destaque_home / livros e filmes / 8 de junho de 2016

Quem cuida das crianças, quando os pais faltam?

Texto especial para o Milc de Mariana Sá*

Diante da leituras dos comentários num dos posts sobre o assassinato de Ítalo, uma criança de dez anos morta depois de uma perseguição policial, no Morumbi (São Paulo), o Milc recomenda que todos vejam o documentário O Começo da Vida e se concentrem na segunda parte.

O documentário sobre a importância da infância para o pleno desenvolvimento do ser humano está disponível na Netflix e na web.

Veja os traillers: sobre negligênciapobreza extrema e o desejo de ser mais presente

 

/ALERTA: a partir daqui contém spoiller/

Na primeira parte a porrada é nos pais e mães de classe média, que mesmo podendo escolher proporcionar uma criação suficientemente e repactuar uma divisão mais equânime dos cuidados com as crianças entre homens e mulheres, decide-se pelo caminho do consumismo e relega as crianças pequenas a um segundo plano sob o argumento de que precisam trabalhar por muitas horas para proporcionar uma suposta qualidade de vida para os filhos. É o momento que um outro filme passa na nossa cabeça: o nosso, o que fizemos de bom e de suficiente e as nossas ausências e culpas (que por mais que nos dediquemos, sempre existem).

Na segunda parte a porrada é ainda maior pois alcança todos os cidadãos, todos os governos, todas as corporações, todos nós que somos parte da raça humana. Diante das carências provenientes da pobreza extrema, nos perguntamos o que falhou no nosso processo de civilização: se todo o nosso cuidado com “os nossos” filhos nos pareceu insuficiente vendo o que uma criança realmente precisa, o que dizer de crianças que não têm acesso à água, energia, educação, saúde e justiça? O que dizer de uma criança que cuida de mais dois irmãos enquanto providencia o alimento e conserta o telhado enquanto a mãe se exaure na construção civil para poder pagar a dívida que contraiu para comprar sangue para um dos filhos que estava morrendo? O que dizer de uma criança sem sonhos?

E, diante das consequências da pobreza extrema mundial mostradas neste filme que não são muito diferentes das condições de muitos bairros periféricos das grandes cidades, se estas pessoas que disseram que criança (supostamente) armada não é mais criança não se sentirem mal, jamais entenderão o que a utopia do Milc, jamais entenderão o que sentimos ao saber deste homicídio.

Se as juízas do facebook não se sentirem estranhas ao ostentar o privilégio de PODER ESCOLHER CRIAR CORRETAMENTE OS PRÓPRIOS FILHOS, jamais entenderão que não é sobre “o meu filho” ou sobre “a minha culpa” ou sobre “o que falta aqui em casa”, mas sobre um projeto de civilização mundial em que há quem aceite e seja conivente com a existência de:
– crianças passando fome
– crianças sofrendo violências físicas
– crianças expulsas de seus países
– crianças estupradas
– crianças sem energia e água
– crianças fora da escola
– crianças sem assistência médica
– crianças tratadas como adultos
– crianças assediadas pelo consumismo
– crianças negras assassinadas pelo polícia.

E aí, se diante de tudo o que você vir no flime, ainda optar por sustentar as teses de individualização da culpa, não dá para prosseguir na conversa, nem sobre regulamentação da publicidade infantil, ou redução da maioridade penal, tão pouco sobre a crueldade de aplaudir PMs que matam crianças.

 

(*) Mariana é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É cofundadora do Milc e membro da Rebrinc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças.

 


Tags:  criação educação infância o começo da vida prioridade absoluta proteção à infância

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Movimento Infância Livre de Consumismo




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2 Comments

Mar 28, 2017

Ate intendo que a regulamentacao da publicidade infantil é essencial para a construcao de uma sociedade menos consumista e mais unida.
Mas no meu ver a publicidade infantil é de suma importancia a varios conteudos para as crianças sobretudo na televisao que precisa de anunciantes para existir.
Proibir publicidade infantil é acabar com os patrocinios do desenho do meu,do seu filho.É o Mc lanche feliz que patrocina esses conteudos,a Nestle que patrocinia,é a Mondelez entre outras…
A tv aberta dizimou o conteudo infantil pois nao ha lucro,ja proibiram os mershans e agora ate a publicidade.
Sou de uma epoca em que tinhamos muitos a crianças,programas de montam,todos assistim e era muito legal.
Hoje sobretudo a tv aberta virou um local de exocismo de grupos religiosos,de programas adultos com temas adultos entre outros.
A tv atualmente erotiza mais as crianças do que a publicidade em si.
Quem sofre com isso,facil?
As crianças que nao tem condicao de pagar por um desenho na tv acabo e nem na internet.
O jeito é o meu filho assistir conteudo de baixaria,violencia,e conteudos para adultos recheados de mershan de alimentos e outras coisas.


    Mar 28, 2017

    Então, na sua opinião, para ter uma programação infantil na tevê aberta, é válido assediar as crianças?
    Desculpa, mas a publicidade dirigida à criança não foi proibida (nem regulamentada adequadamente e da maneira que os movimentos de proteção às crianças demandam), portante a programação infantil acabou por qualquer outro motivo, mas não por causa da proibicação da publicidade, porque ela continua firme e forte no Brasil. Os seus filhos estão sendo expostos à programas inadequados porque estes têm mais audiência que os programas infantis: não se deixe enganar.



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