outros / 10 de julho de 2012

A falácia do poder de consumo infantil

Marina Maria, mãe de Clara (8) e Ana (7)

As empresas encontraram um nicho de mercado a ser explorado: nossas crianças. As expressões “capacidade de consumo desse público”, “influência nas compras da família” pululam nos discursos que defendem uma publicidade voltada ao público infantil.

Para muitas pessoas, isso é irrelevante. Afinal, nós adultos também sofremos a pressão da publicidade e temos que lidar com isso. Nada mais natural então que esse aprendizado seja iniciado na infância. Tudo isso seria muito bonito se não fosse uma falácia.

Isso porque a criança não possui os instrumentos necessários para gerir essa pressão. Antes dos sete anos, a criança ainda passeia entre o real e o imaginário: para ela, o que parece ser, é. Somente aos 11-12 anos ela chegará a um estágio em que será capaz de trabalhar com  abstrações e com o  “poderia ser, não necessariamente é”.

Dessa forma, por mais boa vontade que a família tenha em mediar a interação da criança com a publicidade, muito pouco pode ser feito antes de a criança estar pronta para assimilar esses conceitos.

É óbvio que toda aprendizagem é válida para a vida futura e que os exemplos observados pela criança fornecerão bases para a formação de um consumidor crítico.  O que preocupa o pai consciente não é o futuro, mas o presente. Se não pode processar o funcionamento da publicidade, como essa criança reage ao bombardeio publicitário?

Frustrações fazem parte da vida, são importantíssimas para a formação do indivíduo. Porém a vida, sem o auxílio da publicidade, já nos fornece bastante material para isso, até mais do que gostaríamos. Será mesmo necessário ter que expor as crianças a mais essa situação?

A ideia não é acabar com a publicidade. Gostando ou não, ela tem o seu papel na nossa sociedade. O que precisamos é direcionar essa publicidade a quem de fato tem a tal “capacidade de consumo” citada anteriormente: os pais e responsáveis.



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Mariana Sá




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Jul 15, 2012

“Precisamos preparar nossos filhos para o mundo”. Esse é um dos argumentos mais usados para justificar a manutenção da publicidade para as crianças. Esquecem, no entanto, que cada aprendizado tem seu tempo e que deve respeitar o estágio de desenvolvimento das crianças. Isso também se aplica à publicidade. Criança não deveria ser vista como um consumidor em potencial. Estamos voltando ao tempo em que as crianças eram vistas como miniaturas de adultos. Fico chocada em ver que depois de séculos de evolução em relação à definição do que é ser criança, estejamos na contramão quando o assunto é publicidade.


Oct 02, 2012

Eu concordo com vc, mas acho que nós (como sociedade) precisamos ir mais além se quisermos realmente proporcionar um ambiente social menos insalubre para nós e os nossos filhos. Desenvolver instumentos jurídicos que e de fato protejam a infância da total falta de escrúpulos de parte dos publicitários/empresas/mídia é um bom começo, mas o buraco é muito mais embaixo. Por exemplo:

1. O que justifica que nós consideremos normal peças publicitárias com objetivo claro de “enrolar” o consumidor para que ele adquira determinado produto ou aceite determinado ponto de vista?
2. O que justifica que nós aceitemos que a mídia/publicitários implementem uma cultura da baixa autoestima ou da mania de limpeza ou da magreza para oferecer soluções para o problema criado por eles?

Resumindo: por que nós aceitamos que pessoas através da mídia abandonem por completo a ética e recorram a falácias e estratégias que induzam a escolhas não racionais com o objetivo de nos convencer de seja lá o quê?

É claro que quando se fala em crianças tudo é mais grave e mais urgente, por isso precisamos começar a tentar uma solução pra elas, mas me parece impossível chegar ao nosso objetivo, uma sociedade menos insalubre, enquanto não abandonarmos essa cultura da tolerância à falta de ética quando o dinheiro entra em jogo.


Oct 10, 2012

Alan, acredito que suas indagações são corretas. No texto acima, preferi focar na questão da criança, pois como você citou, é mais grave e urgente.

Essas questões de cultura opressora da imagem e de criação de necessidades também me incomoda – e acredito que afetem as crianças também, mesmo quando elas não são o alvo preferencial.

Acho que a questão que fica é: como regular a publicidade sem ferir a liberdade de expressão?

Fica como sugestão de pauta para os administradores do site a discussão dessa ideia.

Obrigada pelas considerações. 😉



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