adultização e erotização / 5 de outubro de 2015

Criança de cabelo alisado: continuamos a fazer tudo errado!

Texto especial para o Milc de Debora Regina Magalhães Diniz*

Na última semana bombou mais uma polêmica nas redes sociais: um salão de beleza divulgou a imagem de uma menina de 2 anos com os cabelos alisados por um produto específico. Bastou para que começasse a onda de compartilhamentos e indignação. Tão preocupados estavam os indignados em falar do absurdo que se esqueceram do principal: proteger a imagem da criança!

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Nós, do MILC, recebemos frequentemente imagens e denúncias de adultização ou erotização da infância. E a gente demora para falar sobre o assunto justamente porque, antes, fazemos um grande debate até chegar a uma conclusão e falar do tema SEM EXPOR A CRIANÇA!!!

Uma coisa sabemos: a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, no caso, a mãe, ou, no máximo, a cabeleireira. Elas são consideradas as grandes culpadas por cometerem esse absurdo. Não as eximimos de culpa, mas queremos puxar mais o fio desse meada.

Vivemos numa sociedade hipócrita e racista. Desde de sempre pessoas de cabelos crespos e cacheados ouvem que seus cabelos são “ruins”. A indústria do alisamento, relaxamento e chapinhas fatura horrores por que as pessoas sofrem com o estigma de “cabelo ruim”. É um preconceito que atinge homens e mulheres, mas é claro que as mulheres são as maiores vítimas. Os homens resolvem cortar os cabelos curtos, já as mulheres são obrigadas a dar “um jeito neles”. E desde, a infância dá-lhe cremes, penteados, chapinhas, alisantes, para “domar” os cabelos.

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Então, se estamos inseridos numa cultura em que é preciso “dar um jeito” nos cabelos crespos, certamente essa mãe, ao alisar os cabelos da filha acreditou estar fazendo o melhor para ela.

E a cabeleireira? Como se dispôs a fazer tal coisa? Ora, essa profissional certamente escutou do vendedor do produto que ele poderia ser utilizado em crianças. É só dar uma busca básica na internet que encontramos aos montes propaganda de produtos para alisar cabelos de crianças. Assim como tantos médicos são convencidos pelos vendedores de medicamentos, não duvido que os profissionais de salão também não são levados a acreditar na conversa de vendedores. Ou então errou, mesmo, errou feio e ainda divulgou.

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É tão comum o alisamento de cabelos infantis que, numa busca rápida na internet, encontramos vários links:

G1: Hospital se desculpa por texto sobre alisamento de cabelo de crianças

Mundo das Tribos: Alisamento de Cabelo Infantil: alisa cabelo em crianças

Maxibolsa: Crianças podem relaxar o cabelo?

Plantão da Beleza: Alisamento para Crianças

Perfeita Beleza: Relaxamento em Cabelo de Criança – antes e depois 

Mais do que expor os absurdos, nós, do MILC, desejamos que a ditadura da beleza acabe, em que cada criança se aceite como é, que não exista um modelo ideal a ser seguido e que toda menina crespa e cacheada tenha orgulho dos seus cabelos.

Aqui, um vídeo que achamos muito bom, MC Soffia, uma menina de 11 anos que tem orgulho de quem é!

E porque esta forma de adultização específica está intimamente intricada com o racismo, pedimos às nossas leitoras negras que nos ajude a conduzir este debate. O espaço está aberto para quem nasceu e cresceu sofrendo os impactos do racismo sobre seu cabelos, incluindo a inabilidade dos pais e avós de cuidarem dos cabelos crespos das meninas e de ensinarem a elas a se orgulharem de suas raízes. Habilidades perdidas por muitas famílias, após décadas de tentativas de embranquecimento para sobreviver, resistir e estar incluído numa sociedade racista.

(*) Debora é mãe de três, cofundadora do Milc, cursou Letras e Semiótica. É doula e educadora perinatal há 10 anos. Atualmente vive no Vale do Paraíba e é uma das coordenadoras da Roda Bebedubem. É ativista e implicante com a sociedade atual desde sempre. Co-fundadora do Milc e membro da Rebrinc


Tags:  alisamento cabelo exposição preconceito proteção à criança proteção à infância racismo

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Mariana Sá




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2 Comments

Oct 06, 2015

Olha concordo que é um absurdo alisar o cabelo de crianças, concordo também que o cabelo crespo tem seu valor, agora não concordo que alisar o cabelo seja um ato de racismo, ora então todo negro, para ser um ser centrado e com uma estima saudável tem que obrigatoriamente assumir os cabelos crespos?
Em pleno século 21 fica difícil acreditar em tamanha discriminação de cor, afinal hoje em dia ser branco e de cabelo liso passou a ser crime….


    Oct 06, 2015

    Alisar cabelo não é um ato de racismo. De que parte saiu estála conclusão?
    /mariana



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