criança e mídia / 9 de dezembro de 2013

Gloob e o impossível

Texto de Fernanda Carvalho*

O Gloob é um canal de TV a cabo infantil. Aqui em casa, desde que abriu, esse é o canal preferido. Tem alguns programas de produção brasileira, outros gringos que as crianças adoram, reprises de desenhos como She-Ra, He-Man, Caverna do Dragão… Enfim, é um canal legal.

Dito isso, uma coisa ficou gritante:

Já tem um tempo que vem rolando uma propaganda de uma loja virtual do canal, que vende produtos customizados tipo caneca, calendário etc.

Essa propaganda começou me incomodando por conta do diálogo travado entre dois meninos que estavam brincando.

Gloob e o impossivel

 

Imagem daqui

Um deles dizia algo do tipo: “Se pudesse, seria um urso com foguetes preso nas costas.” Aí o outro diz, desqualificando: “Impossível!” Daí o menino inventa outra coisa mirabolante e o outro repete: “Impossível!” E a coisa segue até que o menino diz que seria um quebra cabeças de 60 peças (uma das coisas que vende na loja) e o outro finalmente faz uma cara de “agora podemos começar a conversar…”

Durante o comercial, esse menino fala oito palavras. Dessas, três são IMPOSSÍVEL e as outras cinco são para enfatizar a impossibilidade.

Fiquei incomodada porque essa impossibilidade era referente aos sonhos de uma criança.

Acredito que não se deva, nunca, cercear a imaginação de uma criança, por isso, acho perigoso um comercial como esse, que é veiculado em quase todo intervalo da programação.

O pior é que a coisa não para por aí.

O menino sonhador é um menino branco e o menino que é pessimista é um menino negro. Não sei se a essa altura preciso ressaltar que a negritude do menino é bem pasteurizada para a TV e ele chega quase a ser loiro.

Mas, continuando… nesse ponto, depois de ter passado a idéia de que não vale a pena sonhar o impossível, a impressão que dá é que o menino branco sonha alto e o menino negro sequer sabe sonhar.

A palavra sonho tem um significado muito especial, principalmente quando se fala de raça.

Martin Luther King fez o famoso discurso antirracismo que ficou conhecido como “Eu tenho um sonho”.

Esse comercial parece zombar da cara do Sr. King, dizendo:

“Ah, é? Você tem um sonho? Eu não ligo a mínima, você vai é terminar como um quebra cabeça: esquartejado em 60 peças.”

Não precisa ir muito longe para imaginar a mensagem que um menino negro da favela pode entender com essa última frase.

Ok, pode ser que ele não perceba nada, afinal, o comercial é todo bonitinho, nem é agressivo em relação ao consumismo e eu tenho certeza de que foi pensado nos mínimos detalhes para ser politicamente correto.

O menino negro foi escolhido a dedo, é lindo, com cabelos black power que chocariam qualquer horário nobre, nariz largo e lábios grandes.

Não há diferença de classe entre as duas crianças, que brincam sem conflitos na sala de estar da casa de uma delas.

Mas o problema está justamente aí. Na nossa cultura, o racismo é uma coisa tão complexa e arraigada que, mesmo se esforçando muito, a gente acaba cometendo sem perceber.

Pode até parecer exagero da minha parte, mas o inconsciente tem uma linguagem própria, ele tanto faz as coisas sem perceber quanto entende muito mais do que a gente imagina. Daí minha preocupação com a mensagem que pode ser tirada desse comercial.

*Fernanda usou um pseudônimo para não terminar em 60 pedaços

v


Tags:  Gloob racismo sonhos da infância tv a cabo

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Mariana Sá




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9 Comments

Dec 09, 2013

Concordo plenamente com você. NUNCA se deve menosprezar um sonho de uma criança. Se as pessoas soubessem como os resultados desse tipo de atitude refletem na vida adulta, mudariam totalmente a forma de lidar com as crianças.

🙁


Dec 09, 2013

Realmente a propaganda foi muito infeliz, é a negação descarada da importância da criatividade! E quanto ao loirinho-disfarçado-de-afro é um tipo muito usado na Malhação e em novelas que querem um negro não-escravo.


