publicidade infantil / 3 de maio de 2016

Publicidade: educar ou proibir? Escolha os dois!

Texto especial para o Milc de Mariana Sá*

Frequentemente nos vemos diante de um falso dilema entre as tarefas de educar os filhos ou de demandar uma regulamentação mais rígida e responsiva da publicidade dirigida às crianças, no entanto as  tarefas  não são excludentes, nem durante este momento em que estamos demandando uma nova lei ou a correta aplicação da existente, nem quando a regulação já esteja de fato implantada.

Para efeitos didáticos, o raciocínio está dividido entre dois momentos: o presente – no qual  a regulação não está implantada – e o futuro desejado – quando a legislação estará funcionando e o sistema de justiça esteja punindo anunciantes abusivos.

Obviamente, não podemos prescindir de uma educação para a mídia e para o consumo enquanto a regulação não vem. Precisamos usar todas as estratégias possíveis para dialogar com nossos filhos e ensiná-los a identificar e escapar das armadilhas do marketing.

E, hoje em dia, a arma mais eficaz para que sejam contidos os abusos sejam de fato: a educação das crianças, o nosso comportamento individual ao consumir e todas as estratégias individuais que tentamos. Se por um lado não podemos abrir mão de que o Estado cumpra seu dever de proteção, por outro não podemos esperar que ele o faça. Devemos nós mesmos – mães, pais e educadores – proteger as crianças.

No entanto, expandir a atuação individual para o engajamento crítico à mídia e ao consumo, inclusive nos juntando a  grupos que demandam por soluções coletivas é fundamental. Precisamos não apenas aumentar a pressão sobre parlamentares, empresários, produtores e publicitários, mas também para aperfeiçoar as estratégias e afiar o senso crítico para empreender a ação individual de desenvolver em nós e nas crianças um olhar aguçado em relação às ofertas de mídia e consumo, mitigando o consumismo e a valorização do ter.

Talvez seja ainda difícil imaginar como seria o cenário brasileiro sob a égide de uma efetiva regulação da publicidade dirigida à criança. É comum nutrirmos uma utopia que, assim que aprovada uma lei, o mercado vai se adaptar imediatamente. No entanto, a experiência com a implementação de novas leis e observação da ética no Brasil nos faz enxergar um cenário de longa e contínua adaptação e aperfeiçoamento. Ficam os exemplo da Lei Maria da Penha e da Ficha Limpa, ambas têm alguns anos de promulgadas, mas ainda abundam notícias de mulheres sendo violentadas em casa e políticos corruptos se candidatando e sendo eleitos.

Então, não temos a ilusão de que um belo dia acordaremos e não mais precisaremos atuar dentro de casa para proteger nossos filhos, lhes guiando em direção a um desenvolvimento saudável. Não num médio prazo. Talvez nossos netos alcancem um patamar de comunicação no qual a propaganda infantil de hoje será comparável à publicidade de cigarros, armas e utilidades domésticas do início e meio do século 20.

Nosso sonho mais ousado é alcançar a existência de um marco legal, um sistema de justiça sensibilizado que funcione e uma audiência crítica que leve denúnicias ao Estado tendo chances reais de ver anunciantes, emissoras e publicitários punidos pela má conduta de colocar um anúncio abusivo no ar e que esta punição em potencial os faça pensar duas vezes antes de *delinquir*.

Outro desejo, já em andamento, é o de que anunciantes, pressionados pela queda do consumo provocada pela disseminação de informações críticas sobre seus produtos e condutas mercadológicas, mudem o direcionamento da sua comunicação.

Queremos, ao disseminar informações críticas, alternativas de consumo mais éticas, soluções, inspirações de novos modos de vida, aumentar a pressão sobre eles. Se empresas de refrigerante lançam novas bebidas para conseguir sobreviver à queda de vendas provocadas pelo pânico com a obesidade, de repente as empresas de brinquedos podem rever suas linhas de produtos e estratégias de comunicação, mediante a exigência dos seus consumidores.

Para finalizar, destacamos que a importância da educação para o consumo e para a mídia é fundamental para o desenvolvimento saudável das nossas crianças.  Não abrimos mão de educar  quando lutamos por uma regulamentação da publicidade ou quando criticamos um anúncio ou um produto e não abriremos mão de educar quando obtivermos êxito na implementação de um marco legal protetivo e responsivo que responsabilize quem feri-lo de maneira rígida e definitiva.

 

 

(*) Mariana é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É autora do blog materno viciados em colo e é cofundadora do Milc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças.


Tags:  autorregulamentação educação educação para as mídias educação para o consumo legislação proteção à criança proteção à infância regulação

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Mariana Sá




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