destaque_home / escola / 7 de julho de 2015

Comida na escola: inspirações para lancheiras, cantinas e refeitórios – caso 1

Texto especial para o Milc editado por Mariana Sá a partir de conversa com Lara Folster* 

No início do mês de junho, o Milc publicou um post sobre a responsabilidade das escolas na educação alimentar das crianças e conversamos muito sobre a lancheira da filha de Bela Gil. E desde então chega para nós experiências bem sucedidas de pessoas que resolveram transformar em ganha pão a promoção da saúde via boa alimentação também no ambiente escolar, juntando a necessidade de sobreviver e o desejo de fazer diferença no mundo. A partir desta semana, vamos contar a história de mães (e pais!) que, movidos pela insatisfação com a alimentação consumida pelas crianças na escola, resolveram promover mudanças e hoje tiram o seu sustento de pequenos (ou médios, tomara que grandes, um dia!) negócios voltados a celebrar a boa alimentação e a saúde desde a infância.

Para começar, vamos conhecer Lara Folster: uma micro-empresária que faz mais do que fornecer lanches para cantinas de escolas particulares, ela transformou a cantina num espaço de aprendizado. Além disso é embaixadora em São Paulo do projeto Food Revolution, de Jamie Oliver, e por isso também trabalha voluntariamente numa escola pública: o contrato com as escolas privadas viabiliza o trabalho na escola pública. Isso não é encantador?

Lara Folster, idealizadora da Lanche&Co

Lara Folster, idealizadora da Lanche&Co

Vejamos o que Lara nos diz: “A Lanche&Co é uma iniciativa que tem como meta levar comida de verdade para dentro de escolas particulares de São Paulo. E como embaixadora em SP do projeto Food Revolution, do Jamie Oliver, faço um trabalho voluntário em escolas públicas e outras instituições, contando com financiamento da própria Lanche&Co”. 

A cantinha virou centro de educação alimentar 

A escola é um espaço de educação por si só. As crianças aprendem muitas coisas sobre muitas disciplinas todos os dias, mas nada fazemos mais do que comer. Por isso, Lara acha que a educação alimentar deve estar dentro da matriz curricular, com a mesma importância das aulas de português. Nos alimentamos pelo menos três vezes ao dia (ou quatro, seis), mas o tempo ocupado com a educação alimentar na escola está muito aquém ao que dedicamos à matemática, por exemplo. Afinal somos o que comemos!

É uma mudança de paradigma: precisamos deixar de ver o espaço da cantina escolar como o lugar onde vende comida ruim “porque as crianças gostam” e transformá-lo em um centro de educação alimentar. Se ensinamos que devemos ter uma vida saudável (está na cartilha!), como podemos achar natural que nas prateleiras das cantinas escolares estejam inundadas de produtos de calorias vazias? Refrigerantes, por exemplo: como ainda se comercializa refrigerante em escolas?

A Chef Selma, na aula de pães caseiros para os pais

A Chef Selma, na aula de pães caseiros para os pais

 

Dificuldades

Lara conta que no início enfrentaram inúmeras resistências: a mudança proposta gerou muitos conflitos, normalmente porque era muito difícil para os pais perceberem que erraram (e erram!) na alimentação do filho por falta de informação suficiente e adequada.

A equipe precisa estar sempre preparada como explicar novamente por que levar a alimentação saudável para dentro da escola: explicar a porque a comida tem que ser feita na hora, porque os os sucos são da fruta, enfim, porque colocar na escola diariamente a comida de verdade!

Algumas famílias têm dificuldade, mesmo em casa, de saber que escolha fazer. A indústria é tão profissional no quesito “como ganhar mais consumidores”, que um simples pão caseiro feito na hora com manteiga fica sem graça: “é claro, no começo a criança/adolescente reclama) perto de salgadinhos vazios/cheios de sal/conservantes/aromatizantes/corantes/açúcar coloridos do super herói e da princesa que eles vêem na TV todo dia!” diz Lara.

