denúncias e sentenças / destaque_home / 17 de junho de 2015

Mais um #presskit #chegounaredação das #mombloggers

Texto especial para o Milc de Anne Rammi*

Meu endereço está esquecido entre os mailings de mães blogueiras que são ativas na manutenção de suas relações com a indústria – de fraldas a produtos eletrônicos. Portanto vira e mexe aparece um cacareco na portaria.

Cada vez mais raro aqui, por conta da minha atitude completamente debochada para as parafernálias sem nenhuma utilidade – ou posicionamento sustentável que nossa sociedade urge: de reduzir coisas, abolir plásticos, parar de acumular supérfluos, você já entendeu – esses “mimos” das corporações chegam com força total nas casas de mães e pais blogueiros, à exemplo das antigas práticas com os jornalistas, o famoso jabá, de onde vem a tag hilária #chegounaredaçao. Adicionando #mombloggers, #correiododia #instamae ou #presskit  em uma busca no instagram pode validar a minha afirmação. Vá lá e comprove. Individualmente, não tenho nada a declarar sobre a prática de usar o espaço de um blog para fazer publicidade, ou escambo. Eu mesmo tenho as minhas estratégias de divulgar coisas que acho bacana.

Mas só vou pontuar que essa é uma prática muito, mas muito interessante para as indústrias e corporações, que lucram com a mídia espontânea dos ditos “formadores de opinião”. Para você ter uma ideia, produzir um xampu que custa na prateleira R$ 30,00 (e parece ser um presente incrível para se ganhar em uma manhã qualquer de terça-feira, quando abre a porta de casa, quer dizer, da redação) não passa de R$ 4,00 de custo para a empresa. E por esse incrível investimento (mais a taxa de postagem e a sacolinha, claro) a empresa consegue espaço em um canal super valioso: segmentado, com público aderente, com uma personagem admirada vinculada, que muitas vezes usa os filhos na foto para “agradecer” o souvenir. Os publicitários vibram!

Claro que para a blogueira, isso é sinal de status. Afinal, quem não gosta de presente? De ser reconhecida por uma marca, na era onde as marcas são quase gente? E gente importante!

Basta olhar os comentários e verá: a chuva de seguidores querendo também! Como eu faço para ganhar? Fulana, como eu me inscrevo nessas agências que te mandam os brindes? Beltrana, eu também quero ser blogueira! Por vezes respondidos com as orientações que chegam junto com o cacareco no release, que pauta inclusive as pessoas-mídia  sobre quais tags usar, indicação de pontos de venda, valores e tudo. Que negócio da China para as empresas, a blogueira ainda faz serviço de atendimento!! Lembrem-se do exemplo do Xampu, um investimento que não passou de 10 reais! Uau!

Apesar de todo o meu tom irônico, eu acho que a extinção dessa baboseira deveria vir, não de regulação, mas do ostracismo coletivo dos leitores que, elucidados do que isso envolve, passariam no meu mundo hipotético a perceber que são eles os explorados nessa conduta. O que significa que pouco ou nada me aflige o fato de que mães-mídia recebem tranqueiras em casa e agradecem com tags esquisitas, sinceramente. E eu estava muito tranquila na minha teoria até semana passada, quando cheguei na redação (rá) e vi em cima da mesa uma caixa de xarope infantil. Grande para o tamanho normal de um vidro de xarope, é bem verdade.

Minha mãe havia sido a felizarda a receber a tralha e já me avisou “você vai ficar brava, te mandaram porcaria pelo correio”. Uma pausa aqui para contar que eu vivo num dilema moral do que fazer com essas coisas. Normalmente, acabo doando na igreja ou no Amparo Maternal mas apenas se forem produtos que eu usaria nos meus filhos. E xarope?

Até dei uma lida na embalagem e pensei: bem. Há de ajudar alguma criança que não poderia comprar essa coisa. Muito embora eu jamais optaria por esse tipo de medicamento para meus filhos, pensei que a doação seria incólume.

EIS QUE no dia seguinte tinha um monte de formiga em volta da caixa intocada. Pensei eu: deviam me pagar para poder me mandar essas tralhas aqui. Além de agora ser responsável por essa embalagem, pelo transporte até a igreja, e perder tempo com essa porcaria, vou acumular karma matando as formigas!! Eu ia amaldiçoar todas as gerações da marca do remédio e o pessoal do marketing, mas evitei o karma disso também. Eu sou vegetariana (pelos animais e pela preguiça) e atéia (graças à Deusa!), mas morro de medo de karma negativo.

Quando eu levantei a caixa, ouvi um barulho estranho e resolvi olhar o que tinha dentro. Eu não havia sentido uma comoção tão grande desde a ação de brindes de uma marca de chupetas e mamadeiras, para blogueiras no Natal de 2013 (que distribuiu ILEGALMENTE substitutos do leite materno à despeito das normas nacionais para esse tipo de produtog). Não era um xarope.

ERA UM BALEIRO!

image (3)Com a marca do remédio estampado na redoma transparente, o badulaque abrigava drágeas vermelhas. E mais: servia como dispenser, em se girando a manivela, várias gominhas caíam.

Enquanto as formigas insandecidas lutavam pela vida (elas deviam estar chocadas com o tamanho da minha raiva com aquele baleiro na mão, achando coitadas, que era dirigida para elas) eu me punha a tentar decifrar do que eram as drágeas.

