campanhas / 7 de novembro de 2012

Para conhecer os vegetais é preciso viver com eles

Texto de Renata Kotscho Velloso*

Foto: arquivo pessoal. Proibida a reprodução sem autorização da autora.

Todos os anos, no mês de outubro, as escolas americanas têm uma semana voltada para a saúde. Normalmente são tratados temas como prevenção de drogas, álcool e tabaco. Como esses assuntos não fazem tanto parte da realidade das crianças menores, entre o pré e o quinto ano decidimos trabalhar alimentação e atividade física. Eu, como coordenadora da semana, fui escolhida para conversar com as crianças sobre alimentação durante o almoço.

Minha experiência como mãe mostra que falar, falar, falar muitas vezes encontra pouco eco no ouvido dos pequenos, então ao invés de fazer uma palestra eu resolvi montar dois jogos. No primeiro voluntários de cada classe deveriam montar um prato saudável selecionando entre opções de frutas, vegetais, carnes e as tais “porcarias”. No segundo jogo as crianças deveriam dizer o nome dos vegetais que eu apresentava, ganhando pontos para os seus times quando acertavam.

Esse segundo jogo foi inspirado em um documentário que eu tinha assistido no qual as crianças eram incapazes de reconhecer vegetais simples, como brócolis, ao passo que sabiam sem pestanejar o nome de marcas como Motorola, Vivo etc.

Pois bem, qual não foi a minha surpresa ao ver que os alunos não só conseguiram montar pratos bastante próximos daquilo que seria o ideal (incluindo vegetais, frutas, proteínas e grãos, deixando de lado as frituras e os doces) como também acertaram todos os vegetais que eu apresentei – sim, todos! As crianças sabiam o nome inclusive de vegetais menos conhecidos, como couve de bruxelas. A brincadeira, ao invés de ser quem sabia mais, acabou sendo de quem era mais rápido para responder porque aparentemente quase todos ali conheciam bem os vegetais.

O que faz essas crianças diferentes da média que encontramos tanto no Brasil quanto aqui nos EUA? Uma diferença que não posso deixar de citar é a econômica. Esse evento ocorreu em Hillsborough, uma das cidades mais ricas da Califórnia. Ainda que dinheiro não garanta nem de longe uma alimentação saudável, devemos reconhecer que infelizmente comer bem custa mais caro do que comer mal. Ir ao supermercado e comprar carne e legumes orgânicos, pão integral e queijo de verdade para fazer um hambúrguer em casa custa várias vezes mais do que esse sanduíche comprado em uma rede de fast food. Mas dinheiro não é suficiente. Pensando no que poderia ter diferenciado essa crianças, encontrei algumas respostas.

Foto: arquivo pessoal. Proibida a reprodução sem autorização da autora.

Uma delas é a cultura da feira de rua, muitas vezes esquecida nas cidades grandes. Aqui o “Farmer’s Market” – a feira dos fazendeiros – ocorre todos os domingos e é um dos programas preferidos das famílias nos finais de semana. É um lugar onde os produtores vendem diretamente as suas colheitas, o que significa qualidade alta e preço mais baixo. As crianças sentem os vegetais, experimentam as frutas, entendem que não é época de damasco e por isso não tem a fruta fresca e sim só geléia pra vender.

Foto: arquivo pessoal. Proibida a reprodução sem autorização da autora.

Outro diferencial da cidade é o “Harvest Garden”. Trata-se de um terreno que foi doado pela prefeitura para a criação de uma horta orgânica. Nesse lugar, aos finais de semana, crianças e adolescentes aprendem a plantar, a cuidar da horta e quando é hora de colher. Tudo que é produzido é doado para instituições que cuidam de pessoas carentes. Mas é claro que a horta beneficia mais as pessoas que trabalham nela do que quem recebe os alimentos (até porque se ao invés de uma horta tivéssemos um estacionamento no lugar a instituição de caridade poderia lucrar bem mais).

Foto: arquivo pessoal. Proibida a reprodução sem autorização da autora.

Então eu acredito que as crianças de Hillsborough conheçam os vegetais porque lidam diretamente com eles. Cuidar da horta, ir à feira e cozinhar são atividades consideradas bacanas, que trazem orgulho para as crianças. Elas aprendem não porque tiveram aula e uma semana na escola voltada para o assunto. Elas aprendem porque comer de forma saudável faz parte do dia a dia.

*Renata é mãe de 3 meninas: Luiza, Julia e Clara. Médica formada pela Unicamp, em Campinas, mora há um ano com sua família na Califórnia. Sua filha Julia é autora do blog Chef Juju (http://chefjuju.blogspot.com/) com muitas receitas gostosas.


Tags:  comida de verdade nutrição infantil publicidade de alimentos

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Mariana Sá




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1 Comment

Nov 07, 2012

Num país como o Brasil, para que uma iniciativa desta tenha escala, precisamos que o Estado transforme a ligação escola-alimentação em política pública: estimular (financiar) hortas escolares, dar formação aos profissionais de educação para lidarem com o tema, promover compras locais de ingredientes para a merenda escolar, etc. A realidade brasileira é que a maioria frequenta escolas públicas e são cases de sucesso as escolas que conseguem colocar em prática boas ideias.. até prêmio ganham… precisamos de uma revolução para a infância! O futuro é prioridade, mas ele começa todos os dias…



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