maternidade / 23 de março de 2015

Por que não aguentamos mais tantos manuais de instrução

Texto especial para o Milc de Debora Regina Diniz, Mariana Sá, Vanessa Anacleto*

O Milc completa 3 anos neste mês. A nossa motivação em criar esse movimento de mães e pais foi mostrar nosso ponto de vista, mostrar que estamos, sim, atentos, mas nos sentimos bombardeados constantemente e estamos numa disputa desleal com a publicidade infantil e todas as questões relativas ao consumismo. Deveríamos estar comemorando mas é frustrante perceber que, por mais que lutemos, ainda permanece (em colunas, matérias, posts e comentários no blog e no facebook) a ideia de que, em geral, os pais (para não dizer apenas as MÃES!) são seres inaptos para cuidarem dos próprios filhos,  que são “fracos” e, por isso, que precisam de manuais de “como fazer”.  Não é incomum vermos proferida a famigerada frase “onde está a mãe desta criança?” como se a raiz de todos os males fosse a ausência ou omissão materna.

É por conta disso que, ainda hoje, as mães tomam apenas para si a culpa pelo consumismo dos filhos (entre as outras tantas culpas). É por conta desta reprodução sem fim que uma mãe aponta o dedo para a conduta da outra e diz que sabe o que fazer com o próprio filho e que é bobagem pedir ao estado que nos proteja a todos – mães e filhos. É por conta deste pensamento atrasado que ainda hoje muitos nos chamam de chatas e nos mandam lavar pratos e cuidar da nossa vida ao invés de demandar a devida regulação do comércio. Percebemos que nos tratam de maneira infantilizada, desemponderada, como se fôssemos “crianças cuidando de crianças” e, talvez por isso, há uma grande produção e divulgação de manuais, listas e regras para que as “mãezinhas” aprendam a cuidar dos filhos.

Não estamos dizendo que dicas não ajudam, que não há boa intenção, nem que somos contra, mas fica muito claro que a produção delas e o grande número de compartilhamentos  não leva em consideração que por trás de tantos “erros maternos” há grandes interesses de grandes corporações.  Aliás, este é o ponto que as grandes empresas teimam em bater, tirando a responsabilidade de si e jogando para os pais: “a culpa é deles que não sabem educar!!!”.

Como as listas estão em alta, faremos aqui uma compilação do que achamos de listas contendo regras de conduta para exercício da maternidade:

1. Normalmente as dicas são individualistas: normalmente recomendam a resolução de problemas dentro do lar, sugestões de intervenções caseiras e individuais que não resolvem o problema do grupo. Poucas listas convocam as mães e os pais para se juntarem em coletivos ou dão o caminho das pedras para o exercício da cidadania.  As listas de dicas raramente oferecem caminhos para criarmos uma teia de relacionamentos que promovem grandes mudanças.

2. Vira um fardo nas costas do indivíduo: ações individuais para soluções que precisam ser coletivas requerem sempre muita segurança e grande quantidade de energia para sustentar-se fora da maré. Em grupo, isso pode ser mais leve. Manter-se sozinho “contra o mundo” é insustentável por muito tempo.

3. Infantiliza os pais: quando lemos algo como “aprenda a dizer ‘não'” e “não ceda às vontades das crianças”, entendemos que não sabemos fazer nada disso. Assumimos que sempre que dizemos “sim” e que cedemos estamos errando. Com a repetição, é difícil não acreditar que somos crianças cuidando de crianças. Isso é muito bom para o mercado editorial que publica sem parar os tais manuais de parentalidade.

4. Vilaniza as crianças: quando lemos “aprenda a lidar com a manipulação dos pequenos”, corremos o risco de reproduzir a ideia de que as crianças são pequenas vilãs e que devemos nos proteger delas. E isso é uma total inversão de vulnerabilidades. Nós devemos proteger as crianças e não “nos proteger das crianças”.

5. Não geram grandes mudanças: por serem ações individuais dificilmente promovem mudanças, para terem efeito elas precisam estar conectadas politicamente entre si. É óbvio que só com discurso não tem mudança, mas sem ele a mudança é descolada do todo.

Afinal o que as mães e os pais procuram? Suporte e informação para atravessar esses tempos.

Há uma frase que diz que “é preciso uma vila para criar uma criança”, enquanto todos não trabalharmos juntos, em igualdade e respeito, enquanto a infância não for profundamente respeitada, enquanto todos nós não assumirmos integralmente nossos papéis sociais sem hierarquias ou jogos de empurra-empurra, enfraquecemos nossa batalha frente às grandes corporações. Falemos para as mães e para os pais, mas também aos professores e educadores, aos eempresários e profissionais de comunicação. Vamos precisar de todo mundo!

 

(*) Debora é mãe de três, cofundadora do Milc, cursou Letras e Semiótica. É doula e educadora perinatal há 10 anos. Atualmente vive no Vale do Paraíba e é uma das coordenadoras da Roda Bebedubem. É ativista e implicante com a sociedade atual desde sempre. Co-fundadora do Milc e membro da Rebrinc

Mariana é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É cofundadora do Milc e membro da Rebrinc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças.

Vanessa é mãe do Ernesto, blogueira e autora do livro Culpa de mãe. Por causa disso tudo, ajudou a fundar o Milc e luta por um futuro sem publicidade infantil. É autora do blog materno maeetudoigual.com , conselheira escolar e membro da Rebrinc



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