destaque_home / escola / 24 de março de 2016

Escola é lugar de política? Sim ou não? E como?

Texto especial para o Milc de Debora Regina Magalhães Diniz, Mariana Sá e Vanessa Anacleto*

Este não e um texto contra a divergência de opiniões, pelo contrário, este é um texto contra o ódio.

Partimos do princípio de que criança não tem que ter opinião política formada. Ideologia política e predileção partidária não são algo que os pais escolhem para os filhos antes mesmo de nascerem junto com o enxoval. A opinião política de cada um de nós é construída e, muitas vezes desconstruída, a partir de leituras, conversas e experiências pessoais e sociais e só se solidifica com o tempo.

Por outro lado, é certo que as crianças de hoje não saem mais da sala quando começa a conversa dos adultos, o que pode dar a eles uma falsa impressão de que são capazes de proferir uma opinião como “sua” ou mesmo militar quando estiverem num espaço público. Não pretendemos aqui pedir que os pais tirem as crianças da sala, mas que aproveitem a oportunidade que estamos vivendo neste momento histórico para ensinar às crianças importantes lições sobre viver em uma democracia. Lições valorosas que serão úteis quando chegar a hora delas, já crescidas, manifestarem as suas opiniões e exercerem os seus direitos.

Precisamos ter muita atenção às nossas próprias atitudes: quando a gente não consegue conviver com a divergência, algo muito sério está acontecendo conosco. Quando não conseguimos debater uma questão com quem gostamos por meio de argumentos e partimos para a agressão verbal ou desqualificação do interlocutor, realmente fica muito difícil debater e tudo o que nos resta é esbravejar (ou tentar silenciar). E quando crianças convivem com adultos assim é muito provável que repitam isso num ambiente escolar.

Temos pensado muito no que podemos fazer para evitar que as crianças sejam contaminadas por este clima de ódio e intolerância que estamos vivendo desde as eleições de 2014 e que se agravou nesta última semana a partir da aceleração das investigações que podem ou não redundar numa decisão de impeachment. Com esta ideia em mente, publicamos  semana passada um apelo aos adultos (pais e professores) para que protejam as crianças (http://bit.ly/Milc-protejam).

Procuramos, como mães e pais, fazer a nossa parte, cuidando das nossas conversas, debatendo com respeito e tolerância as visões de mundo e argumentos divergentes, sem agressões verbais e sem desqualificações do outro e não estimulando que repitam os nossos comportamentos quando protestamos de maneira mais intensa. Daí podemos esperar que eles não sejam os agentes de discursos de ódio e exclusão de colegas, mas não podemos garantir que estejam prontos para lidar com crianças e educadores que não se guiem por estes valores de tolerância e respeito.

Então, o que os pais podem fazer para que as crianças, ao expressar uma opinião, não se sintam coagidas e/ou silenciadas no ambiente escolar por outras crianças ou educadores?

Orientações das mães e dos pais às crianças sobre como se comportar no espaço da escola:

– A primeira coisa que devemos ter em mente é que nós, mães e pais, devemos representar uma escuta confiável para com os relatos das nossas crianças. Só assim poderemos saber o que elas passam, escutar o que dizem, investigar o que pensam e acolher o que sentem.

– Em seguida, é importante empoderar as crianças para que possam se expressar (ou se calar se assim desejarem), para que não se sintam coagidas a concordar com a maioria apenas para não serem excluídas.

– Da mesma maneira, é importante também ensinar que é importante ouvir o outro ou aceitar o seu silêncio, sem coagir ou excluir o colega que não pensa igual, ou que não tem opinião.

– Não estimular em casa situações que possam levar as crianças, especialmente as pequenas, aos confrontos na escola. Por exemplo, em dias em que as pessoas sejam convocadas a vestir uma cor para apoiar um “lado”, evitar envolver as crianças nisso e vesti-las com cores alternativas que não estejam em jogo.

