destaque_home / livros e filmes / 17 de junho de 2017

Você está satisfeita com o seu corpo? Se pudesse mudar alguma parte qual seria?

Texto especial para o Milc de Mariana Sá*

Se você respondeu sim à primeira pergunta e tinha uma lista de características que te incomodam para responder à segunda, recomendamos que coloque assistir ao documentário *Embrace* (Abrace, em português) na sua lista de prioridades. Se você tem filhas pequenas ou já crescidas também. O filme não é exatamente sobre a infância, mas como todos os documentários recentes que assistimos, este é mais um que toca na questão do estrago que a publicidade e a mídia faz na cabeças (e nos corpos) das crianças, das meninas em especial.

“Por que, afinal, as mulheres odeiam seus corpos e o que podemos fazer sobre isso?” é pergunta que conduz a australiana Taryn Brumfitt em uma volta ao mundo coletando depoimentos sobre como as mulheres aceitam (ou não) o próprio corpo. O filme foi idealizado pelo BIM – Body Image Movement (Movimento de Imagem do Corpo, em português) e sua realização foi viabilizada por um financiamento coletivo. Taryn queria entender por que 91% das mulheres do mundo são infelizes com o próprio corpo e levou dois anos conversando com mulheres e gravando depoimentos para compreender porque tanta insatisfação com o formato dos corpos. Neste momento o filme na íntegra e legendado está disponível na Netflix.

Mariana: assistindo o documentário concluí que nunca ao longo de toda a minha vida me olhei no espelho e achei meu corpo “bonito”. Não importava com que peso: com 45 kg ou 75 kg, eu não estava satisfeita com meu corpo. Sempre olhava para uma ou outra parte com desejo de ter uma varinha de condão para acertar algum detalhe. Vendo o filme me deu um estalo: essa insatisfação constante passa que mensagem para minha filha? Se eu digo a minha filha que ela é linda, perfeita e única do jeito que é, como eu posso ser tão crítica em relação a mim mesma e esperar que ela desenvolva uma boa auto-estima sem o meu exemplo? E para o meu filho? O que ele vai procurar nos corpos das pessoas quando ele começar a se relacionar?

É fato que manter as mulheres insatisfeitas com o seu corpo, com seus odores, com seus pelos é uma excelente estratégia para os negócios: “vamos vender a solução para todos os problemas delas”, eles pensam, e não é à toa que o mercado de cosméticos e procedimentos estéticos nem sofre os impactos da crise. E é fato que a única maneira de se contrapor a esta doença global da insatisfação com o próprio corpo é a modelagem um novo conceito do que é um corpo perfeito e criar uma narrativa que perceba a perfeição única de cada corpo.

Talvez a forma de nos contrapor a esta lógica perversa é respirar e aceitar o corpo que não é “seu”, o corpo “é você”. É expandir além do formato do corpo: é pensar se estamos funcionando bem, é perceber se neste corpo estamos nos permitindo desfrutar de muitos prazeres, é compreender que as decisões de hoje têm impacto no nosso bem-estar futuro, se a alimentação e o movimento nos permitará (ou não!) viver muitos anos ativas, com a cabeça boa e nos movendo bem dentro das possibilidades. Nossos corpos somos nós nos movendo e nos relacionando no mundo, afetando e sendo afetadas por outras pessoas (especialmente nossos filhos).

Debora: Eu chorei várias vezes assistindo ao filme. Lembrei que passei uma vida me sentindo imperfeita. Ouvir tantas mulheres repetindo algo que eu dizia a mim mesma diante do espelho doeu. E ficou o alerta de como a indústria da beleza é cruel com as mulheres. Terminei de assistir achando todas aquelas mulheres maravilhosas, e eu também.

“Embrace” não é uma ode à obesidade, nem uma apologia à ao sedentarismo e à inconsequência nas escolhas alimentares. O filme faz um combate à gordofobia ao tratar sobre um padrão de beleza inatingível disseminado pela mídia e pela moda. Um padrão de beleza perverso que rotula uma modelo que veste 42 como plus size, que define cores e texturas de cabelos e define a pele lisa como se fosse de plástico como a desejável, expõem corpos femininos retocados com photoshop e gera uma insatisfação implantada com muito sucesso nas nossas cabeças porque é lucrativa.

Vanessa: Assisti Embrace e chorei em algumas partes. É muito triste. Eu tive muita dó das meninas. Dessas meninas que crescem se achando feias, ou não se achando bonitas o suficiente. E também fiquei com penas dos meninos, que crecem achando que as mulheres precisam ser daquele jeito, que nem têm tempo de saber ‘qual é o meu tipo?’. Não sou mãe de menina, mas mostrei ao meu filho e disse: ‘As mulheres de verdade são assim, não procure capas de revista, elas são feitas de photoshop.

Não se render ao padrão de beleza, por outro lado, não significa deixar em segundo plano a responsabilidades pelas escolhas relativas à alimentação e à movimentação do corpo, até porque estas escolhas por porcarias comestíveis é também uma imposição da sociedade de consumo.

“Embrace” é, sim, uma ode à perfeição da diversidade:  e é essa a mensagem que devemos nos esforçar para passar para nossas filhas (e filhos): amar nosso corpo, cuidar dele, sem pensar tanto na questão estética, mas numa conexão com o corpo. A partir da reflexão sobre “Embrace”, abrace-se!

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(*) Mariana é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É cofundadora do Milc e membro da Rebrinc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças.


Tags:  #MilcRecomenda gordofobia marketing mídia moda obesidade regulamentação da publicidade

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