Mas a equipe tem muitos argumentos:

– está tudo estampado e escrito no rótulo, basta querer ver: parar com adultos e crianças para entender cada item da lista de ingredientes de um produto ultraprocessado pode ser revelador;

– ao lado da comida de verdade tem uma legião de soldados do bem para nos dar aquela força: já existe muita informação boa circulando;

– estão se multiplicando as iniciativas com propósitos de melhorar a alimentação das crianças: Lara e sua equipe usa como inspiração e argumento as marmitas de Bela Gil, as receitinhas do blog As Delicias do Dudu, as Dias com Mafalda e os lanches do Jamie. Estes e outros tem muito a ensinar dentro e fora das escolas;

– a parceria com a família dos alunos: cada criança tem o potencial de promover importantes mudanças na alimentação dos adultos da família e eles ganham o poder da mudança e este é um fator muito importante para essa nova cantina saudável.

Lara nos conta que por mais descrentes que alguns pais tenham ficaram um pouco com a proposta de mudança para a alimentação saudável dentro da escola: “no fim, depois de muito empenho, inúmeras conversas, exemplificações e uma bela equipe de cozinheiras, a comida saudável venceu!”

pizza nutritiva de espinafre e beterraba - vão no molho de tomate - Suco de laranja natural e melancia

pizza nutritiva de espinafre e beterraba – vão no molho de tomate – Suco de laranja natural e melancia

A primeira escola

Para que qualquer iniciativa feita dentro dos muros da escola ser bem sucedida é necessário que existam pessoas no seu corpo diretivo que abracem a causa da alimentação, para que sejam capazes de sustentar a decisão de mudar diante das resistências dos “clientes”, para que não tenham medo e para que possam ir caminhando no processo de mudança. A escola onde a iniciativa funciona fica na zona norte de SP, o Colégio Wellington, que foi destemida em assumir a proposta a nossa empresa integralmente, mesmo com a resistência de alguns pais.

Além de cantina apenas com produtos naturais, existem os cardápios mensais. No intervalo das aulas, o aluno se serve de comida de verdade, cheia de nutrientes, não precisando comprar lanches todos os dias. A empresa bolou um “combo” contendo frutas que os faz consumi-las todos os dias, já que dificilmente compraria.

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Aula de culinária: crianças aprendem a preparar suco mix de laranja com cenoura

No que Lara se inspira

“O ato de se alimentar é político,ecológico. Acreditamos que por meio da alimentação podemos mudar o mundo, criando seres capazes de opinar com mais segurança e verdade,por exemplo. Com nossos parceiros, clientes, equipe e claro, nossos alunos, fazemos a diferença!” ela diz.

Com o sucesso diário da desta experiência, temos certeza que é o ambiente escolar é o lugar perfeito para iniciar esta mudança no padrão alimentar e de saúde da população: uma criança atendida numa escola responsável tem reflexos em todos os familiares, com resultados maravilhosos.

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Dia de festa tem guacamole com tortillas nutritivas (feitas com espinafre, beterraba e milho)

Dia de Festa tem salada de fruta na casquinha de sorvete

Dia de Festa tem salada de fruta na casquinha de sorvete

 Outras imagens para inspirar pais e merendeiras:

Muffin caprese - tomate, queijo branco e manjericão

Muffin caprese – tomate, queijo branco e manjericão

Pães caseiros de mandioquinha

Pães caseiros de mandioquinha

Mix de castanhas e frutas secas

Mix de castanhas e frutas secas

 

Batata assada com alecrim

Batata assada com alecrim

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Best seller na escola – brownie de espinafre com cenoura

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Mural da cantina

Aula de educação nutricional - tema cálcio: O que é? Onde está? O que faz?

Aula de educação nutricional – tema cálcio: O que é? Onde está? O que faz?

