criança e mídia / milc / 5 de dezembro de 2014

Carta aberta a um desenhista

Na semana passada recebemos uma mensagem de um desenhista experiente que está criando um personagem novo. E nós respondemos a ele nestes termos:

Olá desenhista!

Primeiramente, queremos expressar a nossa felicidade ao receber sua mensagem, especialmente quando diz que o conteúdo do Movimento Infância Livre de Consumismo vem te influenciando de maneira positiva.

Receber uma resposta do nosso trabalho elaborada por uma pessoa do mercado nos deixa muito satisfeitas, é uma maneira de nos renovar a esperança. Sabemos que para a mudança que queremos para infância ser consistente precisaremos de todos – especialmente dos pais e mães – inclusive dos profissionais que trabalham com produção audiovisual voltada para crianças, pessoas humanas, cidadãos, que também têm filhos.

Em sua carta, você diz ser animador de um dos mais importantes personagens da produção audiovisual infantil. Conta-nos um pouco sobre seu novo personagem e sobre como todo o projeto de rentabilização está sendo afetado pelos documentários recentes sobre a infância e pelos textos publicados em nosso blog e na nossa página do Facebook. Isso nos deixa comovidas, porque nem nas nossas mais avançadas utopias sonhamos em incidir sobre este tipo de decisão comercial.

Somos um grupo de mães (e pais) que fazem uma página para mães (e pais). Nosso foco é levar informação prioritariamente para este público visando fomentar o debate sobre a influência das relações comerciais na educação das crianças, vigiando a atuação das empresas. Por isso sempre tentamos ter uma postura mais acolhedora com as mães e os pais e mais crítica com o mercado.

Como você disse, acreditamos que o fato de você ser pai contribui para que a visão sobre a infância seja ampliada: crianças não são público-alvo para você. Crianças são sujeitos de direitos assim como os seus filhos.

Estamos agora com as esperanças renovadas de que profissionais como você existam por aí, sem poder aparecer, ainda temendo as repercussões que a sua opinião pró-criança possa ter nas suas carreiras e no seu futuro profissional, mas ainda assim fazendo de maneira consistente e silenciosa um trabalho de formiguinha – como o nosso – para que as produções futuras, assim como os novos posicionamentos de marca, levem em consideração a vulnerabilidade das crianças, oferecendo, desta forma, conteúdos que não explorem, assediem ou abusem da inexperiência e da ausência de repertório crítico das crianças menores.

Temos esperança de que os profissionais entendam que a rentabilização de um personagem criado para as crianças não pode estar acima da própria criança que receberá o conteúdo. Temos convicção de que é possível sobreviver realizando trabalhos que respeitem o estágio peculiar do desenvolvimento de cada ser humano, sem que a venda consequente dos produtos licenciados com o personagem esteja num plano superior que o conteúdo verbalizado por ele.

Queremos agradecer de coração pela sua mensagem, especialmente porque estamos neste momento fazendo um balanço de 2014, da nossa história e avaliando como será o Movimento Infância Livre de Consumismo em 2015. Sabemos que a maior parte dos profissionais que trabalham com e para crianças desejam oferecer o melhor para elas, nem todos conseguem, nem todos percebem quando deslizam deste desejo. Estamos torcendo para que o seu sonho de uma infância feliz seja realizado. Vibraremos para que este sonho paute cada criação e cada decisão comercial que vocês tomem.

Amamos o audiovisual, acreditamos que os personagens podem ser “bons amigos” dos nossos filhos e adoramos recomendar produções aos nossos leitores. Esperamos que seu personagem possa ser recomendado pelo Milc no mais breve tempo possível.

Saudações maternas,
MILC

A tréplica do desenhista a esta carta é ainda mais emocionante, porque demonstra que é possível formular novas sínteses mesmo quando a informação que chega tem um impacto na maneira como faríamos as coisas para sobreviver, mesmo quando as reflexões sobre como nosso trabalho afeta as crianças (o planeta, a sociedade, as gerações futuras) nos obrigam a pensar numa maneira inovadora de continuar sobrevivendo num mercado sem repetir aquelas condutas prejudiciais.

Não é uma questão de lei, de normatização externa, nem uma questão de exigência do consumidor, mas algo do campo da ético, da nossa autonomia como profissional e como gente, algo que nos compele a fazer de tal forma que não ofenda nossos novos princípios. Se um profissional finalmente entende a criança como sujeito de direitos, para ele é simplesmente impossível continuar produzindo algo para crianças que afete o seu desenvolvimento a partir de um trabalho feito como se fazia antes. O profissional que escuta, que avalia, que se coloca no lugar do pai, que se conecta com o que há de mais novo em relação à educação e à compreensão da infância, simplesmente procura jeito, mesmo que seja difícil, mesmo que leve tempo, mesmo que pareça impossível.

Do mesmo jeito, se uma mãe e um pai que finalmente compreende que suas crenças não são mais compatíveis com a educação que o filho precisa, para eles é simplesmente impossível não abandoná-las, mesmo que doa, mesmo que pareça não haver outro jeito. Colocar-se no lugar da defesa e da resistência em relação ao que há de informação nova sendo apresentada, não vai ajudar profissionais, pais, mães e professores, quem dirá às crianças.

Foi emocionante viver este diálogo, porque se um profissional experiente que tem um novo personagem a ser lançado e que poderia lucrar rios de dinheiro com licenciamento saiu do campo da resistência e da zona de conforto e está questionando o seu próprio projeto de rentabilização para que não seja prejudicial às crianças, ao planeta e aos trabalhadores, podemos renovar nossa esperança em mudanças futuras mais breves que imaginamos e podemos seguir.

esperanca


Tags:  mercado produção audiovisual proteção à infância

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Mariana Sá




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