maternidade / 17 de agosto de 2015

Suas gavetas e a Galinha Pintadinha

Texto de Marisa*

Qual é a relação entre as gavetas da sua casa e a Galinha Pintadinha? Aparentemente, nenhuma. Mas, para mim, não somente as gavetas, mas as portas de armários, enfeites, estantes de livros e vários outros pontos de nossas casas estão diretamente relacionados com a galinha azul que recentemente recebeu os parabéns por manter as crianças quietinhas 1 bilhão de vezes.

Quanto menos ‘atrativos proibidos’ à disposição da criança, menor é a necessidade de chamar a galinha para ajudar.

Criança pequena é ativa e curiosa por natureza. Desejar que ela não mexa nas coisas a seu redor, não suba na mesa de centro e não abra armários é remar contra a maré. Afinal, por que uma criança pequena haveria de saber a diferença entre um enfeite e um brinquedo ou entre um livrinho de história e o livro da mesa de centro da sala de estar? Ela simplesmente não tem ainda maturidade cognitiva para compreender por que algumas coisas são permitidas e outras não. Monitorar uma criança pequena e mantê-la longe de pontos perigosos o tempo todo cansa, física e mentalmente. E traz junto dois grandes problemas.

O primeiro deles é que, vencidos pela exaustão, pais, avós ou cuidadores acabam apelando com frequência para uma tela (que mostre a galinha, a porca ou qualquer outro desenho animado ou que tenha algum aplicativo para interagir com a criança) para poder ter um momento de descanso. Muita gente ignora os alertas em relação ao uso de telas para ‘entreter’ crianças, mas os potenciais malefícios da prática regular estão cada vez mais evidentes. Já escrevi sobre o assunto aqui e recomendo a leitura deste texto do pediatra Daniel Becker e deste texto de autoria de Renata Penna, no Portal Mamíferas.

O segundo problema que uma casa cheia de atrativos proibidos traz diz respeito ao hábito de uma criança brincar sozinha. Segundo especialistas em desenvolvimento infantil, uma criança que tem um adulto colado nela o tempo todo, por questões de segurança ou não, sendo entretida por ele com brinquedos ou por uma tela, aprenderá que o mundo lhe fornecerá entretenimento constante. Essa criança, portanto, tem menos oportunidades de desenvolver a capacidade de se entreter sozinha.

Por outro lado, uma criança que, desde bebê, é deixada em um ambiente seguro, com brinquedos apropriados para a idade, tem a chance de aprender a brincar e se entreter sozinha por um período (não estou falando de horas a fio, mas sim de cerca de 20 minutos para crianças de 1 ano). O ambiente pode ser um berço ou um cercado, dependendo da idade, ou a sala de estar, caso os pais consigam transformá-la em um espaço totalmente seguro (portas de armários e gavetas trancadas, TV presa à parede, quinas de mesas protegidas, etc). Em ambos os casos, obviamente, um adulto precisa estar relativamente perto, o suficiente para conseguir supervisionar a criança à distância.

Segundo especialistas, apesar de a interação com adultos e outras crianças ser vital para o desenvolvimento infantil, é fundamental darmos a nossos filhos oportunidade de ficarem um tempo sozinhos. O ato de brincar sozinho fornece à criança pequena várias oportunidades de aprendizagem. Ao brincar sozinha, a criança explora o ambiente ao seu redor no seu próprio ritmo, desenvolve a auto-confiança, desenvolve a concentração e aprende com seus próprios erros.

Por recomendação da nossa pediatra e por necessidade – não tenho quem me ajude a cuidar do meu filho durante o dia e nem quem me ajude com as tarefas domésticas –, sempre deixei o Eduardo brincando sozinho por curtos períodos. Tudo indica que a teoria dos especialistas que menciono acima está, de fato, fucionando na prática. O Eduardo explora seus brinquedos sozinho, inventando 1001 maneiras criativas de manipular o que está a seu redor e eu consigo realizar tarefas domésticas relativamente rápidas (adiantar a preparação do jantar, colocar roupa na máquina de lavar, passar algumas peças de roupa ou terminar de me arrumar para sair, por exemplo) durante os períodos em que ele não necessita da minha atenção.

Para que isso fosse possível, tivemos que adaptar parte de nosso apartamento. Moramos em um apartamento bem pequeno, porém duplex. Fazendo uma simplificação meio grosseira, o Eduardo tem liberdade quase total no primeiro andar, que é praticamente um cômodo só (sala de estar, sala de jantar e cozinha). A exceção é uma área de cerca de menos de 2m2 onde temos uma escrivaninha e uma estante (esta área é bloqueada com uma grade). Já no segundo andar, ele tem liberdade total em seu quarto, cuja saída é bloqueada por um portãzinho. Nunca o deixamos sozinho em um andar da casa. Se ele está na sala, estou na cozinha, ambos no primeiro andar. Se ele está no quarto dele, estou no meu quarto ou no banheiro, todos no segundo andar. Como o apartamento é bem compacto, nenhum cômodo é longe do outro, o que facilita a supervisão.

Com essa organização, estamos nos aproximando dos 2 anos do Eduardo sem termos que apelar para equipamentos eletrônicos para descansarmos ou fazermos alguma tarefa doméstica, como muitos pais afirmam ser necessário. É lógico que transformar uma casa em um ambiente seguro para crianças pequenas não significa deixar de interagir ou deixar de sentar para brincar com elas no chão várias vezes ao longo do dia. Significa criar um ambiente onde a criança não precisa ser monitorada de perto o tempo todo, sendo impedida constantemente de fazer coisas que, a ela, parecem interessantíssimas. Cuidar de criança pequena continua sendo uma tarefa difícil e cansativa. Mas, a meu ver, bem menos desgastante, tanto fisica quanto mentalmente.

Quer mais um motivo para criar um local seguro onde seu filho possa brincar livremente e, assim, limitar a aparente necessidade de ligar a TV ou o tablet? Segundo esta matéria aqui, até o Steve Jobs limitava o tempo que seus filhos podiam ficar em frente a telas :-)

REFERÊNCIAS E MAIS INFORMAÇÃO:
http://www.parents.com/baby/development/intellectual/the-value-of-solo-play/?page=4
http://www.parenting.com/article/raising-a-child-who-can-entertain-herself

Foto por Alvin Smith, Flickr, Licença Creative Commons

Texto publicado anteriormente no Blog Ecomaternidade e republicado aqui com autorização da autora. Conheça mais a autora e o seu blog: http://ecomaternidade.com.br/quem-somos/


Tags:  #semtelas brincadeira brincar proteção à criança proteção à infância segurança sem telas telas

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Mariana Sá




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