destaque_home / publicidade infantil / 13 de outubro de 2015

Defendendo o direito à chatice

Texto especial para o Milc de Debora Figueiredo*

Afinal, quanto maior o saber, maior o sofrimento;
e quanto maior o entendimento, maior o desgosto
Eclesiastes

Se eu pudesse voltar atrás para refazer minha caminhada acadêmica, eu teria, de novo, escolhido iniciar na Filosofia. Tive um professor que no nosso primeiro semestre disse que importante seria se todos nós pudéssemos estudar Filosofia antes de estudar qualquer outra coisa. Tanto faz Física, Química, Biologia, História, Medicina ou Direito. Se a gente for parar para pensar, o conhecimento ocidental, que gerou o conhecimento em todas essas áreas, como a gente as conhece hoje, tem suas origens no pensamento filosófico. Foi uma mistura intrigante de admiração, curiosidade e dúvida (que outros ingredientes você adicionaria?), que gerou o conhecimento que produzimos até aqui.

A Filosofia exige um olhar sobre o óbvio e o não óbvio; exige atenção; exige uma renúncia, às vezes dolorosa, de alguns valores que antes tínhamos como certos, verdadeiros e imutáveis. A Filosofia exige a humildade de perceber que não sabemos praticamente nada; exige até mesmo estabilidade emocional ao lidar com o desvelar de coisas que antes não dávamos conta. Pense, por exemplo, sobre este aparelho que está permitindo que você leia este texto. Você vê o óbvio. Começa a pensar no que te fez comprá-lo, em como ele facilita sua vida, no preço dele na loja e no desconto que você conseguiu com o vendedor. Olha as formas dele, a cor, a qualidade da tela e a configuração. Fica até feliz e com um certo orgulho de ter conquistado esse objeto.

Vem a Filosofia e coloca em ti uma sementinha chamada dúvida. A dúvida é necessária para que possamos descobrir o que há por trás do que parece simples e perfeito. Nesse momento você começa a fazer uma série de questionamentos: O que me levou a desejar esse aparelho? Por que ele me parece tão necessário? Como as pessoas viviam antes dessa era tecnológica? O que ganhamos com ela? Tempo para fazer mais coisas de uma vez só? Um sem número de possibilidades de comunicação? A possibilidade de acesso a um conhecimento vasto e aprofundado? Eu acesso esse conhecimento vasto e aprofundado? O que eu acesso? Essas coisas são importantes para mim? Tocam-me? Emocionam-me? Por quê? Ou será que a tecnologia distancia quem está perto? Reduz o tempo em que eu poderia estar cuidando de mim mesmo, dos meus filhos, dos meus amigos? Como esse aparelho foi produzido? Foi de forma justa e segura para todos os trabalhadores envolvidos?* Será que o fato desse aparelho existir e ser fruto da criatividade humana, ele necessariamente é bom para a humanidade? Para onde vão meus dados, oferecidos a cada cadastro? O que serão feitos dos resíduos eletrônicos depois que esse aparelho não me servir mais? Cansou?

A Filosofia não cansa. A cada pergunta, surge outra e mais outra. Acontece que para que essas perguntas cheguem é necessário um tempo de reflexão, um olhar demorado sobre as coisas. Nós temos esse tempo? Às vezes uma ou outra pergunta dessa nos vem à mente, mas simplesmente as ignoramos. Temos mais o que fazer. Algumas pessoas, porém, insistem. E como o prisioneiro da Alegoria de Platão, voltam na caverna e tentam mostrar que aquilo que todos veem, não passam de sombras de uma realidade muito maior. O problema é que essas pessoas, que se esforçam para ver um pouquinho além (bem pouquinho mesmo, tendo em vista a quantidade de coisas que não sabem) tendem a ser taxados de exagerados, radicais e… chatos.