Notas da editora:
1. O Milc não recebeu nenhuma gratificação, brinde ou incentivo da parte da Lanche&Co, do Colégio Wellington, nem como de nenhuma das outras marcas aqui citadas.

2. Este texto foi construído conjuntamente para inspirar mães, diretoras, professoras, educadoras a pensar nas escolas como co-responsáveis pela alimentação e pela saúde das crianças.

3. Este texto não tem objetivo promocional, mas incentivador de práticas de promoção de alimentação saudável na escola. Gostamos de apontar problemas e adoramos compartilhar soluções.

4. Algumas imagens que ilustram este post contém embalagens descartáveis. A idealizadora do Lanche&Co nos contou que este foi um tema muito discutido no ano anterior à implantação da proposta na escola; atualmente trabalham com o mínimo possível de descartáveis e que os que porventura sejam utilizados têm destinação adequada. Conta ainda que os copinhas plástico que aparecem nas imagens já foram substituídos por copinhos de papel biodegradável. Explica ainda que como toda a comida é preparada na escola, o número de embalagens é muito reduzido.

5. Lara possui autorização legal dos pais para divulgar as fotos dos seus alunos em publicações. Mas caso qualquer pai ou mãe deseje que a imagem do seu filho não apareça neste texto, basta pedir que faremos a retirada. Demos preferências às imagens onde apareçam poucas crianças, mas consideramos importante incluir as imagens que ilustram a proposta.

Leia sobre outros casos:
Caso 2: Papinhas da Vovó

(*) Lara estudou cozinha natural na Natural Gourmet Institute em NY, mas aprendeu a cozinhar mesmo, em casa, com a avó, a mãe e hoje com seu marido, chef de cozinha. Tornou-se embaixadora do Food Revolution em São Paulo em 2012, um ano após fundar a Lanche&Co, empresa especializada (mesmo!) em fornecer comida de verdade para escolas. A empresa surgiu de uma necessidade pessoal: seu filho mais velho levava lanchinho natural, suco integral sem açúcar e uma fruta pra escola, enquanto a amiguinha do lado tinha refrigerante de cola 600 ml e salgadinho vermelho brilhante picante. Revolução e lei já!

Mariana Sá é mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É cofundadora do Milc e membro da Rebrinc. Mariana faz regulação de publicidade em casa desde que a mais velha nasceu e acredita que um país sério deve priorizar a infância, o que – entre outras coisas – significa disciplinar o mercado em relação aos direitos das crianças.


Tags:  #comidanaescola alimentação escolar alimentação infantil alimentação saudável comida na escola Food Revolution Day marketing de alimentos publicidade de alimentos

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Mariana Sá




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11 Comments

Jul 07, 2015

Olá, gostaria muito do contato da Lara, estou no início de um plano de negócios para vender lanche saudável as escolas daqui da região de floripa, mas tenho tantas dúvidas.


Jul 08, 2015

Bom dia,

Amei ler a reportagem “Comida na escola: inspirações para lancheiras, cantinas e refeitórios” e ver que já existem outras iniciativas pelo Brasil afora que compartilham da mesma filosofia do meu trabalho, alimentação saudável nas escolas. Por isso, gostaria de compartilhar minha experiência com vocês também!

Sou nutricionista e assim que me formei, decidi abrir uma empresa para fornecer kits saudáveis para crianças em escolas. Mas ao pesquisar os produtos nos supermercados vi que era impossível utilizá-los em função da péssima composição nutricional dos mesmos. O documentário “Muito Além do Peso” foi o grande motivador no processo de investigação dos produtos destinados às crianças e nos ajudou a desenvolver um senso crítico quanto a posição das indústrias alimentares. Decidi então, ir para cozinha e reinventar receitas da vovó utilizando farinhas integrais, laticínios desnatados, sementes, grãos, azeite de oliva, níveis moderados de sal e açúcar, a fim de fornecer produtos naturais, sem adição final de conservantes e aditivos alimentares para as crianças. Também sempre estamos de olho nas receitas postadas por Bela Gil, Delícias do Dudu, Jamie Oliver, Rita Lobo, a fim de incrementar nosso repertório de produtos.

