Por que alguns pais estão tirando os brinquedos-tela de seus filhos?

Texto de Patrícia L. Paione Grinfeld*

Até um tempo atrás, um brinquedo só saía de cena pelas mãos de um adulto, quando a criança aprontava alguma. O brinquedo era tirado como forma de castigo, punição ou resolução de conflito.

Atualmente, além destas conhecidas e comuns situações, alguns pais começam a tirar de seus filhos um brinquedo que eles mesmos ofertaram: as telinhas. Desta vez, não porque a criança causou, mas porque o uso do “brinquedo” começa a mostrar um lado que muitos não acreditavam existir:

1) As telas ditam o que deve ser feito. É ela que domina a criança, e não o contrário. O que a princípio parecia uma ferramenta interativa e educativa, começa a ser visto como uma dominação corpo-mente. A criança deixa de ser quem decide, respondendo a mecanismos solicitados/esperados pelo “brinquedo”. De ativa, a criança torna-se passiva, o que é extremamente empobrecedor para seu potencial criativo e, consequentemente, seu desenvolvimento global.

2) Os brinquedos-tela exigem, em muitas situações, uma maturidade que a criança ainda não tem. Esta imaturidade para operar a máquina só é percebida quando situações reais aparecem – passar longo período do dia diante de seu magnetismo (deixando de lado outras formas de brincar), comprar jogos ou acessar conteúdos sem autorização (mesmo sabendo que não é permitido), se ver instigado ou obrigado a vencer e vencer, ter e ter, entre outras. Como toda máquina, os brinquedos-tela, especialmente os conectados à rede, precisam de um operador que o domine; um operador que realmente seja capaz de saber o momento de parar e prosseguir em todas as ações, para que ele possa dominar a máquina e não ser dominado por ela.

3) Os eletrônicos distanciam cada vez mais pessoas de pessoas. Momentos que poderiam ser ricos para troca e interação tornam-se momentos de isolamento e desinteresse pelo que está ao redor. Se o relacionamento afetivo e a curiosidade que o mundo desperta são motores para o aprendizado, as crianças debruçadas na tela estão sendo privadas do modo mais genuíno da díade ensinar-aprender.

Isto faz pensar em algumas questões importantes e necessárias que não se esgotam numa resposta única:

1) Estes “brinquedos” são para criança?
2) Existe momento certo para oferecer um brinquedo-tela à criança?
3) Orientar, limitar acesso, conteúdo e tempo de uso é suficiente?
4) É possível um uso seguro – no sentido mais amplo da palavra – das telas pela criança?

Compartilhe conosco sua experiência e o que pensa sobre esta questão!

Imagem da web.

Texto anteriormente publicado no blog Ninguém cresce sozinho, gentilmente cedido pela autora.

(*) Patrícia mora em São Paulo, é psicóloga e 2x mãe. Por acreditar que pequenas atitudes podem ser transformadoras, faz seu trabalho de formiguinha na vida e na profissão. É idealizadora do blog Ninguém cresce sozinho e nunca acreditou tanto na importância do trabalho do MILC quando, ao ler “Bruxa, Bruxa, venha à minha festa” para um grupo de crianças entre 2 e 8 anos, uma menina com 3 disse: “Olha a Barbie”, apontando para a chapeuzinho vermelho da história. www.ninguemcrescesozinho.com


Tags:  #infancialivre educação proteção à infância sem telas tablet telas

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Mariana Sá




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11 Comments

Dec 01, 2014

1) tablets e computadores NÃO são brinquedos para crianças
2) momento certo para oferecer? acho que naquela viagem que durará cerca de 7 horas, acho que o tablet pode ser oferecido na última hora, depois que todos os demais recursos (brincadeiras, cantoria, contação de história, soninho) já se esgotaram. Minha última viagem de 6 horas eu nem cheguei a este recurso… se antes a gente sobrevivia sem tablet, eles tb conseguem!
3) acho que nem é LIMITAR o acesso… é não ter essa opção, e pronto! pra que tanto brinquedo??? vai brincar!!! vai correr!!!
4) uso seguro com internet? NÃO HÁ! um video da galinha pintadinha uma vez foi parar numa apresentação da Cindy lauper dentro do Youtube… resultado: só entrego tablet com wi fi desligado!


