criança e mídia / maternidade / 14 de Abril de 2015

As mães de hoje não sabem dizer não

Texto especial para o Milc a partir de um relato anônimo chegado na caixa de mensagens de Mariana Sá*

E todos os confeitos caíram no chão. Era aqueles confeitos que vêm num tubo  com ventilador na ponta. Era uma caixa de tubos de confeitos com a estampa de pássaros zangados.

– Foi aquele menininho quem derrubou!
– Não se faz mais mãe como antigamente!
– Estas jovens não sabem educar: nem deviam colocar criança no mundo!
– Tá pensando que ter filho é igual a brincar de boneca?

E o menininho dá um passo atrás, coloca a mão na cabeça e diz baixinho “eu sou um idiota!”.

– Mas eu ouvi ela dizendo para ele não colocar a mão…
– Se vê que não sabe dar limite.
– No meu tempo bastava um olhar.

E a mãe se abaixou para catar cada uma daquelas peças coloridas.

– E bastou! Vocês não viram a cara menino coitado, ela não falou nada. Só olhou pra ele.
– Ela deve ter ficado com muita raiva pela desobediência.
– É mesmo assim não gritou…
– Devia ter gritado, dado um palmada e obrigado ele catar. Assim, quem sabe?, aprendia…
– Eu não teria coragem de gritar com ele: visivelmente a lição estava dada…

A mãe arrumou como pode a caixa de tubinhos e disse para caixa:

– Olha, ele derrubou tudo e eu arrumei como pude. Se vocês quiserem manter arrumado, tirem da altura das crianças.

Ela deu as costas e saiu sem as compras. Mas ao voltar conseguiu ouvir as três senhoras já de costas:

– Realmente coisas coloridas como estas são uma tentação para crianças pequenas…
– E crianças pequenas são mesmo desastradas…
– E é querer demais manter as coisas em ordem quando são feitas de maneira a chamar atenção das crianças…
– Nem a melhor educação do mundo é capaz de mitigar tanta sacanagem…

Repensou sua raiva dos brinquedos-doce caídos e ajoelhou na altura do filho: “não é culpa sua, está tudo bem. Vamos comer nosso pãozinho?”

A mãe virou para trás e viu que o gerente da padaria, seu velho conhecido, observava com ar sério os pirulitos mal arrumados na prateleira:

– Obrigada, seu gerente da padaria, por me dar a oportunidade de – através da minha raiva – perceber que “somos todos responsáveis”. E que nem você, nem as indústrias que fabricam e marketeiam para crianças estão fazendo a sua parte. Aguardo seu agradecimento por ter devolvido suas porcarias às prateleiras, fazendo a minha parte.

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Não direi “não” ao meu filho! Direi não a vocês todos, mascates dos tempos modernos, que não respeitam a criança!

Nenhum criança será repreendida por derrubar confeitos que fazem mal à saúde, licenciados com personagens, colocados estrategicamente nos mercados da vida para transformá-lo cada vez mais cedo num zumbi consumista. Nenhum criança será castigada!

 
Nota da Editora: precisamos pensar sobre como as crianças são bombardeadas cotidianamente. Mães e pais atentos sabem que nenhuma proteção é suficiente: não existe bolha! Não queremos bolha! Queremos que nossos filhos tenham o direito de ir e vir sem ser interpelados por marketeiros, publicitários e comerciantes sem a nossa autorização prévia. A publicidade infantil é clara na tevê e nas revistinhas, mas está escancarada nos pontos de vendas com as suas arrumações cinicamente pensadas para estar ao alcance da mão de qualquer criança pequena. Precisamos rever isso!
 
(*) Mariana é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É cofundadora do Milc e membro da Rebrinc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças.

Tags:  licenciados licenciamento marketing ponto de venda publicidade infantil

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Mariana Sá




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1 Comment

Apr 27, 2015

Minha filha de dois anos, quando chega aos caixas do mercado, adora brincar de fazer música com as embalagens de acrílico contendo balas. E eu estimulo: ou ela pede as porcarias das gôndolas colocadas estrategicamente para estimular o consumo, ou ela apenas brinca com as balas e as deixa no lugar depois que “usar”. Essas balas, ao contrário dos doce, não estão ao alcance das mãos dela, mas para evitar que queira aquilo que foi direcionado para ela, eu pego as embalagens e chacoalho junto com ela.



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