campanhas / publicidade de alimentos / 19 de outubro de 2020

Tributo Saudável: por mais impostos sobre bebidas açucaradas

*Texto especial para o Milc de Vanessa Anacleto

O que essa criança vai comer? O que ela vai beber? Preocupações como essas, tão cotidianas quanto vitais, rondam os pensamentos de todas as mães em todos os lugares, desde que o Mundo é Mundo. Precisamos alimentar nossas crias. E, para aproveitar os ditos populares Saco vazio não pára em pé. Sempre que uma criança é alimentada, sempre que mata a sede, algum adulto precisou pensar sobre o modo como aconteceria. 

Antigamente, era água que hidratava. Quem tinha acesso a frutas, matava a sede com elas também. Fomos vivendo bem assim, alimentando os filhos com nosso próprio leite e com folhas, frutas, água, carnes e grãos até que no século 19 um farmacêutico¹ resolveu gaseificar um xarope de extrato de folhas e açúcar para ajudar na digestão. 

E de uma ideia para medicamento nasceu o refrigerante que, em  pouco tempo se popularizou. Por mais que a propaganda insista em dizer que é muito bom, a base das bebidas açucaradas é só açúcar mesmo. Açúcar líquido. Muito açúcar líquido. Uma lata de refrigerante de 355 ml contém, em média, o equivalente a 7 colheres e meia de chá de açúcar (37g)². Ninguém coloca tanto açúcar numa bebida, só a indústria. Aos poucos, fomos sendo incentivados e condicionados a beber açúcar líquido em grandes quantidades para matar a sede ao longo do dia e durante as refeições. 

O problema é que água açucarada, consumida todo dia, toda hora não faz bem. Conjugada a uma alimentação pobre em comida in natura e rica em produtos industrializados, pior ainda . E como os refrigerantes não enganam mais ninguém, eis que a indústria nos apareceu com os maravilhosos sucos industrializados. Se você não quer mais açúcar do refrigerante, eles oferecem o açúcar do suco de fruta da indústria. Para as mães eles colocam numa caixa bonita, colorida, com palavras como carinho, nutrição e vitaminas. E dá certo.

O que a indústria nunca diz é que o que vende é uma cópia mal feita de um suco natural de fruta. Para isso, eles adicionam água e muito açúcar a uma quantidade mínima de polpa de fruta (que já é doce). Quanto mais açúcar e menos fruta numa garrafinha de suco industrializado, mais barata ela é. Com produto com embalagem bonita e um empurrãozinho da publicidade começamos a acreditar que é muito melhor beber água misturada com açúcar, sódio e aroma de fruta do que comer a fruta ou até beber um copo de água geladinha. 

Foi também graças à publicidade que nós, mães, fomos convencidas de que descascar ou simplesmente morder uma fruta em público não é muito prático e que o melhor é comprar uma embalagem longa vida e furar com um canudinho para beber água açucarada para depois jogar a embalagem fora. A indústria avisa que dá pra reciclar o lixo e isso é bom pra natureza. Bom pra natureza mesmo é reduzir o lixo. 

No Brasil estima-se que uma a cada três crianças entre 5 e 9 anos tem sobrepeso ou obesidade, condição que pode levar a doenças crônicas que alteram nossa qualidade de vida. A obesidade pode estar ligada a fatores hormonais, genéticos, que não temos como prever; mas também ao estilo de vida e é aí que entram os hábitos alimentares. Incentivada pela publicidade e também por isenção tributária, refrigerantes e sucos industrializados derramam açúcar líquido em nossas bocas diariamente nos deixando doentes.E cá estamos pagando para adoecer. O que sobra para as mães é a preocupação com os riscos à saúde decorrentes da ingestão do açúcar líquido colocado à disposição no mercado com preço baixo. 

Então, não achamos demais pedir ao Governo a taxação das bebidas açucaradas. Sim, nossa carga tributária é enorme. Pagamos todos os impostos esperando que sejam devolvidos em forma de serviços e garantia de direitos. No caso das bebidas açucaradas, nosso dinheiro (3,6 Bilhões de reais anuais³) incentiva o nosso adoecimento. Não é pedir demais que quando a indústria colocar o produto a venda arque com tributos que poderão ser destinados a prevenir e tratar doenças crônicas causadas pelo seu consumo. Quando os cigarros sofreram aumento de impostos no Brasil,  aconteceu uma diminuição de 36% na prevalência de fumantes entre 2006 a 20174. Outros países já aumentaram os tributos dos refrigerantes como México, Inglaterra, França, Noruega, Finlândia, Portugal e Chile. No México, o aumento de apenas 10% do imposto, em 2016, levou a uma queda de 7,6% do consumo em dois anos5

A campanha Tributo Saudável, da ACT – Promoção da Saúde e da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável está levantando a discussão na sociedade e pressionando aqueles que detém o poder de decisão para rever a política tributária aplicada às bebidas açucaradas. Nunca estivemos tão cientes da importância dos investimentos em saúde como neste momento de pandemia.

Por isso, apoiamos a campanha e te convidamos a participar, conhecendo, compartilhando, conversando com seus familiares e amigos sobre a importância de hábitos saudáveis e de uma maior justiça tributária. Não podemos continuar pagando para adoecer. Clique aqui, saiba mais, assine,  compartilhe a petição e nos ajude a pressionar.   

Referências

*1 história do refrigerante

*2 Coca Cola Brasil 

*3 Receita Federal 

*4 https://www.tributosaudavel.org.br/

*5 Global Food Research Program

*Vanessa Anacleto é co-fundadora do Milc.


Tags:  #alimentaçãoinfantil #alimentaçãosaudável #bebidasaçucaradas #cantinas #obesidade #refrigerantes #refrinaescola #tributosauável

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