Hoje recebemos a denúncia sobre um evento científico para pediatras que a Nestlé organiza para médicos no Ceará. E apuramos que isso ocorre desde 1956: provavelmente nossas mães e nossas avós foram orientadas por pediatras que participaram de um ou vários destes eventos.
Lendo de relance o programa da 70° edição que consta na página do evento, até podemos achar que pode ser bacana para os médicos terem acesso ao tipo de reflexão proposta, mas será que é ainda bacana também para quem promove?
Do ponto de vista da infância, da mídia e do consumo – o assunto de que tratamos – o que este curso tem de errado? É certo uma grande corporação promover um curso dirigido aos profissionais que têm como missão cuidar da saúde dos nossos filhos? É dever/missão desta empresa educar médicos?
Aliás: não é tão surpreendente o fato de ver um curso para médicos promovido pela Nestlé, quanto saber que a Sociedade Brasileira de Pediatria ser patrocinada pela mesma empresa?
Para nós, esta é uma estratégia de relacionamento com o médico que sabidamente é o principal formador de opinião das mães: é a principal fonte de informação sobre infância. É em quem mais a mãe confia para tomar decisões sobre a saúde e o desenvolvimento das crianças. Isso afeta diretamente os nossos filhos.
Não é nem um apoio, não é um simples patrocínio. É um curso que faz parte do calendário de eventos da Nestlé em sua estratégia de comunicação e/ou relações públicas com os médicos. Qual a expectativa de retorno que a Nestlé tem ao investir recursos na promoção deste tipo de evento? Qual?
Confira a página do evento: http://www.cnap2014.com.br/
Veja o que um pediatra diz sobre estas relações: http://bit.ly/1q8O39v
Leia um estudo completo: http://bit.ly/Scielo-O-leite-em-pó-na-ideologia-dominante
Diga o que acha também no twitter.com/infancialivre
Fonte: milc.net.br
PS: Nos anos 70, um escândalo atingiu a Nestlé, a empresa foi denunciada num relatório sobre a desnutrição e a promoção do aleitamento artificial nos países do Terceiro Mundo. O caso revelou contradições do capitalismo tardio e seus efeitos desastrosos para os mais vulneráveis: recém-nascidos em países pobres. Em 1979 a OMS/UNICEF hospeda uma reunião internacional em Genebra sobre alimentação de bebês e crianças. A reunião, que inclui representantes de governos, de organizações para saúde, grupos, pede que seja promovido um código internacional sobre marketing assim como ações para melhorar práticas de alimentação de bebês e crianças. As ONGs reúnem-se no IBFAN para poder pressionar mais as indústrias, sendo a principal a Nestlé.
Tags: aleitamento materno marketing