criança e mídia / 28 de outubro de 2015

O que aconteceu com as viagens em família?

Texto especial para o Milc de Mirtes Aquino*

Adoro viajar! Tanto faz se é pra perto ou pra longe – adoro viajar! Pra mim, viajar é se abrir pro novo, sair da zona de conforto e viver novas experiências. Viajo bem menos do que gostaria, como a maioria dos mortais, mas não perco oportunidade de botar o pé na estrada. E com minha filha, viajar ficou ainda mais interessante, porque posso viver a viagem com os olhinhos atentos e curiosos dela. Assim, tenho acompanhado muita coisa sobre viagem com crianças, em revistas, na TV e nas redes sociais, e percebido o quão complexo se tornou a outrora simples viagem em família.

Pois é, daquela época que se viajava no fundo da belina até hoje, muita coisa mudou. Algumas para trazer mais segurança e conforto à viagem, outras para possibilitar maior acesso a lugares mais distantes e distintos, e outras para simplesmente criar um novo mercado de consumo. Fazendo um paralelo, é como se um raio gourmetizador tivesse chegado às viagens com crianças.

Ora, não é novidade para ninguém que criar um mercado específico para o público infantil há tempos tem se mostrado negócio dos mais rentáveis. Assim, fazer diferenciações superficiais em produtos, como bebidas lácteas, cadernos ou curativos adesivos, cria não só um mercado cativo como um diferenciador de valor. A diferenciação pode ser a fragrância, a cor, uma quantidade maior de açúcar e/ou sódio, ou simplesmente a presença de personagens infantis na sua embalagem. Claro que para um bom número de produtos a diferenciação para torna-lo apto ao público infantil é não apenas justificável como necessária, como acontece com roupas, calçados e alguns alimentos e produtos de higiene. Mas o que vemos muitas vezes são diferenciações vazias, com o único intuito de criar um mercado diferenciado.

Pois bem, esse processo não foi diferente com as viagens! Algumas diferenciações são mesmo justificáveis e necessárias, como banheiros exclusivos para crianças em aeroportos, restaurantes e pontos turísticos de grande visitação, ou calçadas e rampas que possibilitem o uso de carrinhos de criança em lugares turísticos. Mas a verdade é que as diferenciações em viagens for kids se expandiu para muito além disso. E aí, vale de tudo que permita a sensação de diferenciação: ambientes temáticos com personagens infantis, indo além dos já tradicionais parques para restaurantes, hotéis e, veja só, até avião; menu infantil em voos e restaurantes (que na maioria das vezes é nutricionalmente inferior ao do adulto, embora no voo haja a vantagem de ser servido primeiro); parquinhos e entretenimentos infantis em todos os ambientes possíveis; oferta de lembrancinhas para crianças estrategicamente localizada, dentre outros.

O que mais me incomoda nessa história é a mesma coisa que me incomoda em outros mercados onde surgiu a diferenciação de produtos/serviços para crianças: a ideia de que você, pai e mãe, não conseguem fazer aquilo pelo seu filho sem a ajuda de um mercado super especializado. Já reparou na alimentação infantil? A não ser que existisse um problema de saúde real, sua avó sabia exatamente como fornecer uma alimentação nutritiva e variada aos filhos. Hoje os pais e mães são levados a crer que precisam sim do leite enriquecido com cálcio, e que a maçã precisa vir atrelada a um personagem para ser melhor aceita. Pois então, na época das viagens no fundo da belina, os pais e mães sabiam exatamente como fazer sua família aproveitar as férias em viagens. O que variava era o estilo de cada família, e, portanto, de viagem: praia ou serra; carro, ônibus, trem ou avião; hotel, pousada ou casa de amigos; enfim, independente de gosto e bolso, ninguém tinha dúvidas de que podia proporcionar diversão nas viagens com seus filhos sem precisar de personagens ou programações super direcionadas. Até porque o objetivo principal da viagem era sair da rotina que tantas vezes nos distancia para viver momentos novos juntos.

Mas o que hoje eu observo nos espaços de discussão sobre viagem é que a oferta e divulgação de muitos e complexos produtos e serviços diferenciados para crianças vem distanciando pais e mães dessa percepção. Perguntas como: “quem me indica um restaurante temático e/ou com menu infantil neste destino?”, “dentre estes resorts, qual o mais child friendly?” “Dá pra ir pra essa cidade com uma criança de 3 anos?” sinaliza que muitas vezes há um clima de ansiedade e insegurança no ar, atrelado a uma cobrança enorme de garantir a diversão máxima e tornar a viagem inesquecível para as crianças – garantia que o mercado não para de oferecer, das formas mais variadas e dispendiosas. Mas ora, porque a criança não pode ter tédio no restaurante, nem ficar com tempo vago no resort para apenas ser criança? Se todas as cidades têm crianças que supostamente se divertem, o que teria de terrível em ir a uma cidade sem o que convencionamos chamar de “atrações infantis”? Qual o problema de se colocar como principal atração da viagem em família exatamente A FAMÍLIA?

O estilo de viagem que agrada a uma família vai depender do estilo desta, e a criança vai se divertir onde sua família estiver se divertindo. O desafio é inserir nas viagens o que agrada ora a um, ora a outro – aquele princípio básico de se viver em família. E a verdade é que a crença de que tem locais que só agradam adultos e locais que só agradam crianças é uma grande falácia, mas que se mostra muito conveniente ao mercado que oferta produtos/serviços diferenciados para crianças. Quer um exemplo: se vocês curtem museus e os visitam com frequência, é claro que as crianças vão gostar de ir a museus em viagens. Mas se vocês não gostam e não frequentam, nem adianta que as crianças não vão gostar – e provavelmente nem os adultos. Acreditar que as crianças só vão se divertir se estiverem em ambientes programados pelo mercado de entretenimento para elas, geralmente atrelados a oferta de outros tantos produtos/serviços, é o que move esse mercado de viagens com crianças. E se pararmos para pensar, tem local mais child friendly que praia? Que um parque amplo e verde? Ou onde se possa observar animais livres? E principalmente, onde tenha outras crianças?

Outro dia, em um grupo de discussão sobre viagem, alguém perguntou sobre as viagens que seus filhos mais gostaram, e as respostas me surpreenderam – a maioria se referia a viagens nacionais, geralmente feitas de carro, e sem relação com parques ou ambientes ditos infantis. Faça um teste e pergunte aos seus filhos ou crianças próximas, garanto que você vai se surpreender também.

(*) Mirtes Aquino é a mãe da Letícia, além de economista e funcionária pública. Desde que se tornou mãe aprende que é possível construir um mundo melhor, o que necessariamente passa por uma infância mais respeitada. Escreve no Cachinhos Leitores, seu blog sobre literatura infantil. http://www.cachinhosleitores.blogspot.com


Tags:  #parquinhospublicospelomundo diversão lazer licenciamento viagem

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Mariana Sá




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1 Comment

Nov 03, 2015

Nossa! “Dá pra ir pra essa cidade com uma criança de 3 anos?” Gente, devem ter crianças de 3 anos vivendo nessas cidades, não? Ou será que estão serando as crianças e deixando em outras cidades até atingirem certa idade?? É cada coisa que colocam na cabeça das pessoas através das propagandas…e quem “abre os olhos” é que está errado, ainda por cima!



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