maternidade / 29 de novembro de 2013

Por que trazer uma criança a este mundo?

Texto especial para o Milc por Mariana Sá*

Temos recebido provocações que nos perguntam se vimos e o que achamos da nova iniciativa de uma transnacional para engajamento numa suposta mudança. Pois bem, queremos dizer o que achamos:

Primeiro, achamos extremamente inteligente que empresas modifiquem seu posicionamento de mercado, afinal sabem que as pessoas querem mudanças. No planeta inteiro, as pessoas estão insatisfeitas com o sistema. As corporações têm uma coisa chamada “pesquisa de mercado” e sabem que precisam orientar sua estratégia de comunicação para o que as pessoas querem: basta um intervalo comercial para constatar que as empresas sabem que QUEREMOS MUDANÇAS NO MUNDO.

Segundo, achamos que são inteligentes, mas que os consumidores são mais: os consumidores, ops, os cidadãos SABEM que estas corporações não são parte da solução, mas parte do PROBLEMA. Uma parte pequena ainda, é verdade, sabe que se olharmos a cadeia produtiva completa com cuidado, veremos rastros das empresas na pobreza, na poluição, na exploração de crianças e adolescentes, na violência, na corrupção, enfim, na destruição do planeta: para o planeta mudar, as corporações precisam (talvez sejam obrigadas a) mudar muito.

Terceiro, temos exata clareza de que este tipo de comunicação serve para MASCARAR certas verdades: na impossibilidade de mudarem elas mesmas, de fazerem mudanças drásticas na sua cadeia produtiva, as corporações colocam a CULPA no consumidor: “ora, se eles não comprassem, estes venenos não existiriam” dizem uns, mesmo sabendo que os que compram o fazem porque não sabem de quase nada. E lançam campanhas de engajamento digital ao tempo em que alimentam o lobby contra a rotulagem correta dos produtos alimentícios.

Quarto, achamos que este filminho fofo ofende as nossa inteligência como pais e mães. Esta corporação está usando as culpas, os dilemas, as fragilidades HUMANAS para emocionar e engajar (nenhuma novidade na publicidade, é isso que fazem os publicitários renomados). Aí lançam esta estratégia do “estar com a gente é como fazer a sua parte na mudança” e se mostram como solução, porque sabem, no fundo, no fundo que são, na verdade, PARTE DO PROBLEMA. O consumidor consumindo não muda nada no mundo.

Finalmente, achamos que não vai colar! Tem um tanto de gente suficiente que não deixa enganar a razão pela emoção e sabe que, se precisamos de mudanças, estas não virão das corporações transnacionais: se queremos mudanças, temos que primeiro mudar a nós mesmos, cortar certas marcas da nossa lista de compras (sim, é possível, mesmo estando em grandes cidades) e, ao mesmo tempo, incidir na política, no Estado, no governo, para pressionar por políticas públicas que priorizem a população, os mais vulneráveis, sem dar a mínima para os interesses das corporações… sim, vivemos de utopia!

(Imagem do comercial)

(*) Mariana é publicitária e mestra em políticas públicas. É mãe de dois e escreve no blog Viciados em colo. Co-fundadora do Movimento Infância Livre de Consumismo.

 

v


Tags:  consumidor x cidadão publicidade publicidade x realidade responsabilidade corporativa

Bookmark and Share




Previous Post
Quando o marketing (mau) invade a redação
Next Post
12 razões para regular a publicidade infantil



Mariana Sá




You might also like




3 Comments

Nov 29, 2013

Assino embaixo, Mari. As empresas nunca serão parte da solução, pois, por definição, o negócio delas é “fazer mais com menos”. Na prática, significa sugar recursos humanos e naturais pelo menor preço possível (não colocando na conta delas prejuízos sociais e ambientais que causam) para vender pelo máximo preço possível e auferir o maior lucro que der para os “investidores”. E quanto mais a lógica das companhias for a do mercado financeiro, maiores as tragédias humanas e ambientais. Pode ser que euzinha deixar de comprar de grandes marcas, coisa que já faço sempre que possível e é quase sempre possível, não arranhe o lucro de ninguém. Mas faz de mim um ser humano melhor. Eu, pelo menos, não compactuo com escravidão, fome, consumo predatório de recursos naturais nem tampouco com a privatização de recursos naturais coletivos. Quanto mais entendo do mundo dos negócios, mais claro fica pra mim que meu lugar é fora dele. Bjos


Nov 29, 2013

Primeiro, estou ficando assustada: comecei ler o texto sem saber que era teu e já no segundo parágrafo pensei “É da Mari”.
Segundo, da última vez que isso aconteceu foi com a jornalista Marilene Felinto e logo depois ela escreveu um livro…uhu! 🙂
Terceiro, “sim, vivemos de utopia” e estamos na luta. Acho que essa é uma boa receita de mudança.


Dec 04, 2013

Prezada Mariana,

Entendo o que diz relacionando as empresas aos problemas do mundo, e concordo plenamente quando diz que as grandes empresas se fazem de vítimas, como se não fossem culpadas por esses problemas em que elas são parte ativa!
Entendo que o problema não é a publicidade, emocionar pessoas, ou o que quer que seja, vejo que o maior problema é a demagogia, não adianta falar, emocionar e não fazer nada, isso sim é um problema!
No mais, armas publicitárias sempre foram usadas, e a emoção é uma das mais fortes, e nesse vídeo pegaram pesado na emoção.
Eu sou casado há 5 anos e meio e ainda não tenho filhos. Minha esposa é realmente encanada com as incertezas do futuro, que acredito assombrarem a maioria das pessoas que pensam em ter filhos. Só espero que esse vídeo, apesar de publicitário, ajude algumas pessoas (como minha esposa) a terem menos medos, pois se nossos pais tivessem e se apegassem a esses medos, não estaríamos aqui, com certeza!
Felipe



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *



More Story
Quando o marketing (mau) invade a redação
(aviso: esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido...