brinquedos e marketing / destaque_home / 27 de dezembro de 2017

Precisamos falar sobre unpacking

Texto especial para o Milc de Debora Regina Magalhães Diniz, Mariana Sá e Vanessa Anacleto*

Se você é mãe ou pai e tem um filho com acesso à internet certamente já viu no youtube vídeos de crianças desempacotando brinquedos. Essa prática chama-se unpacking (desembrulhar, em inglês). Os vlogueiros mirins não fazem outra coisa a não ser abrir pilhas e pilhas de brinquedos, fazendo cara de surpresa, enquanto outras crianças as assistem, hipnotizadas. Um exemplo é o caso de Ryan que começou a aparecer no youtube com três anos e já faturou 11 milhões de dólares com esse tipo de vídeo  (clique aqui).

Os vídeos de unpacking são fenômenos mundiais* e, por conta deles, alguns minibrinquedos colecionáveis como LOL ou Shopkins estão em alta.

Levantamos algumas questões:

1. Por que tantas crianças estão fissuradas por esse tipo de vídeo?
Porque abrir presentes e ver brinquedos é uma coisa que encanta, gera expectativa, surpresa. Porque criança se comunica muito bem com criança: a imersão possibilitada pela tela mimetiza uma intimidade, é como se estivesse ouvindo a opinião de um amigo sobre o brinquedo. E as crianças sonham em viver aquilo. Esses vídeos estão aos montes no Youtube Kids, ou seja, muitos pais ficam confiantes acreditando que estão protegendo seus filhos de vídeos inadequados, mas não percebem que as crianças continuam sendo alvo da publicidade, e de uma forma muito mais sutil e de difícil defesa.

2. Qual o problema desse fenômeno?
Pra começar, o problema maior é o fato de crianças desde muito novas, transformarem um até certo ponto desejado protagonismo infantil em trabalho. Sim, é trabalho infantil: mesmo que consista basicamente em abrir brinquedos, certamente não é tão simples ficar “surpreso” o tempo todo e tem pressão, muita pressão, seja dos pais, seja dos patrocinadores, seja do próprio público.

Além dos prejuízos em potencial às crianças que trabalham, as que assistem também são afetadas negativamente, já que ficaram ansiosas por conta do desejo de consumo despertado por tais vídeos.

É uma maneira que a indústria e a publicidade encontraram de oferecer seus produtos de criança para criança SEM MEDIAÇÃO de nada que pareça adulto (mães, pais, estado, regulamentos, ética), o que, além de cruel, é imoral e ilegal**.

E, se despertar desejos consumistas já é muito ruim para aqueles que tem possibilidade de consumo, para aqueles que não tem gera ainda mais frustração e raiva (e não, não adianta dizer que os pais devem simplesmente dizer não para as crianças, não é tão simples assim: mesmo com recuso, o não-consumo, o estrago psíquico já poder ter sido feito).

3. O que fazer?
Evite que as crianças assistam esse tipo de vídeo. Não há qualquer vantagem em consumir esse tipo de mídia. Se for impossível proibir definitivamente, assista junto e problematize cada take. Não é porque o vídeo é apresentado por crianças e está num canal infantil que ele é menos pernicioso.

Conversem com seus filhos sobre consumo consciente. Leve o debate para a comunidade, para os grupo de pais do whatsapp, para a reunião da escola.

E o mais importante: tire as crianças de frente das telas e deixe-as brincarem o máximo que conseguirem. Incentive-as a cultivarem verdadeiros amigos.

 

(*) O debate mundial sobre a ética, a moralidade e a legalidade do endereçamento de comunicação merdológica, somada à mudança nos hábitos de consumo de mídia por crianças, fez com que as estratégias de divulgação de produtos infantis, inclusive brinquedos, mudasse radicalmente. Adultos e crianças “aprenderam” a reconhecer o discurso publicitário tradicional e passaram a repudiá-lo, ao tempo que corporações anunciantes, marketeiros e publicitários “apredenderam” um novo caminho para que seus produtos não encalhassem nas lojas. 

(**) No Brasil, esse tipo de publicidade não é permitido nem pelo mercado, nem pelo estado. Esse tipo de apelo é considerado abusivo e é proibido pela própria entidade protetora da publicidade, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária – Conar, e é vedado também pelo Código de Defesa do Consumidor, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, e pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA.

Na imagem o apresentador do canal de youtube ‘Ryan ToysReview’ citado na matéria da Revista Exame encontrada em busca na web.

***
Debora é mãe de três, professora há 20 anos, doula e educadora perinatal desde 2004. Cursou Letras e Semiótica. É cofundadora do Milc – Movimento Infância Livre de Consumismo, uma das coordenadoras da Roda Bebedubem desde 2012 e membro da Rebrinc.  É ativista e implicante com a sociedade atual desde sempre.

Mariana é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É cofundadora do Milc e membro da Rebrinc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças.

Vanessa é mãe do Ernesto, blogueira e autora do livro Culpa de mãe. Por causa disso tudo, ajudou a fundar o Milc e luta por um futuro sem publicidade infantil. É autora do blog materno Mãe é Tudo Igual e membro da Rebrinc 


Tags:  #semtela #semtelas brincar brincar livre infância internet mídia proteção à criança proteção à infância regulamentação

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Movimento Infância Livre de Consumismo




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4 Comments

Dec 28, 2017

Adorei o post. Difícil ver nas rodas em que frequento esss assunto. Muito obrigada!


Dec 29, 2017

Minha filha sempre gostou de colecionar brinquedos. Após várias decepções e muito dinheiro mal empregado desisti de ceder à esses caprichos. Isso não traz felicidade e nem nos torna país melhores.
Agora que ela cresceu e entende melhor conversamos sobre essa LOL e até ela parece ter noção que é um absurdo uma coisa tão insignificante possa ter um valor tão alto.
Nunca gostei desses vídeos, são vídeos de crianças mimadas e na maioria das vezes vejo que os pais querem aparecer mais que as próprias crianças. Tudo errado!


Dec 30, 2017

Matéria excelente!!! Como Mãe vejo o qto nós precisamos aprender para ensinar na visão correta sobre todo esse abuso infantil q hoje vemos nos You tuber mirins. O pior é q os papéis se invertem, pais projetando canais para seus próprios filhos, como se vende um produto mesmo, assim os filhos são expostos liberalmente sem nenhuma avaliação de o q estão gerando na mente, e vida destes pequenos. Certamente terão dificuldades de gratidão, até pq o consumismo causa muita insatisfação, pq qto mais se tem mais se quer, e qto mais se quer mais triste se sente, e qto mais triste se sente mais insatisfeitos se tornam.
Infelizmente uma realidade q tem muita força, pois conta com o apoio e desenvolvimento dos próprios pais.


Dec 30, 2017

Realmente é preocupante.
Todo cuidado é pouco para não perdermos nossos filhos para mundo.
Leiam a biblia que lá encontrará as respostas para nossos questinamentos sobre tudo que vem acontecendo em nosso mundo e acreditem que só tem um caminho a seguir.



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