destaque_home / maternidade / 9 de novembro de 2017

Pobreza e Consumismo

Texto especial para o Milc de Karoline Miranda*

Se você está aqui, é porque provavelmente, já ouve falar e se interessa por consumo e por infância. Logo, não será difícil pensar no que você entende por consumismo.

O que vem a nossa mente quando pensamos em consumismo?

Segundo o querido Google, significa “comprar em demasia”. De acordo com o Dicionário Michaelis, “situação própria de países altamente industrializados, caracterizada pelo consumo exagerado de bens duráveis, sobretudo artigos supérfluos”. No conceito geral, consumismo serve sempre para designar o gastar deliberadamente.

Muito comumente, somos educados para pensar o consumismo é um mal que ataca as classes mais abastadas, alta e média alta, as quais possuem mais poder aquisitivo, o que facilita a compra de “futilidades”. O melhor consumidor para o mercado é a população branca e de classe média, pois consequentemente ela se encaixa no padrão vendido por ele e tem dinheiro para pagar – consumir é apenas uma palavra.

Para as mulheres, o mercado se volta com mais ferocidade ainda. Dentro do padrão de sociedade, o homem trabalha e é o provedor para que a mulher tenha tempo suficiente para gastar e consumir. Embora a configuração do mercado de trabalho tenha mudado e muitas mulheres hoje trabalhem e ganhem seu próprio sustento, a sociedade de consumo ainda é lembrada pela imagem de uma mulher branca, de classe média, sem nada de útil para fazer, comprando roupas e sapatos em shoppings centers.

Entretanto, o consumismo e a sociedade de consumo vão muito além do consumir. Vai além da parcela da sociedade que tem poder aquisitivo para isso. Ela atinge da classe A à classe D. E é aí que está o problema crucial.

A experiência do consumismo para quem é pobre é muito mais intensa, e até posso dizer, muito mais cruel. A publicidade influencia de maneira triste quem não pode comprar. A mensagem da mídia e propaganda é clara: “você precisa disso, compre e seja feliz”; se você não pode comprar algo que “precisa”, você nitidamente não será feliz.

Esse conflito de querer, “precisar” e não poder adquirir e ter é triplamente mais injusto e cruel quando falamos de mães e filhos. Minha visão como consumidora foi completamente modificada com a vinda da maternidade. Se antes eu queria muito algo porque precisava, agora quero muito algo porque o meu filho precisa, e essa frase tem uma conotação muito diferente dentro de uma mãe. Condicionadas à culpa pela sociedade por qualquer motivo, a indústria aproveitou-se desse gancho precioso para fisgar cada vez mais consumidores. Não poder comprar para o filho significa ser uma péssima mãe. E se você acha que terapia já é algo caro para se livrar da culpa, é porque não sabe o quanto uma mãe é capaz de gastar no shopping para se livrar dela – se puder.

Lembro de estar grávida e constantemente, entrar em crises e crises de choro por não poder dar o quarto do bebê que sempre sonhei (ou fui influenciada a sonhar?), por não comprar um enxoval nas lojas famosas e, principalmente, não conseguir ter uma bolsa do bebê boa e bonita! Eu usava a que ganhei da Prefeitura com tristeza, porque não tinha condições de pagar um preço absurdo por uma bolsa toda equiparada.

Ele foi crescendo e meus sonhos de consumo, mudando. Queria um super berço, um ambiente de estimulação incrível, comprar o carrinho mais moderno, a fralda mais tecnológica – e consequentemente, mais cara –, os brinquedos mais incríveis. Até os livros infantis, algo que sempre quis que o Gael tivesse, sempre eram muito caros, e por eu não comprá-los, me achava menos capaz.

Gael foi crescendo. Após a introdução alimentar, eu já queria o danoninho, o leite ninho mais vitaminado, os biscoitos mais caros, sucrilhos e afins. Nunca tive dinheiro para comprar tudo isso. A história da alimentação do meu filho é baseada em muito arroz, feijão e ovo, macarrão com carne moída e salsicha (algo que hoje, com três anos, estamos tentando modificar isso na alimentação dele). Mas por quê a salsicha? Porque muitas vezes, com pouco dinheiro e a dúzia de ovos por sete reais, era mais vantajoso e econômico comprar um quilo de salsichas. No português claro: era o que o dinheiro dava. Embora tenha consciência de que são alimentos nada saudáveis, a propaganda, vez ou outra, ainda me faz sentir culpada por não poder comprar um danoninho que vale por um bifinho (embora não valha).

A hora dos presentes – de aniversário, de Natal, de dia das crianças – sempre foi bastante controversa pra mim. Meu primeiro pensamento é sempre comprar algo que ele precise no momento (um tênis, um sapato novo, uma blusa ou calça jeans, casacos para o frio), mas a maldita culpa sempre me invade ao passar na frente de uma loja de brinquedos. Sempre acho que ele ficaria mais feliz com o boneco incrível da vitrine que no final me faria gastar tudo o que tenho na carteira.

No entanto, o que mais me tortura ainda são as festa de aniversário. As incríveis comemorações em casas de festas, ou festanças em clubes, ou grandes churrascos sempre foram reduzidos, na vida do meu filho, às comemorações básicas em casa, com bolo, guaraná e brigadeiro, e uma a decoração feita com os próprios bonecos dele: o famoso “bolinho”. Ainda caio na tentação – e na besteira – de achar que isso realmente faria diferença na vida do Gael. As fotos sempre me provam o contrário: em todas as suas festas simples e com poucas coisas, ele está sempre sorrindo, muito feliz e brincando com as pessoas.

