criança e mídia / 15 de dezembro de 2014

Criação e tecnologia

Texto especial para o Milc de Paola Rodrigues*

A primeira vez que minha filha tentou alcançar o computador no qual trabalhava, um apito tocou de forma ensurdecedora em minha mente. Assim como toda mãe, já havia lido os zilhões de estudos que comprovam os malefícios de aparelhos eletrônicos na vida de crianças, mas como profissional do ramo, eu sabia do outro lado da moeda. Então me vi ali, na linha entre dois extremos, perdida, porque agora era a minha filha, não um estudo de Harvard.

Essa condição de ver tudo do muro me deu uma perspectiva que se baseia em tudo que vi de fantástico na tecnologia, que aliás, fez você ler o que estou escrevendo agora e tudo que sim, pode causar severos problemas.

Mídias interativas, principalmente jogos, são usados em hospitais especializados em autismo e atualmente um jogo brasileiro criado para autistas ganhou o prêmio Cidadania Mundial no concurso Imagine Cup 2014, promovido anualmente pela Microsoft. O Can Game usa de uma mecânica simples para ajudar na avaliação de médica de seus pacientes, já que cada resposta ou reação do jogador gera um relatório que é enviado para o profissional competente. Tal como o nome, é um jogo que mostra possibilidades positivas num mundo que pode usar – e usa – tecnologia como algo não só benéfico, mas absolutamente incrível.

Jogos também já são usados como auxílio do empoderamento por parte do aluno e como suporte educacional. O Gamification, termo usado para descrever esse fenômeno, não substituí o professor ou a interação social necessária em sala de aula, é apenas mais uma ferramenta para agregar pontes entre o conhecimento, interesse e reflexão de forma divertida para aquela criança que tem enraizada em si que escola é chata, porque afinal, fomos ensinados assim.

E eu poderia continuar linkando, explicando e mostrando tudo que vejo todo dia, tudo que quero ajudar a desenvolver tanto na educação como nas relações sociais usando a tecnologia, mas isso de nada resulta de forma prática. Para cada artigo positivo para esse assunto, existe outro que mostra porque devemos proibir, inibir ou repudiar o uso de tecnologia para crianças e até mesmo adolescentes. E também acredito neles, não desqualifico – mais que isso, tento neles aprender onde moram os limites.

kids on electronic devices

E acho que isso resume tudo.

Se você está lendo isso entre as 19h e 22h, que é o pico da internet para grande parte dos pais, ou entre as 9h e 13h, provavelmente seu filho te viu com o computador ou celular. Aliás, se você chegou a este texto, é porque você possuí acesso à tecnologia. Grande partes dos amigos que tenho é porque sou blogueira desde 2008. Se eu estudo e trabalho hoje em dia, tudo isso se deve ao meu computador, celular e acesso à internet e minha filha vai saber disso, porque não consigo esconder, assim como você não consegue esconder do seu filho a TV, o celular, etc.

Tecnologia é sim possibilidade, mas como toda ferramenta, ela está à mercê do uso social do ser humano, que nem sempre é positivo. Nenhuma tecnologia deve substituir o convívio social, a prática de atos reais (físicos) ou inibir qualquer coisa do nosso dia-a-dia. Crianças devem brincar, correr, pular, ler livros, sentar no colo dos pais, se sujar de bolo e ter tudo que é necessário para seu desenvolvimento psíquico, social e emocional. Um tablet jamais vai substituir nada disso, mas sim, na idade certa, com o uso correto e com a consciência tranquila de que aquilo é mais uma ferramenta facilitadora, pode se tornar mais uma extensão de um mundo de descobertas.

Hoje, crianças do Iraque podem gravar documentários para discutir a sociedade em que vivem e relatar com voz honesta o que presenciam todo dia. E você pode ver isso e seu filho também. Ou você pode jogar aquele jogo da sua infância e mostrar os pontos negativos e positivos da estruturação do enredo, porque eles são fontes incríveis de estudo sobre o papel da protagonista feminina em enredos, sexismo, a indústria de jogos, a concepção de ideias e histórias, e por aí vai.

Mas sim, causa medo. O primeiro artigo que li na vida sobre o assunto era uma manchete de “Cientistas indicam que wi fi irá matar milhões em 10 anos”. Li isso com 10 anos, ou seja, já faz 12 anos e estamos aqui, mas sabemos dos riscos das ondas que é necessário para que nós tenhamos internet e tudo foi feito para minimizar isso.

E acho, sinceramente, que no ponto que estamos, já não existe chance de banir a tecnologia. Ela está enraizada, é um marco cultural, é um comportamento em massa e uma ponte de comunicação global. Então como mãe e profissional, tomei a decisão de usar isso como benefício, como ferramenta de conexão e sim, respeitar as etapas da minha filha, mas também compreender que nessa via existe uma outra mão, que pode segurar na dela e ajudar a descobrir novos mundos. Com limites e com muito, muito cafuné, papel e giz.

Paola Rodrigues cursa o primeiro ano de Licenciatura em História, é escritora, produtora cultural e apaixonada pela maternidade. É mãe orgulhosa de duas, mesmo só podendo estar com uma. Escreve no blog Cartas para Helena, onde o foco é deixar um relato de pensamentos e percepções para a pequena Helena. É colaboradora na Revista Obvious, ativista no acesso a cultura e arte para todos e acredita que estamos criando um mundo melhor, quando deixamos crianças serem crianças. cartasparahelena.wordpress.com/


Tags:  educação games sem telas tecnologia tecnologia e educação telas

Bookmark and Share




Previous Post
O que a fazenda do comercial diz sobre nós mesmos
Next Post
'O jornal' e 'O lenço', de Patricia Auerbach | sorteio



Mariana Sá




You might also like




1 Comment

Nov 15, 2016

Muito bom!



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *



More Story
O que a fazenda do comercial diz sobre nós mesmos
Texto especial para o Milc de Mariana Sá* Assisto pouca tevê e soube do novo comercial de ketchup por meio dos leitores...