maternidade / 22 de julho de 2015

Maternidade além do umbigo

Texto especial para o Milc de Mariana Sá*

Não precisamos de regulação da publicidade dirigida à criança. Regulação é tutela! Regulação é censura! Regulação é o Estado se metendo na família brasileira! Regulação quem tem que fazer é cada pai e cada mãe.

Veja meu caso: cresci vendo Balão Mágico, Xuxa e Chaves e estou ótima! Não sou nenhuma consumista! Eu “fumava” cigarrinho de chocolate e hoje não tenho nenhum vício! Minha mãe me educou! Eu sabia que que não teria tudo o que via na tevê… Ah, claro que eu queria, mas eu fui ensinada que não dava para ser tudo.

Tenho filhos e educo eles como fui educada. Eles são ótimos! Nenhum é consumista. Nenhum faz birra no mercado. Eles sabem que quando posso dou, quando não posso não dou. Eu não proíbo nada não, eu converso: eles assistem de tudo, aprendem muitas coisas.

Sim, eles pedem as coisas a cada trinta segundos e eu explico para eles que não vou dar porque não posso dar tudo a cada trinta segundos. Sim, enche o saco, mas é minha função de mãe, né?

Não gosto da ideia de proibir publicidade para criança porque acho que é dos pais o dever de educar, de dizer não. Também não precisa de classificação indicativa, nem de rótulos muito detalhados: cada mãe deve selecionar o que filhos consomem: é papel dos pais fazer esta seleção e escolher o que é melhor para os filhos.

Acho que ninguém pode proibir a publicidade de dizer que tal produto vai deixar meu filho mais feliz, ou mais saudável, ou mais bem relacionado. Cabe a mim dizer a ele que isso é mentira. Eles podem mentir à vontade, é meu papel desmenti-los. É meu papel fazer com que meus filhos deixem de ser bestas e inocentes, afinal inocência é uma coisa que quanto mais rápido eles perdem, melhor.

Eles precisam se preparar para o mundo e a publicidade ajuda: quanto mais cedo as crianças souberem como o mundo lhes engana é melhor, se não crescem e viram uns abestalhados…

Não precisamos de regulação da publicidade dirigida à criança. Regulação é tutela! Regulação é censura! Regulação é o estado se metendo na família brasileira! Regulação quem tem que fazer é cada pai e cada mãe.

Veja o meu caso: eu é quem proíbo tudo mesmo! Não vejo a menor necessidade de regulação para todos, porque qualquer pessoa pode fazer o que eu faço, basta deixar de preguiça e assumir seu papel. E é papel de cada mãe saber o que é melhor para o filho. Não quero o governo dizendo o que é bom para meu filho.

A informação está disponível, basta querer achar. Basta desligar tevê! Eu mesma vou todas as tardes para os parques, meus filhos não vêem tevê e quando assistem são coisas que eu escolho. Eu seleciono tudo o que meus filhos assistem. Vejo cada filme antes das crianças. Seleciono cada livros.

Não compro estes brinquedos de plástico cheio de personagens. Acho que não são boa influência. Mas não acho que precisa proibir. Os brinquedos dos meus filhos são todos feitos à mão. Tem artesãos muito legais por aí, basta querer.

Os alimentos também eu seleciono: nunca compro nada que tenha personagem porque sei que não é bacana. Se eu sei qualquer um pode saber, por isso acho que não precisa este negócio de proibir personagem. As mães hoje são muito preguiçosas, querem que o governo dê tudo de mão beijada.

Eu! Eu! Eu!

Meu filho! Meu filho! Meu filho!

Na minha casa! Na minha casa! Na minha casa!

Parabéns que você não vê problema nas condutas comerciais das marcas e que consegue sozinha perceber, controlar e regular a mídia em sua casa!

Parabéns que você tem senso crítico, que consegue fazer leitura crítica de mídia e que consegue passar aos seus filhos!

Mas não é porque VOCÊ consegue tudo isso que a indústria e o comércio podem apontar um canhão para todas as crianças brasileiras: nenhuma criança estará salva enquanto existir alguma sob a mira precisa dos departamentos de marketing.

Vamos problematizar cada questão que se relaciona com o desenvolvimento saudável das nossas crianças!

Vamos aproveitar todas os olhares que nos ofereçam um ponto de vista diferente!

Vamos tirar benefício ao invés de ficar nesta resistência!

Vamos compartilhar as dicas para enquanto a regulação não vem, mas sem a prepotência de achar que serão suficientes para conter todos os prejuízos causados pelo marketing e pela publicidade dirigidos à criança.

Precisamos ser mães além do umbigo, gente!

(*) Mariana Sá é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É cofundadora do Milc e membro da Rebrinc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças.