Como reconhecimento do nosso trabalho, em 2013, fui premiada pelo Conselho Federal de Nutricionistas no Concurso Nacional de Experiências Exitosas em Lanchonetes e Restaurantes Comerciais pela iniciativa da empresa.
http://www.cfn.org.br/eficiente/sites/cfn/pt-br/site.php?secao=noticias&pub=1603

Divulgando essa ideia, surgiu a oportunidade de administrar uma cantina escolar, em Belo Horizonte, e nela comercializamos além dos produtos de fabricação própria, produtos industrializados que passam por critérios rígidos, optando sempre por aqueles com melhor composição nutricional. Não trabalhamos com a venda de néctares, refrigerantes, frituras e massas de salgados ricas em gorduras (folhadas e “podres”).

Para tornar a relação entre família, escola, aluno e cantina ainda mais próxima, atualmente nós fechamos uma parceria com a Nutrebem. Por meio de um cartão pré-pago, a criança ou o adolescente realiza a compra por autoatendimento e os pais podem limitar os lanches a serem consumidos, conferindo a segurança alimentar do filho. Os alimentos são classificados em muito e pouco nutritivos, assim todo final do mês os pais recebem o Boletim Nutricional informando quais tipos de alimentos foram mais consumidos, além das calorias e demais informações nutricionais. Também iniciamos esse semestre, atividades de Educação Alimentar e Nutricional com os alunos da escola por meio de intervenções, murais e horta escolar. Para o próximo semestre já contamos com a participação de uma estagiária a fim de ampliar essas ações educativas.

Desde já agradeço! E Parabéns pela reportagem!!!

Atenciosamente,
Luísa.


    Jul 09, 2015

    Quer fazer parte deste mural de inspirações?
    Mande texto falando sobre a iniciativa, o funcionamento, as dificuldades, as resistências, os parceiros, as inspirações com fotos (legendadas) similares às que estão neste post (sua, das comidas, da escola, das aulas se houver, sempre sem focar no rosto das crianças) e miniCV para infancialivredeconsumismo@gmail.com. Como dito no post a ênfase não é na marca, nem na escola, é na pessoa que mobiliza a ideia! quanto menos informar e mais pessoal melhor! fale de vc! das suas ideias, do que te move, das suas motivações…
    abraços,
    Mariana


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Feb 19, 2016

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Jun 29, 2016

qUERIA SABER QUANTAS PESSOAS MANIPULAM ESSES ALIMENTOS. nO COLEGIO TEMOS MEDIA DE 1500 ALUNOS DIA. NÃO TEMOS NADA FRITO TUDO ASSADO, MAS NÃO TEMOS COMO FAZER O SUCO NA HORA, E NEM MANIPULAR FRUTAS. qUERIA SABER SE POSIVEL O PREÇO MEDIO DESSES LANCHES NO COLEGIO wELLINGTON. nOSSA CANTINA ABRE DAS 7 AS 19 HS COM 3 PESSOAS.


Oct 14, 2017

Sou responsável pela administração de dois colégios da rede particular em São José dos Campos, interior do estado de São Paulo. Temos 1500 alunos matriculados divididos entre as turmas do Ensino Fundamental II e Ensino Médio com faixa etária de 11 à 18 anos. Nossas instalações possuem duas cantinas que atendem nossos alunos, professores e alguns colaboradores com o fornecimento de alimentação durantes os intervalos. A administração da cantina é feita por uma empresa terceira, nesse momento estamos avaliando a possiblidade de uma nova parceria para administração das cantinas.
Gostaria de receber indicação de empresas que possam fazer parcerias com o o colégio na administração das nossas cantinas.



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