criança e mídia / 26 de outubro de 2012

Os perigos que nos rondam, parte 2

Escolha da escola x Consumismo x Erotização precoce

[veja a primeira parte deste texto de Daniele Brito*]

Além do estímulo ao consumo na televisão, não podemos descartar a influência dos pares e a maneira com a qual a escola lida com a publicidade em seu espaço.

Tive várias péssimas experiências nesses quase 10 anos como mãe. Já presenciei uma garotinha dizer pra outra que não aceitasse minha filha, porque além de ela não conhecer os brinquedos, ainda não os possuía. Tinham 2,5 anos e uma pressa latente em julgar pelo ter.

Há uns dois anos, minha filha, influenciada pelas amigas, não queria usar o uniforme que havia lhe comprado. Queria um mais justo, que se amoldasse ao corpo. Queria se parecer com a amiguinha que ia parecendo um arremedo: de sombra, de delineador, de batom e laquê pra segurar um coque no alto da cabeça. Também queria unhas pintadas e brincos grandes que balançassem ao menor movimento. A mochila não podia ser qualquer uma, tampouco os cadernos. Essas mesmas meninas não queriam brincar ou correr pra não correrem o risco de se “desmontar”.

Pequenas Barbies num universo de aprendizagem. Tinham 7 anos.

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É inegável a influência dos pares. Para serem aceitas, as crianças sentem necessidade de consumir. Isso acirra uma competição que não é nada saudável, ainda mais num ambiente escolar. Por mais que eu estivesse ao lado, explicando, dando suporte emocional, o meio em que ela vivia a fazia parecer um alienígena.

Com a mudança da escola, notamos um melhora de 100%. O que me leva a confirmar: devemos escolher a escola que melhor se adeque a nossa forma de ver o mundo e de travar relações com o meio e com as pessoas. O grupo social no qual a criança está inserida influencia muito.

Embasada na ecopedagogia, essa escola valoriza o afeto, a relação de companheirismo, o feito a mão. Neste ambiente, meus filhos se sentiram acolhidos e menos ansiosos por consumir.

Lá se usa papel reciclado; há promoção de troca de uniformes duas vezes por ano, onde ficam dispostos em araras e cada pai vai lá e escolhe aquele que lhe aprouver; nas festas de aniversário, não é incentivada a troca de presentes, mas um convite à turma para que juntos construam um que possa ser oferecido ao amigo; nas festas da escola, cada família fica responsável por levar seus copos, pois a produção de lixo com descartáveis não é aceita; há também oficinas de tie-dye para dar cara nova as desgastadas blusas do uniforme; as crianças escolhem na horta o que querem levar para casa…

Nesse ambiente que convida o aluno a ser criança, a poupar, a reutilizar, a se sujar, a subir em árvores, a colher frutas do pé, a Bia nunca mais lembrou da maquiagem e das roupas coladas. E aprendeu que ninguém deve depender de objetos para ser quem é.

[CONTINUA]

*Daniele tem 32 anos e é estudante de Direito, mãe da Bia, de 9 anos, e do Otto, de 4, mora em Florianópolis/ SC e é autora do blog Balzaca Materna

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Tags:  consumismo consumismo infantil Daniele Brito infância proteção à infância

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Mariana Sá




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