criança e mídia / 15 de dezembro de 2014

Uma árvore de magia!

Texto especial para o Milc de Mirtes Aquino*

Comprei minha primeira árvore de natal quando minha filha nasceu. Antes até tinha uma de mesa, mas foi quando a pequena chegou que resolvi investir numa árvore tradicional de pé. “A criança precisa viver a magia do natal” era o que me contavam. E eu comprei árvore, enfeites coloridos e pisca-pisca. Montei e desmontei por cinco anos a tal árvore, e comecei a achar que ela já estava muito feinha e sem graça. Decidi que o melhor a fazer era comprar outra quando passassem as festas natalinas e os preços caíssem. E assim, num arroubo de decisão, desfiz-me da tal árvore e todos os seus penduricalhos… mas acabei esquecendo da segunda parte do plano. E o natal seguinte chegou sem árvore, e com os preços absurdos de todo final de ano. Bom, da necessidade surge a criatividade, e foi assim que nasceu a árvore de feltro e caixas de ovos de dois anos atrás.

No ano passado, vi numa rede social uma árvore feita de livros e enlouqueci para fazer uma também – mas a coisa não aconteceu, e acabei requentando o passado. Mas para esse ano estava decidida. A filha já tinha reclamado do destino da árvore tradicional. Afinal, por que eu tinha feito aquilo e não tinha comprado outra???? E foi assim que no último sábado compramos uma “saia de árvore” e recolhemos os livros infantis da casa. Eles estavam no quarto da filha, no meu quarto, na sala, no banheiro e na cozinha. Arrumados na estante, amontoados na bancada de estudo, dentro do guarda-roupa, no armário do banheiro, junto com os livros de culinária. Eram finos, grossos, largos, pequeninos, de capa dura, com muito texto, sem texto, na nossa língua, em outras línguas, com imagens delicadas, com imagens engraçadas. Eram todos diferentes, mas todos eles tinham uma história.

O primeiro livro que ela decorou os textos e fez de conta que lia, o primeiro que ela leu de verdade, o que eu passei meses desejando e olhando o preço até conseguir comprar numa promoção, o que ela se apaixonou na livraria e pediu e pediu para levar, o que lemos infinitas noites antes de dormir porque ela não queria nenhum outro, o que ela ganhou de aniversário da melhor amiga, o que ela trocou na feira de troca, o que a fez usar pela primeira vez um marcador de livros – que foi lido de bocadinhos, o que o marido me viu babar um dia na livraria e depois me deu de presente de dia dos namorados – e me fez chorar, o que ela escolheu para mim no dia das mães, o que compramos em uma viagem inesquecível…

Era a primeira vez que reuníamos todos assim! Alguns estavam esquecidos, e foram relidos, relembrados, revividos. Outros foram redescobertos de forma completamente diferente dos contatos anteriores. Ao tentar identificar os de tamanhos e alturas parecidos, juntamos livros adquiridos em épocas muito diferentes e perpassamos histórias e momentos. Paramos algumas vezes a montagem da árvore para ler em separado, e desmontamos um pouco para folhear aquele que já estava lá em baixo. A árvore ficou pronta, as luzinhas foram ligadas, e os últimos anos de nossas vidas estavam ali, entrelaçados nos nossos livros infantis.

arvores-livros

Por mais um ano não tivemos a árvore tradicional, e eu lembrei do que me disseram quando ela nasceu, sobre “viver a magia do natal”. Senti a fagulha de uma culpa materna por não seguir a multidão. Mas no dia seguinte ela terminou o presente que fez e embrulhou para a prima e sem pestanejar o colocou ao pé da nossa árvore de livros. Porque aquela é a nossa árvore de natal, e toda a magia dessa festa para nossa família está ali representada. Sim, a magia está em nós e aonde desejamos colocá-la. E nenhuma árvore de plástico com bolas coloridas teria mais magia ou mais sentido para nós.

Descubra onde está a magia da sua família e faça o seu feliz natal!

(*) Mirtes é a mãe da Letícia, além de economista e funcionária pública. Desde que se tornou mãe aprende que é possível construir um mundo melhor, o que necessariamente passa por uma infância mais respeitada. Escreve no Cachinhos Leitores, seu blog sobre literatura infantil. http://www.cachinhosleitores.blogspot.com


Tags:  livros Natal natal sem consumismo

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