Os chatos sempre têm algo a dizer sobre aquilo que descobrem, aquilo percebem, aquilo que eles acham que é importante que outras pessoas saibam também. Ao chatos reparam em tudo e tentam sempre olhar além, embora ele sinta que talvez tenha deixado passar uma coisinha ou outra. Felizmente, os chatos criam relações de afeto com pessoas que pensam parecido e assim não se sentem tão sozinhos no mundo. Às vezes milhares de pessoas, inclusive. Existem chatos e chatas que perceberam as várias formas de opressão decorrentes de uma sociedade patriarcal e lutam pela igualdade de gênero e respeito a todos. Existem chatos e chatas que descobriram injustiças relativas ao trabalho humano e lutam por dignidade. Existem chatos e chatas que percebem o lixo que é produzido e chamado de alimento pelas grandes corporações e tentam conscientizar as pessoas. Existem chatos e chatas que sabem que consumimos veneno em nossas frutas, verduras e legumes e tentam alertar as pessoas para isso. Existem os chatos e chatas que se revoltam com o modo como os animais são tratados nos lugares em que são retirados seus leites, suas carnes, suas vísceras e suas vidas. Existem chatos e chatas que lutam pela igualdade étnica, que lutam pra que a cor seja motivo de orgulho, não de vergonha, medo e discriminação. Existem chatos que perceberam que o consumismo é um problema para nós mesmos e para o mundo e tentam mostrar outras possibilidades de ser e estar no mundo para além do comprar. Existem chatos e chatas que entendem que os direitos da infância devem ser preservados; que a publicidade infantil deve ser combatida e que as grandes empresas não devem ter privilégios frente a esses direitos. Uma das coisas que eu queria que esses chatos entendessem é que somos mais fortes quando unidos por um mundo melhor. Uma luta não exclui a outra.

Ontem eu recebi uns e-mails de um chato. Eles viu umas peças publicitárias que poderiam me interessar e me enviou. Uma delas é de uma loja de roupas que já esteve envolvida em escândalos devido a utilização de trabalho escravo. Pois bem, o comercial mostra crianças brincando de cabana. Sabe aquelas cabanas que na nossa infância era praticamente debaixo da mesa da cozinha ou um lençol velho por cima de duas cadeiras? No comercial parecia uma dessas, só que gourmet. Toda enfeitada, vários tipos de tecido, uns brinquedos ao redor e linda. Até eu desejei uma daquelas. Vejam só, até bandeirinhas e pisca-pisca tinham para iluminar o mini-barracão-estilizado. As crianças, todas brancas, correm pela casa finamente decorada gritando “Mamãe! Mamãe!”. Chegam na mamãe e perguntam por que só tem um dia das crianças e o resto é tudo dos adultos. Não é justo, um deles diz. Até aí tudo bem e então a mãe responde: “É, mas a gente não comemora em nenhum deles. ‘Cês’ querem trocar?”. E as crianças voltam para a cabaninha gritando “nãããão”.

Se a gente não é chato, fixa apenas na cena fofa de crianças brincando e se divertindo. E pode até pensar que “pelo menos a cena não é no shopping com crianças consumindo coisas supérfluas”. E aí o comercial continua: “A cada R$ 80 em produtos infantis, você pode escolher para o seu filho entre um jogo eletrônico de memória da Peppa Pig, um rádio comunicador do homem aranha, uma Elsa que ilumina e uma caixa de som com USB dos Minions”. Sim, R$ 80. Sim, uma caixa de som daqueles bonequinhos fofos que curtem uma tortura e uma malvadeza e que até um dia desses estavam sendo vendidos naquela gigante do Trash Food devido ao filme deles que estava passando coincidentemente na mesma época (UFFA). O comercial, embora direcione-se ao adulto, mantém atrativos para as crianças com cenas encantadoras e produtos licenciados. Além disso, incentiva o consumo de coisas supérfluas.

É, sou chata. Eu realmente abraço o adjetivo quando vejo uma postagem interessante das páginas que eu acompanho nas redes sociais e insisto em ler os comentários que, muitas vezes, limitam-se a dizer: “que gente chataaaaa”. Gente chataaaaa, vem aqui e dá um abraço!  O mundo precisa de vocês. E eu também.

Pra quem quer saber mais:
Documentário Sangue no Telemóvel
http://reporterbrasil.org.br/2013/08/samsung-e-processada-em-r-250-milhoes-por-superexploracao/
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/01/130118_lixo_eletronico_bg.shtml

Imagem designed by Freepik.

(*) Débora é filha. Foi criada sem consumismo por uma mãe cearense arretada de pulso firme e mãos doces e um pai generoso e amigo. Pensa que a decisão de ter um filho é importantíssima, principalmente no mundo em que vivemos. Formada em Filosofia pela Federal do Ceará, hoje cursa o mestrado em Psicologia na mesma universidade. Estuda cultura, infância, consumo e tecnologia e a relação de todas as coisas juntas. É integrante da REBRINC. http://mtmaisjanelas.wix.com/home


Tags:  consumismo crianças e publicidade proteção da infância publicidade infantil

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Mariana Sá




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