Refrigerantes fora da escola? Não é simples assim.

Texto especial para o Milc de Vanessa Anacleto*

Em 22 de junho recebemos a notícia da decisão de três gigantes do setor de suspender a venda de refrigerantes e algumas outras bebidas açucaradas nas cantinas escolares. Mesmo sabendo tratar-se de uma estratégia para fugir à regulação, apoiamos a iniciativa principalmente pela mea culpa que veio no bojo da nota divulgada. Diz a nota: “A obesidade é um problema complexo, causado por muitos fatores, e as empresas de bebidas reconhecem seu papel de ser parte da solução.” É uma bela maneira de dizer que os refrigerantes são parte do problema de modo muito, muito suave.

Infelizmente, a efetiva saída da Coca Cola do espaço escolar parece ser um pouco mais complicada. Ao mesmo tempo que diz que não venderá mais para crianças até 12 anos, a marca investe pesado em adolescentes através de uma gincana muito bem bolada. Na competição os professores são convidados a inscreverem seus alunos a partir de 12 anos. Com a gravação de um vídeo os alunos concorrem a vagas para carregarem a tocha olímpica. Segundo os organizadores, o evento que já tem edições desde 2010 no Brasil, “o projeto que vem incentivando a vida ativa para mais de 1.350 escolas e cerca de 700 mil alunos de todo país com eventos de celebração em mais de 30 cidades do território nacional .” Desta forma a marca se esforça um pouco mais para limpar sua imagem de promotora da obesidade . Juventude, olimpíadas, vida ativa. Não podemos dizer que não seja um evento legal, não é mesmo? Opa, sim, podemos!

Para tornar tudo isso muito mais interessante a empresa invade o espaço escolar virtual, convocando alunos a convidarem os amigos a votarem nos vídeos para alcançarem seus objetivos nas redes sociais. Para que banners de vinil quando temos redes sociais? Com uma sofisticação que só quem gasta bilhões de dólares em propaganda anualmente é capaz de alcançar, a ação da empresa nas escolas transforma o adolescente em garoto propaganda. Muito mais que mero consumidor do produto, o aluno é consumido pela empresa sem receber nada por isso além do incentivo para o que a bilionária da bebida açucarada chama de VIDA ATIVA. Que coisa sensacional. Esses caras são demais.

Enquanto contribui para que, segundo a International Diabetics Federation, tenhamos 250 milhões de diabéticos no mundo atualmente, a Coca-Cola luta para aumentar suas vendas em todo o mundo. E faz isso apostando forte nos adolescentes. Segundo a empresa – e nisso nós concordamos – as crianças até 12 anos não tem condições de refletir sobre os perigos do consumo de refrigerante e por isso não fará mais propaganda ou venda nas escolas para esta faixa etária. Não me pergunte o que significa aquela Caravana de Natal e os Ursos Polares, aquilo não deve ser feito para crianças, mas para adultos que amam ursos polares e caminhões coloridos com música, cores e Papai Noel. Papai Noel? Ah, não seja tão chato. O Papai Noel da Coca Cola é feito para a criança que existe em você!

Imagem da campanha da ACT #propagandasincera ~ conheça: http://actbr.org.br/dcnt/

Saiba mais sobre a questão:
O que achamos do anúncio das três maiores empresas fabrincantes de bebidas açucaradas ~ Refrigerantes fora da escola, bom para quem?
Daqui a pouco vão tentar culpar o professor ~ Marca de bebida açucarada na escola. De quem é a culpa?
Refrigerante faz mal para crianças, adolescentes e adultos ~ Sempre bebi refri e não morri, a lenda 

 

(*) Vanessa é mãe do Ernesto, revisora, blogueira, autora do livro Culpa de mãe e conselheira escolar. Por causa disso tudo, ajudou a fundar o Milc e luta por um futuro sem publicidade infantil. É autora do blog materno Mãe é Tudo Igual e membro da Rebrinc.


Tags:  #comidanaescola #refrinaescola adolescentes cantina comida na escola gincana marketing obesidade viral

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Vanessa Anacleto




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