-porém-assessora e mãe do Benjamin (5). É uma feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca. Escreve no http://pacmae.com.br/


Tags:  gênero infância sem sexismo proteção à infância

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Mariana Sá




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1 Comment

Nov 11, 2014

Eu acho ótimo que existam brinquedos como esses. Não são perfeitos, esse, por exemplo, utiliza cores mais “femininas” e bichinhos fofinhos. Porém, acredito que isso faça parte da estratégia para que haja aceitação por parte dos pais e familiares de meninas. A questão principal, nesse caso, é perceber que o mercado não pensou isso sozinho. Se existem brinquedos como esse e filmes Disney de princesas que não casam e são corajosas, não é porque as empresas e a Disney são boazinhas e mudaram de idéia. Se existem essas iniciativas é porque primeiro existiu um mercado crescente de pessoas que querem mas para suas filhas!



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