Seriam pílulas do remédio? Seriam apenas balas doces? Sendo balas doces, como eu saberia distinguí-las de remédios, uma vez que a embalagem dizia se tratar de um xarope? E se fossem remédios? Eu deveria tomar aquilo para saber se era bala ou remédio?

Seguindo o manual da boa blogueira, fui atrás do release, quem sabe ali haveria uma explicação sobre aquela aberração. Mas ele já havia sido jogado fora, se é que veio, ainda não consegui confirmar essa informação. Porque a família inteira já sabe que eu não me interesso por conteúdo publicitário chegando desavisado na minha casa #NaoSouObrigada (também sou boa de tags). O baleiro na verdade, ficou à um triz de ir para a igreja, salvo pelas formigas.

Aos poucos, como caíam as balas de dentro do pote enquanto eu chacoalhava para tentar entender seu funcionamento, é um cofre? o xarope está dentro? e se meu filho pega essa coisa?, me caíam também as fichas sobre a seriedade de uma ação de marketing dessa:

Como pode uma equipe de publicitários, formados, estudados treinados criarem uma ação que relaciona remédio com bala e enviar para a casa de alguém que certamente tem uma criança?? Como pode? Toda vez que uma aberração dessas acontece eu penso: alguém criou, alguém aprovou, alguém executou, alguém despachou, alguém divulgou e ninguém nessa cadeia toda percebeu que está participando de um absurdo? Como pode?

E então, mais uma ficha caiu: alguém divulgou? Pois bem, se eu, a blogueira das cavernas com o endereço esquecido nas agências cujos estagiários do marketing não leram uma linha sequer do que eu venho escrevendo nos últimos anos tenho um baleiro-remédio na minha casa, imagina a galera lá de cima? Isso deve estar bombando no instagram! Fui ver.

Qual não foi minha surpresa em perceber que minhas colegas de parquinho cibernético NÃO COMPARTILHARAM a porcaria do brinde.

Nada. Necas. Apenas uma revista esquisita havia compartilhado o baleiro. Fiquei feliz! Fiquei tão feliz! Lembra que eu disse que os leitores parariam de dar ibope para a prática da brindificação bloguística e isso naturalmente se regularia? NÃO! As blogueiras estão percebendo – pelo menos assim, com o cúmulo do absurdo – e minando esse tipo de iniciativa. Tudo bem que ainda divulgam subprodutos da indústria alimentar que se apoia na publicidade infantil, e portanto no prejuízo da saúde das crianças, mas já é um avanço e tanto! O baleiro de remédio boicotado na fonte!

Queridas blogueiras maternas: parabéns por não divulgarem essa porcaria! <3

Senhores fabricantes de remédio: se liguem! Aleitamento materno, uma boa alimentação, hidratação e brincadeiras ao ar livre são remédios igualmente poderosos para combater as doenças de inverno. Pena que te levariam a falência se fossem praticadas como andamos praticando a medicalização de crianças na nossa sociedade.

Agências que criam essas aberrações: que xaropada hein?

***

Update da Redação: segundos antes de fechar esse texto eu estive novamente no instagram para checar por uma última vez se essa campanha tinha sido mesmo um fiasco. No que me deparo com uma grande revista de conteúdo mater/infantil fazendo o tal do merchan em troca do baleiro-remédio.

Agora pensa: Os veículos de comunicação em massa fazendo propaganda em troca de balinha? Que feio!!!

paisefilhos

 

Nota da editora: estamos cientes de que estamos dando publicidade para uma ação bizarra, mas escolhemos este caminho para mostrar que as mães são, de fato, mais responsáveis que os anunciantes e a mídia: soubemos de diversas blogueiras maternas que receberam o brinde e tiveram o bom senso de perceber que postar qualquer elogio à ação seria uma pá de cal na sua credibilidade e, mais!, seria uma irresponsabilidade para com as crianças cujas mães são suas seguidoras e dão importância ao que falam. Além da revista Pais & Filhos e da revista esquisita que fala sobre o comércio, ninguém  publicou imagem deste brinde no Instagram. Nenhuma blogueira materna! Nós não encontramos ninguém!

(*) Anne Rammi é mãe de dois e especialista em nada. Artista plástica por formação, pinta, borda, canta e sapateia. Tudo mais ou menos. Divide sua experiência de mãe e curiosa dos assuntos que cercam a criação de filhos na internet desde que eles nasceram, com abordagem bem humorada e ranheta, como lhe é peculiar. É editora do Mamatraca, um portal de conteúdo materno independente.www.mamatraca.com.br


Tags:  brinde marketing marketing de medicamento medicamento presskit publicidade de medicamento

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Mariana Sá




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2 Comments

Jun 17, 2015

Fico imaginando o tanto de cochinilias mortas para fazer essas balinhas éca!
Parabéns mais uma vez por sua atitude. Assim fico com a impressão que o mundo não está perdido.


Jun 18, 2015

Concordo com você. Remédios nunca deveriam vir em embalagem bonitinha de balas e nunca pelo correio pq nenhum médico as prescreveu. Mas acho que não deveria ter colocado a foto aqui. Porque você fez exatamente o que eles querem. A divulgação. Não importa se você xingou em seguida. Você divulgou a marca. Com você, a empresa conseguiu o que queria.



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