criança e mídia / 24 de outubro de 2012

Os perigos que nos rondam

Texto de Daniele Brito*

Lembro-me tão bem quando, nos idos dos anos 90, meu pai chegou todo felizinho dizendo que chegara a nossa cidade uma nova forma de ver TV. Pagaríamos mensalmente pra ter uma programação de qualidade e finalmente estaríamos livres das indesejadas propagandas. Meus amigos, se existe uma pessoa que desde sempre combate a ilusão criada por publicitários, esse alguém é a minha mãe.

Ah, sim, antigamente a TV a cabo não veiculava comerciais. Não sei ao certo quando isso mudou, mas já repararam como só os canais infantis são bombardeados com publicidade? Antes queriam vender brinquedos, roupas, sapatos, mas hoje querem também vender produtos de limpeza, absorventes etc. Por que será?

A publicidade fala diretamente às crianças, que são responsáveis pela promoção do consumo dentro de casa. Isso passou a me assustar quando, passeando pelos corredores do supermercado, meu filho de 4 anos apontava para os produtos e dizia não só o nome da marca, mas cantava até o jingle!

Todos nós que somos impactados pelas mídias de massa, somos estimulados desde muito novos a consumir de forma inconsequente, de forma desenfreada. Sem questionar, sem nos importarmos. Porque muitas vezes eles não vendem apenas um produto, eles te prometem mais que a alegria da posse, mas a sua inscrição e sua existência na sociedade. Quanto mais você consumir, mais será aceito como consumidor. Isso te diferencia dos demais.

Qual a importância das marcas na construção de quem somos? Quantos logotipos, slogans e informações de diferentes marcas absorvemos antes mesmo de começarmos a falar?

Marcas de nascença. Fonte: http://www.toxel.com/inspiration/2010/10/11/branded-babies/

Marcas de nascença. Fonte: http://www.toxel.com/inspiration/2010/10/11/branded-babies/

Ataque ao vulnerável

De posse da informação de que a publicidade é, sim, dirigida ao público infantil e que 80% das compras domésticas passam diretamente pela vontade da criança, vem uma dúvida: estariam elas preparadas para a interpretação crítica dos apelos que constantemente lhes são dirigidos?

Aliás, criança tem capacidade crítica para alguma coisa? Ou depende da intervenção dos pais para orientá-la? Mas quando os pais trabalham fora em tempo integral, por necessidade, quem fica com as crianças? Quando os pais não podem ou não querem ou não gostam de conversar com seus filhos, a publicidade se mostra disponível em todos os momentos do dia, o tempo inteiro!

Acaba que os pais, culpados, sentem que devem compensar sua ausência com objetos materiais. Como não são bobos nem nada, os publicitários usam essa culpa para induzi-los ao consumo. Sem querer negar nada aos filhos, acabam endividados. Isso gera estresse familiar.

É justo esse bombardeio com quem não sabe se defender?

[CONTINUA]

*Daniele tem 32 anos e é estudante de Direito, mãe da Bia, de 9 anos, e do Otto, de 4, mora em Florianópolis/ SC e é autora do blog Balzaca Materna

 

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Tags:  #publicidadeinfantil Daniele Brito infância proteção à infância

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Mariana Sá




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0 Comment

Oct 26, 2012

Dani como sempre arrasando, adorei!


Oct 26, 2012

[…] a primeira parte deste texto de Daniele […]


Nov 23, 2012

Dra. Daniele, discordo um pouco do seu ponto de vista.

Primeiro, porque toda a publicidade do mundo não é dirigida apenas ao público infantil. Fosse assim, não existiriam comerciais de TV, de rádio e nem anúncios inteligentes e/ou com textos falando das características técnicas de um carro, por exemplo, concorda?

Segundo, dizer que “80% das compras domésticas passam diretamente pela vontade da criança” é diferente de dizer “as crianças influenciam 80% das compras domésticas.”, que é o que, NA VERDADE, diz o estudo do instituto Interscience (que, por falha sua, esqueceu de citar, em seu artigo). Durante 1 ano inteiro eu tentei influenciar a compra de um carrinho de controle-remoto junto aos meus pais e não consegui. Logo… O grau de influencia varia bastante de família pra família.

Na minha opinião, seus questionamentos são primários e têm respostas relativamente simples:

1. “…estariam elas preparadas para a interpretação crítica dos apelos que constantemente lhes são dirigidos?”
RESPOSTA: NINGUÉM ESTÁ! ninguém ‘interpreta criticamente’ a porra de um comercial… As pessoas mal prestam atenção, zapeiam, ficam no Facebook, escrevem em seus blogs ridículos durante o intervalo de novelas igualmente ridículas.

2. “Aliás, criança tem capacidade crítica para alguma coisa?”
RESPOSTA: CLARO QUE NÃO, Dra. Daniele!

3. “Ou depende da intervenção dos pais para orientá-la?”
RESPOSTA: CLARO QUE SIM, Dra. Daniele! É o nosso papel enquanto pais!

4. “Quando os pais não podem ou não querem ou não gostam de conversar com seus filhos, a publicidade se mostra disponível em todos os momentos do dia, o tempo inteiro!”
RESPOSTA: Assim como drogas, café, panelas com cabo pro lado de fora do fogão, sexo sem camisinha, sertanejo universitário, novelas, funk, jogos do Inter… Como protegê-los disso? Envolvendo-os numa bolha? Claro que não. mas com educação, disciplina, dizer muitos “nãos”, orientação, conversas…

Seu texto deveria conclamar a todos os pais deixarem de culpar os publicitários pela sua própria fraqueza de propósito, bundamolismo, descompromisso, preguiça e relaxamento na educação de seus herdeiros. Não adianta proibir propaganda, como a Dra. sugere na parte 3 do seu texto… Afinal, não existe propaganda de maconha, mas mesmo assim, só tem mais e mais gente consumindo! Deveria é convidar estes mesmos pais a participarem, educarem e a imporem limites a seus filhos, formando homens e mulheres com autoestima, conscientes do seu lugar/direitos/deveres numa sociedade CAPITALISTA, onde se compra e vende quase tudo pra quase todo mundo.

Ou mude-se para um país comunista.



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