outros / 21 de setembro de 2012

Carta às mães

Meu nome é Agnes Arato e sou uma das mães que fazem parte do coletivo Infância Livre de Consumismo. Se você pensar no grupo gestor das ações deste coletivo, sou uma das 20. Se pensar no grupo que acompanha, compartilha, debate e pensa parecido, sou um dos quase nove mil pais e mães que fazem o coletivo Infância Livre de Consumismo.
Quero pedir licença aos pais para falar às mães – isso porque historicamente e estatisticamente são as mães que tocam a vida prática da prole. São as mães que parem os filhos, que amamentam, e são principalmente elas que cuidam das crianças na primeira infância. Aqui em casa, embora eu me esforce e cobre muito o contrário, ainda é assim.

Quero falar com você, mãe, para que a gente se entenda. Não estamos contra você. Estamos com você!

Nossa briga não é com você, mãe, que eventualmente fornece comida industrializada para seu filho ou que não amamentou exclusivamente até os seis meses (seja por qual motivo for), ou com qualquer outra mãe, pai ou família.

A nossa briga é com o mercado que não nos avisa que alguns alimentos industrializados, em uma única porção, contêm 75% do sódio que poderíamos ingerir em todo o dia, e que isso pode causar inúmeras doenças em nossas famílias. A nossa briga é com o “comunicador” que mantém no ar um programa infantil que, a cada cinco minutos, para tudo o que está fazendo – brincadeiras, desenhos – para vender mais um produto licenciado a nossos filhos. A nossa briga é com os anunciantes que colocam desenho animado e música infantil em propaganda de produtos para adultos, provocando e reforçando a criança como tomadora de decisões de compra de toda a família. A nossa briga é com o fabricante que coloca um brinquedinho em seu lanchinho pouco saudável, deixando para nós, mães, a tarefa inglória de explicar e barganhar com a criança que quer aquilo de qualquer jeito, pois “todo mundo tem”.

A nossa briga é com o pediatra que, ao invés de nos ensinar a estimular a produção de leite, recomenda uma fórmula industrializada logo de início, e não avisa que o nosso próprio leite, além de gratuito, fornece uma proteção a nossos filhos que nenhum outro leite fornecerá. A nossa briga é com a imprensa que, ao invés de apresentar mais soluções para a falta de tempo na hora de ir para a cozinha, indica a papinha industrializada como única saída (saudável?) para o dilema.

Nossa briga não é com você, mãe. Não queremos culpá-la. Mas também não estamos aqui para aliviar. Queremos que você sente conosco, reflita, debata, participe. Afinal, para criar nossos filhos em um mundo onde seja mais importante o “ser” do que o “ter” é preciso que cada um de nós se mobilize. Ao invés de nos acomodarmos em nossa pretensa impotência diante da força de grandes corporações ou conglomerados de comunicação, se cada um de nós der sua pequena contribuição, podemos, sim, mudar hábitos e pensamentos que pareciam imutáveis. Penso sempre na metáfora do formigueiro e da formiga. A formiga, sozinha, não movimenta nada. Mas do que um formigueiro é capaz?

Abraços a todos!


Tags:  carta às mães

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Mariana Sá




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0 Comment

Sep 21, 2012

Parabéns, Agnes! Corajosa e humana. Mãe de verdade.


Sep 21, 2012

Às vezes me parece que há uma “armadura” tão arraigada nas discussões maternas… Não se pode falar nas mentiras q, porque quem passou por cesárea se sente ofendida; não pode dizer o quanto é delicioso amamentar, porque quem não amamentou sente que está sendo menosprezada; não se pode criticar a indústria, porque todo mundo que um dia consumiu algo dessa indústria acredita que está sendo criticada… Vamos abrir a mente e o coração, pessoas!!! O debate coletivo precisa de reflexões acuradas, que saibam encarar o senso comum e, de forma sincera, buscar o que está velado, por mais cruel que possa ser… Até porque não há crueldade maior do que maternar de forma superficial, ignorando seus instintos e a capacidade sensitiva de ser mãe.


