Uma camiseta, uma criança e a infância ignorada

Texto especial para o Milc de Mariana Sá*

Ontem recebemos muitas mensagens e fomos marcadas em várias postagens sobre uma linha infantil camisetas totalmente inadequada para crianças. Nestes casos, já aprendemos que quando a imagem de uma criança – ou o prejuízo a várias – está em jogo, calma e cuidado devem estar acima do pioneirismo do posicionamento e da divulgação.

A indignação já se espalhou e a explicação já foi dada e no episódio, mais uma vez, fica óbvia a ausência de prioridade e cuidado com a criança: sejam as crianças que vestirão a camiseta sem nem saber ler, ou com a modelo mirim em cuja imagem foi aplicada a frase bizarra.

Falta de cuidado da manufatura e da equipe de comunicação, que deve fazer este tipo de procedimento no automático (copia e cola), provavelmente sem nunca ter pensado sobre infância: para eles criança é apenas mais um nicho de mercado, um alvo a ser atingido, para aumentar sua margem de lucro.

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Explicação da empresa

Será que, se a pessoa tirada não sei de onde para fazer as aplicações das estampas nas mais diversas modelos tivesse algum dia pensando sobre infância fora da lógica do mercado, não acharia estranho aquelas frases sob o rosto de crianças? Será que, se a empresa tivesse algum cuidado com a infância, não haveria pelo menos um funcionário que apontasse o erro antes dele chegar no ponto que chegou?

Falta cuidado também da mídia tradicional – ou mesmo da alternativa mais progressista e das páginas maternos – em relação à infância: no afã de apontar o dedo para o erro grotesco cometido pelo empresário celebridade e tentar tirar em casquinha em forma de likes, shares e comments, nem se preocuparam em cuidar da identidade das crianças.

Likes, shares e comments dados por quem preferiu dar seu ataque de pelanca ao procurar uma imagem em que os rostos estivessem preservados.

Mais uma vez, uma criança será alvo de estigmas por algum tempo: e desta vez sem ter como culpar a mãe (nunca o pai, sempre a mãe!) por ter “permitido que a filha vestisse a camisa”. Pelo menos, desta vez a responsabilidade tem seu latifundiário: a empresa que aplicou a estampa sobre uma camiseta em branco sem o conhecimento da família.

Pelo menos aqui ficou muito claro que a culpa não é da família como sempre nos fazem acreditar, a responsabilidade é da empresa, da agência de comunicação e é da mídia, do sistema e não do indivíduo, como sempre advogamos aqui.

PS1: Vale notar que não é apenas uma camiseta, são várias com meninos e meninas, mas, logicamente, a imagem mais exposta foi a da menina.

PS2: A empresa tem a chance e o poder de passar uma mensagem bacana sobre o mundo nas suas camisetas, mas basta um passeio na vitrine para perceber que que escolheram dar holofote a aspectos questionáveis da nossa sociedade ao seguir a manada e oferecer frases de culto ao álcool e ao desrespeito do corpo alheio.

PS3: Se eu fosse a mãe destas crianças estaria agora em reunião com um super advogado para processar geral: empresa e cada jornalão que colocou a cara de minha filha no ar sem minha autorização.

Imagem da web.
(*) Mariana Sá é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É cofundadora do Milc e membro da Rebrinc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças.  


Tags:  denúncia marketing marketing infantil proteção à criança

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Mariana Sá




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2 Comments

Mar 04, 2015

Mariana

estou aqui aplaudindo em pé seu texto
ai me fez pensar, além do fato de terem usado a imagem de uma criança com um texto tão errado não tira o erro do texto.
Será que deu pra entender? tipo: tá! não é pra camiseta infantil (dããã) mas se aplicada em uma feminina também vai dar fuá

entãoooooooo

não quero nem pensar no pertubardo(a) que criou a estampa, kisá o iluminado que aplicou em uma foto com modelos infantis!


Mar 04, 2015

Só virou polêmica por causa da menina.
Meninos têm direito a tudo.



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