denúncias e sentenças / 21 de agosto de 2018

O dia do lanche infeliz

Texto especial para o Milc de Vanessa Anacleto*

“Nós vivemos num mundo cínico.” A primeira coisa que me lembro quando escrevo sobre esses temas é a frase dita por Tom Cruise no filme Jerry Maguire. Vivemos num mundo muito, muito cínico e vem aí mais uma campanha do dia feliz da mais famosa rede de fast food. Tocando o coração das pessoas com um chamado à doação para quem precisa (crianças com câncer), a rede de quem ama muito tudo isso aproveita um único dia para limpar sua imagem e continuar vendendo alimentos nocivos à saúde pelo resto do ano.

Quem, em sã consciência, negaria um pedido de doação para crianças com câncer? Câncer, uma doença que até bem pouco tempo as pessoas tinham até medo de pronunciar o nome, uma doença cuja cura sonhamos diariamente e a qual rezamos para não desenvolver. Ninguém deveria ter câncer, especialmente crianças. Por que não doar? Por que não ajudar e enquanto agradecemos por estarmos saudáveis e bem? Enquanto pensamos sobre isso entra a lanchonete vendendo, junto com o combo, a ideia de que se preocupa com as crianças com câncer. Não, eu passo, eu não vou doar no dia feliz. Este mundo é muito cínico.

A relação entre os alimentos ultraprocessados (aqueles que estão no lanche do dia feliz) e câncer está descrito em diversas pesquisas científicas (dê um Google com as palavras ultraprocessados, fast food, câncer e veja por si mesmo).  Se tiver um tempo, assista ao documentário What the health. Aqui você acha completo e dublado: https://www.youtube.com/watch?v=NoYINMgImGs. Se fast food é algo que não deveríamos comer pois aumenta os riscos de câncer, por que seria interessante comer no dia de deixar o palhaço feliz? Não se trata de um contrassenso lutar contra algo que nos mata, alimentando-o. “Ah, mas é só um dia” diz o erro n. 1 “Ah, mas é por uma boa causa” diz o erro n. 2

Resposta ao erro n. 1: não é só um dia. O que o restaurante do palhaço quer de você é FIDELIZAÇÃO. Ele quer que você coma lá, de preferência, todos os dias. Você pode  nem gostar muito da comida agora (o gosto é de isopor), mas é algo diferente pra variar. Você vai lá uma vez e a experiência é boa, o preço é bem menor que um restaurante com comida decente, é dia de festa. A possibilidade de você voltar nos finais de semana seguintes e passar a ser um cliente assíduo é grande. Se bobear e virar freguês, no próximo dia feliz encontrará o palhaço com uns quilos a mais já desenvolvendo alguma doença crônica: hipertensão, colesterol alto, diabetes, à escolher. Basta fazer desta alimentação um hábito e verás. É um mundo cínico.

Resposta ao erro n. 2: não é por uma boa causa. Ou melhor, até é, mas. Todo ano a ação feliz doa, num único dia, alguns milhões para a caridade. Por algum motivo nós precisamos desta chamada para doar. Precisamos ir ao um restaurante que alimenta doenças para ajudar quem está doente. É um mundo cínico. Você quer ajudar as crianças, isso é muito mais importante que o lanche. Então, ajude. Mas, não precisa subir suas taxas por isso. Existem inúmeras casas que atendem crianças com câncer que recebem doação em dinheiro ou bens. Acessando o site da campanha você por doar agora https://institutoronald.org.br/doacao/. É possível doar sem receber sódio, gordura e açúcar em troca. Doar só pela causa, não pelo restaurante.

Este ano há uma novidade no dia feliz. O Instituto Ayrton Senna também receberá doações. Trata-se de outra boa causa: a educação de crianças. Depois da saúde não há nada que nos preocupe tanto quanto a educação das crianças e, olhe que coisa boa, o Instituto Ayrton Senna recebe doações que não passam pela ingestão de fast food também http://institutoayrtonsenna.org.br/pt-br/envolva-se.html#doe-pela-educacao-doar.

Muitas vezes ações como esta, por boas causas sociais que servem para alavancar uma determinada marca, nos convencem justamente pela nossa boa vontade em ajudar. Estamos vivendo neste mundo insano (e cínico) e o fato de ainda nos preocuparmos com o outro demonstra que ainda podemos ser chamados seres humanos. Caímos muitas vezes nessas ciladas e nem sempre caímos sozinhos.

Vale dizer ainda: Recebemos denúncias este ano de escolas que oferecem a venda de tickets do dia feliz para as famílias. Incorrendo em erro grave, posto que a escola tem o dever de promover educação também para a saúde e alimentação, as escolas entram na corrente do fast food que adoece. Para essas escolas, o Milc escreveu, em parceria com a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, uma carta modelo. A carta, que pode ser usada para resposta caso a escola de seu filho esteja apoiando o evento, traz uma lista de entidades que atendem crianças com câncer e aceitam doações http://alimentacaosaudavel.org.br/carta-modelo-sobre-parcerias-de-escolas-com-a-campanha-mcdia-feliz/.

Alguns exemplos de instituições que cuidam de crianças com câncer e recebem doações coletadas pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável:

 

(*) Vanessa é mãe do Ernesto, blogueira e autora do livro Culpa de mãe. Por causa disso tudo, ajudou a fundar o Milc e luta por um futuro sem publicidade infantil. É autora do blog materno Mãe é Tudo Igual e membro da Rebrinc


Tags:  fidelização marketing marketing abusivo marketing de alimentos publicidade de alimentos

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