Sep 22, 2012

Com muita verdade essas palavras….Temos q ser Mães mais atentas afinal são futuros seres q estamos desenvolvendo …e queremos passar valores ou deixar a tv ou esse sistema consumista ditar as regras… do q comemos onde frequentamos quando saimos etc… o livre arbitrio esta tambem dentro do lar quando dessidimos ñ comer carne diminuir no consumo de sal e açucar…isso tudo faz parte da educação familiar q refletira nesses futuros adultos…mais concientes ou não depende de nós…


Sep 24, 2012

Que legal essa “carta”! Estava mesmo observando vários comentários equivocados nos posts anteriores e mesmo em outros blogs “maternos”. Muito bom teu texto, leve, delicado e direto. Amei, parabéns!


Sep 27, 2012

Perfeito!!
Porque parece que foi criado dois lados, e não é isso.

Vou passar adiante!!


Sep 29, 2012

Também gostei! Acho que o grande barato de qualquer rede de relacionamento é a troca de conhecimento. Cada um escolhe o que fazer com o conhecimento. Pode descartar ou absorver. Os debates precisam existir, mas o que acho mais “chato” são os radicalismos. Se ofender com tudo, escolher um lado, não se permitir pensar, não se permitir mudar de ideia. abs, Gisa


Oct 04, 2012

Linda carta!
Tudo que sinto aqui dentro do meu coração!
Reflexão, debate e transformação! Nossos filhos merecem essa prova de amor!
Estamos juntas!

Lyvian Sena


Oct 23, 2012

Perfeito este texto, muito bom e muito oportuno!
Parabéns, Agnes, e parabéns ILC.
Tamo junto o/


Aug 20, 2013

Parabéns pelas belas palavras!!! Estamos juntos apoaindo em tudo que foi citado!!!!


Aug 20, 2013

Às vezes me parece que há uma “armadura” tão arraigada nas discussões maternas…(2)

Porque a “mãe perfeita” também é um produto anunciado constantemente na midia.
E muitas vão comprando as ideias como são vendidas, sem reflexão e no momento em que se deparam com argumentos que dizem exatamente o contrário, muitas se sentem enganadas, feitas de bobas.

Vi muitas das mulheres que optaram pela cesarea marcada, com olhos brilhantes quando contei do parto normal, da facilidade na amamentação, que minha filha ficou sobre meu corpo durante uns 30 minutos nos primeiros momentos de vida, só saindo de perto de mim para tomar banho e retornando em seguida.
Vi gente achando um absurdo o fato que pude ter 3 pessoas me acompanhando no pré-parto, num processo humanizado, lindo, onde até meu irmão e padrinho participou do processo de nascimento dela.

Na minha opinião falta o questionamento sobre o que se perde quando de se opta pelo caminho mais fácil.


Aug 20, 2013

Boa tarde, meninas! Tenho 33 anos, sou pediatra, mãe de Clara(2meses) , e tenho dois enteados (2anos e 8 meses e 8 anos). Aqui em casa combatemos o consumismo o quanto a gente pode. Roupas de Clara são basicamente de brechó, berço e bebê conforto compramos de segunda mão. Quando meus enteados estão na minha casa, incentivamos para prática de brincadeiras como colagem, pintura. Todavia é difícil… O maior vive pedindo o iphone, depois solicita o Ipad, e por fim quer o “bendito” playstation 2. Pede brinquedo X porque o primo tem, o colega da escola tem também. É o mesmo brinquedo que anuncia no canal Y infantil da tv a cabo. No lanche da escola gosta de biscoito recheado, suquinho pronto de caixinha. Os mesmos que anunciam no canal Y infantil da tv a cabo… Para comer um prato saudável, é uma luta
O menor já reconhce a marca da Adidas, quer brincar no ipad como o irmão maior. Olho para eles e me preocupo quando chegar a vez de Clara. Não estou aqui julgando a educação de ninguém. Longe de mim. Educar uma criança é tarefa árdua. É preciso informação, troca de figurinhas com outros pais, ajuda psicológica se necessário (por que, não?)Aproveito para parabenizar este blog que muito me ajuda nesta tarefa, aqui mesmo dentro do meu lar. Acho ótimo estar sintonizada com outros pais,que como eu e meu esposo, também se preocupam com a construção do cidadão. E isto começa dentro de casa. Desde a infância.



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