publicidade de alimentos / 28 de maio de 2013

Doces e mais doces

Texto especial para o Milc de Renata Monteiro*

“Filho: Mãe, por que eu não posso fazer curso de inglês?
Mãe: Por que você quer fazer curso de inglês?
Filho: Porque o meu amigo faz e ele ganha bala.”

É assim que se constrói uma relação de prazer com alimento não saudável. As pessoas não fazem isso por mal. Crescemos assim. Doce e chocolate, além de toda a relação metabólica com hormônios do prazer, foram associados a recompensas. Alimentos saudáveis, ao contrário, a castigo e punição. Se consumíamos abobrinha ou quiabo no almoço o que tínhamos como prêmio? Alguém adivinha? Ganhávamos a sobremesa… Mais doce e chocolate.

Precisamos urgentemente aprender com os erros dos nossos pais e principalmente com a indústria, que já usa há muito tempo isso pra vender as bugigangas não saudáveis. Criança come algo porque gosta e tem prazer. Come porque traz sensação boa. Porque o amigo valoriza. Não porque sabe ou deixa de saber que é saudável (conhecimento não faz muita diferença nem para o adulto, quanto mais para a criança). Se queremos que consumam coisas saudáveis temos que mudar a relação que toda essa geração mantém com os alimentos saudáveis: precisam GOSTAR deles, têm que manter a preferência por eles quando vão pro coletivo, pra escola.

Por isso a luta pela regulação da publicidade de alimentos. Essa publicidade é desleal. Fantasia e usa do universo infantil para vender alimento que a palatabilidade facilita, um produto que engana e engorda. No dia em que não tivermos mais publicidade de alimento que voa e faz voar ou daquele que a criança é levada a crer que, se consumido, ela vai ser aceita e fazer parte do grupo da escola, aí, sim, temos chance de que continuem gostando das coisas que nós os ensinamos a gostar.

(*) Renata Monteiro é mãe de Diogo (10 anos), Lucca (9 anos) e Sofia (5 anos). Nutricionista, mestre em Nutrição Humana e doutora em Psicologia Social, é professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília. Estuda os determinantes da escolha alimentar, dentre eles a publicidade de alimentos

 

 

 

 


Tags:  alimentação infantil alimentação saudável doces e afeição produtos alimentícios x comida de verdade publicidade de alimentos

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Mariana Sá




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May 28, 2013

Tudo é a sociedade que impõe e seduz a criança. Tudo é cultura. É como música. Se não tivermos essas “porcarias” que rodam por aí para ouvirmos, as pessoas começariam a gostar de coisas “bacanas”.

Não dou conta, confesso, de lojas de calçadas e brinquedos que colocam como brinde um pirulito. Não perguntam se queremos, se nossa filha pode, se é diabética.. e se for? Vão logo colocando na mão da criança ou no pacote de presente. Eu já dou a negativa.. e fico com cara de ET. Azar.

Tudo é cultura e essa começa em casa. Sem prêmios, mas com muito esforço e diálogo.

Beijos…



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