maternidade / 1 de outubro de 2014

Desventuras na loja de departamentos

Texto especial para o Milc de Vanessa Anacleto*

Eu não deveria ter entrado na loja. Deveria ter pensado melhor antes de comprar as meias. Pensando bem, eu não deveria ter saído da cama naquele dia. Mas, eu saí da cama, eu queria as meias.  E então, aconteceu.

Loja de departamentos é território perigoso. São muitos os produtos expostos em locais estratégicos, muitas tentações. Você entra para comprar uma coisa específica, algo de que realmente precisa e sai com 5 ou 6 itens diferentes que estão em promoção e você nem precisa, compra por impulso. Não é difícil acontecer de você não encontrar o que queria na loja e sair com os mesmos 5 ou 6 itens.

Quando se está acompanhado de uma criança a desventura na loja de departamentos é quase certa. Foi o meu caso. Depois de encontrar as meias e perder um tempo para conferir cada corredor de brinquedos, dizendo ‘não’ meia dúzia de vezes e insistindo que a ida à loja é só para comprar meias, chegamos ao caixa.

Não me condene por levar criança à loja. Nem sempre mamãe tem com quem deixar a criança para poder comprar meias. Eis a realidade da maternidade. Crianças eventualmente precisam sair com as mães para comprar meias, potes plásticos ou sabonetes.

Como eu contava, chegamos à fila do caixa, o lugar onde os problemas deveriam ter fim e o meu efetivamente começou. Depois de todo o périplo – eu precisava usar esta palavra, não há outra melhor – chegamos à fila do caixa e acontece que há muito o caixa deixou de ser apenas o lugar onde se calcula o quanto se deve à loja para levar a sacolinha.

Para chegar ao caixa nos tempos atuais é preciso passar por uma espécie de curral em um novo périplo (oba!) O curral é forrado de mercadorias á altura dos olhos das crianças. São todos o tipo de guloseimas, balas, doces e chocolates. Ela pede um. ‘Só um, mamãe’ Mamãe deixa pensando ‘É só um e as meias. Tudo bem, pode escolher.’

Enquanto a fila anda minha filha olha tudo encantada. Parece perdida. Quase na boca do caixa – o fim do curral- ela finalmente diz: ‘ Eu quero este’ e pega o pacotinho vermelho e amarelo com frutinhas desenhadas e começa e ler com a desenvoltura dos seus 6 anos :

— Pre-ser-va…

Minha ficha caí e eu rapidamente tiro o pacotinho de sua mão e tento desconversar:

— Leve uma outra coisa, este aqui é para adulto.

— Doce só para adulto, mãe. Ele tem muito corante?

— Não filha, não é doce.

— É brinquedo?

— Mais ou menos.

— Faz mal? As pessoas não devem usar?

— Não, filha as pessoas devem usar, mas não crianças.

— Um brinquedo só para adultos e eles devem usar mas as crianças não, mas pra que serve, então?

— O que?!

Já sinto faltar o chão sob os meus pés diante daqueles olhinhos curiosos e vou tentando ganhar tempo

— O preser… como é o nome daquilo?

Plim, o caixa chama. Eu agradeço e pego correndo a bala de goma. Tem corantes, eu não deveria. Mas, foi o que me salvou.

 

Currais como estes que enfrentamos diariamente foram idealizados para estimular a compra por impulso. Como os caixas demoram muito a atender, você vai se entretendo na fila e é preciso muita força de vontade para não ceder à compra desnecessária. A ânsia do lojista em bater metas e aumentar vendas conjugado com o total despreparo de quem organiza o curral criam situações como esta que seriam trágicas se não fossem cômicas. Definitivamente os preservativos em caixas coloridas não deveriam ficar com a bala de goma. Por isso, julgando o corante um mal maior, se acontecer com você leve as camisinhas e faça balões!

Npta da editora: esta imagem fofa é de um anúncio de camisinha encontrada num guest post de Lola, Escreva, Lola sobre como lidar com este assunto com as crianças.

(*) Esta crônica  foi inspirada no relato deixado pela leitora Neca na nossa caixa postal.

(*)Vanessa Anacleto é mãe do Ernesto, de 7 anos,  co-fundadora do Milc, blogueira no Mãe é tudo igual e autora do livro Culpa de Mãe 

 


Tags:  diálogo educação embalagens humor marketing

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Mariana Sá




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