Dec 01, 2014

Oi,
Eu fiz uma longa reflexão sobre isso no meu blog e essa questão tem me preocupado muito. Eu até limito (corto completamente) o tempo que o meu filho passa em frente às telas, mas me preocupa que a maior parte dos coleguinhas na escola e na família tem um acesso quase ilimitado. E há uma desinformação geral sobre os malefícios de tanto tempo perdido em frente às telas. Esse debate tem que ecoar cada vez mais longe para que possamos proteger a infância. E essa página tem esse importante papel… Parabéns pelo trabalho de vocês!!!

Se quiserem conferir, vejam este link com o relato no meu blog: http://www.verdemae.com.br/2014/06/por-que-eu-proibi-tv.html.

Bjos,
Jaqueline


Dec 01, 2014

Difícil explicar/ tirar da criança uma vez em que todos a sua volta estão fazendo uso dos mesmos ou semelhantes


Dec 01, 2014

Eu acho um dano irreparável para a vida das crianças a exposição a tablets, computadores, celulares, etc. Criança tem que brincar, não ficar dentro de casa, alienada. Fico realmente triste quando vou a casa de algumxs tixs, primxs e vejo seus filhxs na frente da TV com cara de bobxs, ou com um celular na mão.


Dec 02, 2014

Olás

Acho que todo radicalismo faz mal. Claro que ninguém quer ver uma criança virar zumbi em frente à tela, mas vamos aprofundar um pouco o papo?

• O problema não é o tablet – é o que você instala nele. Não é saudável entregar o tablet (a palavra entregar é chave!): tem que escolher conteúdo apropriado para a idade, sem acesso a links da web, sem violência, sem compras internas ou publicidade;
• Tem que ter hora, local e situação ok para usar e para desligar o tablet;
• Tem que usar junto com as crianças pequenas e ficar de olho no que elas usam sozinhas, mais tarde.
• Tem que acionar os dispositivos de segurança: modo avião é mais tranquilo em vários aspectos, por exemplo.
• Tablet não é sinônimo de Internet – conteúdo infantil é offline.
• Tem que prestar atenção no uso que nós adultos fazemos de nossos celulares – quanto mais você vive grudado ali, mais a criança vai achar que é esse o comportamento normal.

A verdade é que o tablet tem que ser encarado como qualquer outra atividade que se oferece às crianças. Ele pode promover brincadeiras divertidas, trazer desenvolvimentos cognitivos, trabalhar capacidades de sociabilidade e muito mais. Só que, para isso, os pais vão ter um trabalho de curadoria – idem ao que precisam ter com TV, por exemplo. Aliás, prefiro uma criança interagindo com um aplicativo adequado por alguns minutos do que assistindo passivamente um desenho animado fraco na TV, com acesso a publicidade também passiva, por exemplo.

Alguns estudos já comprovam que simplesmente limitar o tempo de uso de tela (qualquer tela!) não é suficiente. É preciso saber o que baixar para os pequenos. Desse modo, não vai haver essa neura de crianças “dominadas pelo tablet”. As telas podem ser muito bacanas ou bem prejudiciais – depende muito de como lidamos com elas. Aliás, é o mesmo para tudo na vida, certo? Acho prejudicial simplesmente negar o acesso à criança se você tem o aparelho em casa. É preciso oferecer com limites e atenção, para ela ter capacidade para, aos poucos, entender como lidar com o mundo digital, que será parte do dia-a-dia dessa geração. Segurança online também se aprende em casa.