 

Em relação à escola e sua equipe pedagógica, podemos e devemos:

– Investigar junto à equipe pedagógica sobre como o corpo docente se preparou para tratar com as crianças sobre os assuntos políticos atuais: escola não é lugar de doutrinação política, portanto os seus funcionários devem estar prontos para expressar a sua opinião sem assediar os alunos.

– Saber se os professores estão disponíveis para escutar as diversas opiniões dos alunos e ajudá-los na mediação caso haja conflito, atentos para não permitir que haja ódio, exclusão e bullying e, ainda, sem levar o debate para a todos os alunos concordarem com a sua própria opinião.

– Procurar saber da escola quais medidas estão sendo tomadas para que os debates e as manifestações sejam livres, porém baseadas no respeito.

– Caso a escola onde o seu filho estuda decida estimular o debate no seu espaço, se considera isso importante para o aprendizado cidadão dos alunos, procure saber se a equipe está preparada para administrar um conflito que possa ocorrer quando os alunos mostrarem claramente a sua opinião e se opuserem ao buscar o consenso ou convencimento da outra parte, cuidando para que o debate sempre fique no nível das ideias.

– Caso a escola decida liberar o uso de uniforme para que os alunos possam, juntamente com o conjunto da sociedade, manifestar seu apoio a uma das ideias em confronto, deverá também liberar o uniforme para a manifestação da ideia contrária, lembrando que a polarização pode gerar um clima de disputa, pouco propício ao entendimento e à formação de consensos.

– Informar a direção (ou até mesmo a diretoria de ensino) sempre que souber que a escola permitiu ou não notou que um aluno foi intimidado pela sua expressão, por outros alunos, por professores ou mesmo por pais de outro aluno, e sempre perguntar quais serão as providências a serem tomadas. E acompanhar cada providência.

Para concluir deixamos o trecho de uma mensagem de Laili Flórez, palhaça e professora de teatro em Salvador, publicada no seu Facebook (http://bit.ly/1VB9oY8) no dia 18/3/2016:

“Criança não é pra brigar e magoar o colega por causa de política, por causa de impeachment, de golpe midiático, de escândalo de corrupção. Criança não é pra encher a boca para repetir termos que ela nem sabe o que significa, nem pra chamar os outros de ‘ladrão’, ‘safado’, ‘petralha’, ‘coxinha’, a Presidenta de ‘vaca, piranha, vagabunda’ ou mulher nenhuma. Coxinha para criança deve ser o salgado. E vaca e piranha, os animais. Vamos nutrir nossas crianças com honestidade, senso de justiça, liberdade, respeito, empatia e amor ao próximo. E aí quem sabe assim tenhamos um futuro que todos gostamos de falar que queremos.”

Temos esperança! Este texto foi construído após a recepção de diversos relatos de expressão de ódio nas escolas, por crianças e também por educadores. Conversamos com muitos pais e educadores para construir estas dicas. Nas escolas onde o assunto foi tratado de maneira amorosa e adequada, os conflitos cessaram e seus professores puderam observa uma grande melhoria na qualidade do diálogo, da tolerância e do amor, pelo menos no que diz respeito à política.

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(*) Debora é mãe de três, cofundadora do Milc, cursou Letras e Semiótica. É doula e educadora perinatal há 10 anos. Atualmente vive no Vale do Paraíba e é uma das coordenadoras da Roda Bebedubem. É ativista e implicante com a sociedade atual desde sempre. Co-fundadora do Milc e membro da Rebrinc.

Mariana é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É cofundadora do Milc e membro da Rebrinc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças.

Vanessa Anacleto é mãe do Ernesto, blogueira e autora do livro Culpa de mãe. Por causa disso tudo, ajudou a fundar o Milc e luta por um futuro sem publicidade infantil. É autora do blog materno Mãe é Tudo Igual e membro da Rebrinc.


Tags:  adultização precoce cidadania educação política proteção à infância proteção às crianças

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