Dec 09, 2013

Até concordo sobre a parte de sonhos (não acho que devamos incentivar todas as fantasias das crianças, é saudável também saber o que é impossível ou não, a frustração faz parte do amadurecimento) mas não sobre a parte do racismo. Muito pelo contrário, é positivo que a propaganda seja plural. Pior seria duas crianças brancas. E não gostei do comentário dobre o menino negro ser meio alourado: num país miscigenado como o nosso, isso é normal e deve ser aceito também. Já imaginou a criança lendo os seus comentários como ficaria?


Dec 09, 2013

Interessante a reflexão. Esse comercial tinha me incomodado muitíssimo desde o primeiro dia, sem que eu conseguisse localizar exatamente o motivo claro do incômodo. Eu ficava sempre com aquela impressão de “ah, que coisa fofa, só que não”…, e lendo seu texto me pareceu que a consideração sobre a desqualificação dos sonhos infantis foi na mosca do meu incômodo “misterioso”. Sobre a sutileza racista eu ainda preciso pensar um pouco, mas não duvido que estivesse mexendo comigo também (como mãe de duas meninas negras, acho muito possível).


Dec 10, 2013

Se tem uma parte que eu concordo é quando disse que a gente comete racismo sem perceber. Pois é exatamente isso que VOCÊ demonstrou com este texto, principalmente quando cita “menino negro da favela” totalmente desconexo com o texto: não é qualquer menino, é o negro, e não é qualquer menino negro, é o da favela!
E o que este menino tem de diferente, que faria com que entendesse uma mensagem diferente dos demais, além da pele e do lugar onde vive? Ah, entende-se que se é negro é oprimido e se é da favela é miserável, é isso?
Talvez o que te incomode na propaganda seja isso, um negro em uma posição de igual pra igual com um branco. Um negro, não o oprimido, mas o opressor dos sonhos do amigo branco. Se ele tivesse no papel de filho da empregada tava tudo certo.


    Dec 10, 2013

    Exato, Flávia! O problema é que essa caracterização racial é muito complexa e, conforme citado em comentários anteriores, qualquer criança que se considere negra e se pareça com o do comercial ficaria confusa, pra não dizer com a auto-estima baixa.
    O que irrita é a manutenção do esterótipo na propaganda e produção televisiva brasileira: negros sempre inferiores, nordestinos sempre vinculados ao cangaço ou forró, entre outras coisas.


Dec 10, 2013

POis é, esse comercial me incomoda muito… essa coisa de negar o sonho e a criatividade..é assustadora!!! Esse comercial é praticamente uma apologia ao consumismo!! não sonhe, não pense .. consuma!!! Achei muito agressivo !
Mas quanto ao menino negro… eu vi esse comercial 300 mil vezes e nem havia reparado se os meninos eram negros, japoneses, ou marcianos!
Acho q a grande questão sobre o racismo é essa… é só aparecer um negro em um comercial ou em uma novela e começamos a criar pensamentos estranhos sobre o assunto.
Não acho que o canal quis elogiar o menino branco… já que eles pregam que sonhar é impossível e bacana mesmo é ter o quebra cabeça.. que o menino negro sabe de bate e pronto que é ” bacana”. Mas só pensei nisso depois do seu comentário.
É uma situação muito delicada… e muito indigesta!
São crianças… e por mim poderiam ser todas verdes e laranjas com pintinhas cor de rosa!
Imagine… se na escola ou no comercial um menino branco briga ou bate num menino negro isso é racismo?
E se o contrário acontece o que é???
Isso não existe!! ( ou não deveria existir) criança é criança e se desentende, seja com quem for, assim como não depende de sua cor pra ser mais ou menos inteligente ou criativo!


Sep 14, 2015

Amo o gloob


Sep 26, 2016

Eu acho que essa questão de ficar vendo quem é branco e quem é negro só reforça o racismo, todos somos iguais não devemos ficar reparando na cor das pessoas. E já que vc falou sobre isso, imagine o contrario, se o menino branco falasse que seria impossivel o que o menino negro disse, iriam dizer que seria racismo porque ele está mandando e cerceando o menino negro.



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