A verdade é que, em 3 anos, eu comprovei que o Gael muitas vezes não precisou de 90% das coisas que eu tanto almejava para ele e me sentia culpada por não dar. Tudo o que o comercial da tevê falava que meu filho precisaria para ser feliz, ele me provava com todos os seus sorrisos o contrário. Hoje vejo que a bolsa de bebê super equipada não faz a mínima diferença. Que o meu ambiente – chão, pelúcias e um bercinho/cercado simples doado por uma amiga – era pura estimulação, se assim eu desejasse e soubesse explorar. Demandava mais esforço? Claro. Mas não deixava de ser.

Não tenho vergonha de dizer que a maioria das coisas que Gael teve até hoje foi de segunda mão: seus brinquedos, roupas, berço, carrinho, sapatos, quase sempre eu obtinha através de doação, e hoje vejo que foi a melhor coisa: meu filho perderia tudo aquilo em tão pouco tempo que não valeria a pena comprar tudo. Seria dinheiro jogado fora.

Hoje, ainda é muito complicado lidar com a publicidade, a propaganda e o consumismo desenfreado sendo mãe de uma criança de três anos. Não só por mim, mas porque ele já está começando a sentir o apelo comercial. Ainda me sinto várias vezes, culpada, incapaz, menos ativa, menos mãe. É impressionante como uma dúzia de propagandas publicitárias consegue nos auto sabotar e fazer com que desmereçamos todo o nosso papel como mães para além do consumo.

Mas o pior ainda não é a culpa por não poder consumir o supérfluo. O pior é precisar do básico e não poder tê-lo.

O consumismo não só diz respeito ao consumo desenfreado de supérfluos, mas ao encarecimento e supervalorização do básico. As demandas de uma mãe solo, negra e pobre muitas vezes não condizem com a oferta do mercado (ou pelo menos, o nosso poder aquisitivo não é considerado). Um exemplo claro eu vivi assim que Gael nasceu: prematuro e com necessidade de ganho de peso, ele precisava do leite artificial como complemento do leite materno – e precisou até os oito meses. Cada lata durava, em média, uma semana. E a cada semana, eu precisava gastar R$50.

Eu, que não gastava R$50 por semana nem com a comida da casa, me via obrigada a gastar R$200 por mês, além das fraldas. As fraldas de pano poderiam ser uma alternativa sustentável e incrível, se eu não precisasse de praticidade e tempo para estudar e nem carecesse de economizar água na hora de lavar as roupas, porque a conta iria pesar.

Tive o Gael numa época em que muitas amigas minhas engravidaram também. E você não imagina a revolta que dá quando descobre que o filho das suas amigas com mais condições podiam tomar as mais de 20 vacinas para evitar alergias e fortalecer as vias respiratórias e o sistema imonológico que ele precisava e o SUS não oferece. A sensação de que a vida do seu bebê vale menos do que a do bebê cuja mãe pode pagar mais é angustiante. Fora a nutricionista do SUS, que é esperançosa quando lhe diz que deve ser oferecido a ele uma diversidade de frutas e legumes, mas que o seu dinheiro só dá para banana e maçã, batata e cenoura.

Esses e outros episódios me mostraram que o chicote do consumo arde nas costas das mães de classe média, mas sangra as nossas costas. Não podemos desejar nem o supérfluo, nem o básico, pois cada vez isso é mais retirado do nosso alcance e a pobreza vai se tornando cada vez mais relativa, uma vez que uma mãe que trabalha e ganha seu salário se acostuma a criar seu próprio filho com quase nada. Não se trata mais de trabalhar ou não, ganhar dinheiro ou não. Se trata de ganhar sempre mais e nunca ser o suficiente para suprir tudo.

Criar alternativas que fujam à sociedade do consumo é extremamente necessário, mas não posso dizer que é fácil. Quase sempre o lazer do Gael é a pracinha do lado de casa, quase sempre o brinquedo dele é o de R$1,99. A comida muitas vezes é ovo mexido e as cinco cores no prato em diversos momentos fica pra depois. Mas sigo resistindo. Acredito que mais importante que sentir, seja falar sobre o que se sente. O consumismo é uma ferida aberta na sociedade. A publicidade é a anestesia. Estamos tentando estimular a dor. Quando começar a doer para todos, talvez a anestesia não faça mais efeito e a gente consiga finalmente uma solução para essa ferida: a sutura do consumo consciente, de uma vez por todas.

(*) Karoline Miranda – Carioca, 23 anos, estudante universitária e mãe do Gael, de três. É militante feminista pelo Núcleo de Mulheres da História – UERJ, escritora e criadora do blog Uma Mãe Feminista e colaboradora da Plataforma Cientista Que Virou Mãe.

Nota: As imagens contidas neste post são retiradas da web e não foi possível determinar o autor. Se alguma imagem aqui for sua, por favor entre em contato para que eu possa creditá-la, ou, se você assim preferir, removê-la. 


Tags:  assédio comercial consumismo culpa maternidade pobreza sociedade de consumo

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