A gente leva bem a sério o conteúdo digital infantil – e é dessa preocupação que nasceu o site. Nós fazemos uma peneirada forte dentre tanto conteúdo ruim que tem à disposição na App Store para orientar sobre o que é melhor para as crianças. Se os pais se derem ao trabalho de seguir algumas orientações simples, a relação criança-digital vai ser ótima e um complemento possível para tudo o que é offline!

Parabéns por levantar a bola de um assunto tão delicado 😉


    Dec 02, 2014

    Claudia,
    vamos transformar este seu comentário num texto para ter mais visibilidade: acreditamos na pluralidade de opiniões para que com acesso a diversos pontos de vista, cada mãe tome sua decisão.
    Se desejar, nos mande seu miniCV e o link do seu site.
    Abraços,
    Mariana


Dec 02, 2014

Compartilho das ideias apresentadas no comentário da Maria Claudia e fico feliz em saber que o MILC vai dar espaço para essa outra forma de olhar. Ainda temos bastante o que refletir sobre esse tema e, a meu ver, proibir não é o melhor caminho. Eu consigo também olhar pra um tablet e ver uma “coisa mágica”, poder tocar e criar desenhos digitais, jogar junto, assim como com jogos “de papel”. Mas sou sempre a favor do convívio também com o tablet… Enfim, acho que a Maria Claudia já escreveu tudo o que eu penso 🙂 Um abraço!


Dec 02, 2014

Estamos já assistindo o resultado das inúmeras telas e aparelhos usados ,desde muito cedo , pelos jovens e adolescentes das novas gerações. Bombardeados com a inovação das telas cada vez mais atraentes que caem em suas mãos ,passam a viver virtualmente ,desaprendem o “CONVIVER” ,tornam-se verdadeiros “ROBÔS” ambulantes, cujas atitudes surpreendem e assustam os responsáveis por eles e pela sua formação para a VIDA.

A conclusão simplista a que chego é que os pais não encontrarão o TEMPO e os MEIOS necessários para orientar o bom uso da avalanche de FERRAMENTAS e FÓRMULAS científicas que , se BEM USADAS , o seriam para o BEM e a PAZ DA HUMANIDADE.


Dec 02, 2014

Maria Cláudia, gostei muito das suas colocações. Essa minha observação não é de agora (este texto foi escrito há mais de um ano), mas ainda vejo muitos pais, escolas e cuidadores entregando telas para as crianças sem selecionar conteúdo, sem limitar acesso, sem acompanhar o uso que a criança faz delas e sem saber como fazer isso tudo! Daí, diante de alguma situação-limite, como comprar jogos sem autorização, acessar páginas com conteúdo inapropriado, isolar-se em situações sociais, entre outras, os adultos responsáveis acabam, como tentativa de recuperar alguma coisa que deixaram escapar lá atrás, tirando o brinquedo-tela da criança. Isso também a coloca numa posição passiva e, por isso, nada construtiva. É preciso pensar juntos de que forma e com quais conteúdos as telas devem entrar na vida das crianças. Esse é um tema importante e complexo, que merece estar em pauta onde quer que haja uma criança.


Dec 03, 2014

[…] Originalmente publicado aqui. […]


Dec 25, 2014

Acho q o radicalismo não funciona e q o proibido da mto + vontade . A tecnologia está ao em toda parte , para ser usada , é um recurso super válido . Pode ser usada p o bem ou p o mal , como tudo na vida tem dualidade . Resta a nos impor alguns limites , afinal não é assim c os filhos ? O tempo todo estamos orientando e colocando limites . Quer pior do q nos msm q somos pais hj e não tivemos esse acesso a tecnologia na nossa infância , q não existia na época e somos totalmente escravos de smartphones , internet e redes sócias ?!
Acho q vale refletir
Msm assim defendo o NÃO julgamento pois oq serve p algumas famílias não serve p outras 🙂



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