Tags:  #aprovaPL #publicidadeinfantil #publicidadeinfantilNÃO educação PL 5921/01 proteção à criança proteção à infância

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Mariana Sá




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8 Comments

Jul 22, 2015

Bom texto, só discordo da parte que cita os rótulos detalhados.
A descrição dos rótulos é de extrema importância para pessoas alérgicas ou intolerantes a certos alimentos. Por exemplo um produto não derivado de leite pode conter traços ou soro deste. E se não for detalhado no rótulo pode causar danos ao consumidor com restrição.
Existe uma campanha de mães de alérgicos e um projeto de lei para isso. Vamos apoiar.


    Jul 22, 2015

    Oi Camila,
    O texto é todo construído com base em comentários que a página recebe diariamente. Só o final é sincero.
    Nós queremos regulação rígida da publicidade e do marketing. Nós queremos classificação indicativa, queremos rótulos.
    Toda a informação para mães e pais tomarem boas decisões em relação aos filhos.
    /Mariana


Jul 23, 2015

A verdade que hj se criou uma sociedade onde as pessoas querem subterfúgios para ter uma “maternidade fácil”. Ser mãe é difícil, educar é difícil, é mais fácil alienar a criança do que explica-la 2600 vezes que Não! Ela não pode ter tudo! É mas fácil ser permissiva evitar confrontos maciços com os pequenos. E nessa busca do “mais fácil” estamos criando uma geração de crianças que tudo traumatiza, que tudo é perigoso, que não pode isso ou aquilo, que se sentem no direito de enfrentar e confrontar os pai, uma sociedade onde as crianças opinam a respeito de tudo, na minha época de criança duvido que eu se quer ouvisse uma conversa da minha mãe, estão perdendo o limite do limite. Hoje vejo crianças de 4 anos com dedo levantado e ameaçando seu pai: Faz isso que eu chamo a policia, Eu quero isso, vc tem obrigação de me dar. Aff!!!!
E se tudo fosse assim tão nocivo acho que sociedade já teria entrado em guerra em choque de tanta gente louca e traumatizada e Concordo com o texto em numero, gênero e grau.


    Jul 23, 2015

    Você concordou com o cada um por si do início irônico ou com uma maternidade mais coletiva pedindo empatia com as mães e ajuda na demanda por melhor regulação da comunicação mercadológica para crianças do desabafo final?
    Abraços,
    /Mariana


Jul 30, 2015

por mim se proibia tudo destinado a crianças. tudo.
criança nao tem senso e noção do que pode ou deve fazer.. mesmo com os pais em cima vai chegar um momento em que a criança vai ver a propaganda em algum lugar.. e aí a culpa é de quem?
Infelizmente a sociedade brasileira cai de pato nessas barbaridades e ainda acha “chato” quando se fala em proibir afinal seria muito “extremismo”.


Mar 24, 2016

CONCORDO. com o texto verdadeiro do final. Entendo os comentarios do começo. .. mas é como disse: você, você e você.
Sera que o filho vai ter você 24 horas por dia 7 dias da semana? Pra ver todos os filmes antes… pra nao mudar de canal sozinho…. sera q ele vai acreditar em você desmentindo todo mundo pra sempre?
É muito bom mesmo que a inocencia acabe cedo…. mas tem mae que ainda é muito inocente. Acha que cria o filho pro mundo. … mas desde que esse mundo seja mediado por ela sempre.
Que criança é essa que, será tao esperta e instruida desde pequena que nunca sera vitima de todas as investidas de profissionais que vivem para alcança-la… e um governo que “nao se mete” ? Só porque a mãe edtava ali atenta? Aham…


Jul 22, 2016

Texto muito bom!
Infelizmente os comentários sobre a regulamentação da publicidade infantil refletem o pensamento de grande parcela da sociedade que, apesar de acreditar que as crianças são “o futuro da nação”, ainda trata a educação infantil como responsabilidade unicamente privada… Como se a proteção dos direitos das crianças através de políticas públicas significasse a intervenção na “autoridade” dos pais, que seriam os únicos aptos a decidir como esses direitos devem ser aplicados e protegidos.. As crianças devem ser protegidas de todas as formas possíveis, e as políticas de proteção devem partir do Estado sim! A regulamentação da publicidade é um direito da criança, e não uma “faculdade” dos pais.


Jul 25, 2016

Oi Camila, parabéns pelo trabalho e pelo texto. Além dos seus argumentos, temos que lembrar que o Brasil é um país diversos, onde a maioria não tem acesso a educação de qualidade, nem informação para transmitir aos filhos, onde pais que ganham mil reais por mês, se viram para comprar brinquedos de 500. Cabe ao Estado proteger essas crianças, principalmente



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